segunda-feira, 7 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de … Tomás Vilafranca (7ºF)

POEMA DA AUTO-ESTRADA

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta,
Vai na brasa de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pelo cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa de lambreta.

António Gedeão

domingo, 6 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Maria João Lima


PALAVRAS PARA A MINHA MÃE

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.


José Luís Peixoto, in, A Casa, a Escuridão

sábado, 5 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Conceição Colejo


O TEU OLHAR

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!


Florbela Espanca, in A Mensageira das Violetas

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Ana Rita (12º B)


VAGA, NO AZUL AMPLO SOLTA

Vaga no azul, amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.


Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quinta-feira, 3 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Rita Taveira (7ºF)


PERGUNTO-TE ONDE SE ACHA A MINHA VIDA

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.

Cecília Meireles, in Poemas (1942-1959)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... João Leonardo (7ºF)

ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de maio de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... A páginas Tantas


Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

José Afonso, Cantigas do Maio


Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=gbcQt_f1DK0

segunda-feira, 30 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Tiago Santos

COM UMA VIAGEM NA PALMA DA MÃO

Agarras-te à hora
Em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores
Que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão

Descobres o Mundo
De quem tem pouco a perder
E sobes às estrelas
Que ontem não podias ver
E perdes o medo de estar só
No meio do multidão

Tradições
Atrás de contradições
Fizeram-te abrir os olhos
Podes dizer:
Eu... sou

Jorge Palma, in Com Uma Viagem Na Palma da Mão

domingo, 29 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Ana Cristina Marques



UM HOMEM SÓ

Um homem de meia idade treme,
tem na mão o papel, o argumento
ou a escapatória daquilo que o traz por ali.

Esconde as palavras que parecem
dissimular-se por detrás dum bigode
nervoso. O olhar foge-lhe para a mão

onde transporta a sua arma de caligrafia
urgente, vem assinada por alguém
que lhe reconhece certamente os passos

e as angústias, obstáculos de toda uma vida
que deixou de lhe despertar o interesse.
«Eu quero cumprir!»

Repete ele a custo, numa espécie de discurso
com que engana a sua própria existência.
O destinatário do recado finge acreditar

na sua encenação.
O homem bate em rápida retirada
prometendo regressar com brevidade,

mas só ele sabe o quanto quer fugir dali,
o quanto é amarga a figura que representa
neste cilíndrico mundo cruel, que o esmaga,

sem contemplações.


Miguel Pires Cabral

sábado, 28 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de … Ângela Semedo


LIBERTAÇÃO

E porque o teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande.

E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande.

E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande.

E porque teu sangue vive o destino de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações dores alegrias e desgraças

- tua ilha é grande.

Manuel Lopes

sexta-feira, 27 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Isabel Rainha

Na Universidade de Coimbra, os anos sessenta, em plena
ditadura, ficaram marcados pela contestação ao regime. Era principalmente
através dos poetas que se chegava aos menos politizados alertando-os para as injustiças, ao mesmo tempo que se mostrava um caminho de esperança.

José Afonso e Adriano Correia de Oliveira traziam-nos
a palavra dos poetas com música, a que melhor atinge o coração dos homens, mas
havia livros que nos tocavam de modo muito especial porque refletiam o nosso
tempo. Era o caso da Praça da Canção e de O Canto e as Armas, ambos
de Manuel Alegre.

O poema que envio pertence ao último livro. Fala-nos
do poder da palavra e é dedicado a Luís de Camões.


LUÍS DE CAMÕES

Tinha uma flauta.
Não tinha mais nada mas tinha uma flauta
tinha um órgão no sangue uma fonte de música
tinha uma flauta.

Os outros armavam-se mas ele não:
tinha uma flauta.
Os outros jogavam perdiam ganhavam
tinham Madrid e tinham Lisboa
tinham escravos na Índia mas ele não:
tinha uma flauta.

Tinham navios tinham soldados
tinham palácios e tinham forcas
tinham igrejas e tribunais
mas ele não:
tinha uma flauta.

Só ele Príncipe.
Dormiam rainhas na cama do rei
princesas esperavam no belvedere
Ele tinha uma escrava que morreu no mar.

Morreram escravas as rainhas
morreram escravas as princesas
nenhuma teve o seu rei
para nenhuma chegou o Príncipe.
Por isso a única rainha
foi aquela escrava que morreu no mar:
só ela teve
o que tinha uma flauta.

Morreram os reis que tinham impérios
morreram os príncipes que tinham castelos
mas ele não:
tinha uma flauta.
De fora vieram reis
vieram armas de fora
os príncipes entregaram armas
ficou sem armas o povo.
As armas de fora venceram
todas as armas de dentro.
Só não venceram o que não tinha armas:
tinha uma flauta.

E as vozes de fora mandaram
calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta.
Vieram juízes e cadeias.
Mas a flauta cantava.

Passaram por todas as fronteiras.
Só não puderam passar
pela fronteira
daquela flauta.

E quando tudo se perdeu
ficou a arma do que não tinha armas:
tinha uma flauta.

Ficou uma flauta que cantava.
E era uma Pátria.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas

quinta-feira, 26 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Conceição Ribeiro

Deu-nos Abril
o gesto e a palavra

fala de nós
por dentro da raiz

Mulheres
quebrámos as grandes barricadas
dizendo igualdade
a quem ouvir nos quis

E assim continuamos de mãos dadas
O povo somos
mulheres do meu país.

Maria Teresa Horta

quarta-feira, 25 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


A escolha de... A Páginas Tantas



25 DE ABRIL



Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo



Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas

terça-feira, 24 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... António Vasconcelos Raposo


MAR SONORO


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu Suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen in Dia do Mar

segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


A escolha de… A PÁGINAS TANTAS



Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais,
tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade, in Ofício de Paciência

domingo, 22 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


A escolha de…. Miguel Machado 

ESCUTO MAS NÃO SEI

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio

Ou deus


Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies no vazio

Ou a consciência atenta

Que nos confins do universo

Me decifra e fita



Apenas sei que caminho como quem
É olhado e amado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho

Solenidade e risco


Sophia de Mello Breyner Andresen 

sábado, 21 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Bruna Gaspar  (7ºF)

BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Amélia Wolstenholme (12ºB)

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro.
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto
que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade, in Os Amantes sem Dinheiro

quinta-feira, 19 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Lúcia Marques


AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade, in Coração do dia

quarta-feira, 18 de abril de 2012

170.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ANTERO DE QUENTAL


Sem querer quebrar a cadeia, assinalo os 170 anos do nascimento de um dos maiores poetas portugueses. Com um soneto seu, claro.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.


Antero de Quental, Sonetos


DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Gilda Rosa

UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

Jorge de Sena

terça-feira, 17 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Raquel Leal (12ºB)


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.



David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 16 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… João Pedro Secca

PARA SER GRANDE

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis in Odes De Ricardo Reis

domingo, 15 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de … Teresa Palhares

FELICIDADE

Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia – por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

sábado, 14 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Fátima Madaleno



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Teresa Gomes

NO TEU POEMA

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto-chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


José Luís Tinoco

quinta-feira, 12 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Sara Oliveira


Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra «amigo»!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 11 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Maria João Santos



POEMA DA DESPEDIDA



Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Mia Couto

terça-feira, 10 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Adelaide Pereira

URGENTEMENTE

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 9 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Clara Anunciação


ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

domingo, 8 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Paula Varela


INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou o mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 7 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


A escolha de… A PÁGINAS TANTAS

No 119º aniversário do nascimento de José de Almada Negreiros

ACONTECEU-ME

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros

sexta-feira, 6 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Adília Ramos


Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Suzete Monteiro

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!


António Gedeão, in Movimento Perpétuo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Conceição Pereira


Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Ricardo Reis

terça-feira, 3 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Cristina Nunes

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Sarah Musgrave

O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

Pablo Neruda, in Poemas de Amor

domingo, 1 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Carlos Guerreiro

PEDRA FILOSOFAL

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão, in Movimento Perpétuo

sábado, 31 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Maria João Cortegaça

O SILENCIO É DOS PÁSSAROS

Os que não têm pão
da vida inesgotável
cantam silencio em prata noturna
prata secreta da noite
vaga e fútil
das quimeras amorosas na noite

Na noite das pratas
Das pratas roubadas ao senhor mais rico
Na vida dos pássaros
na fuga da vida falhada aos gritos
um grito na altura
no espaço
entre a morte
e o último vagão da vida

Da vida dos pássaros
numa sombra que nunca se deixa apanhar
Na luz que nunca se deixa pintar
nem apagar mesmo no espelho
que te abraçou na tormenta
construída pelo lar fora
pelo lar fora dos pássaros
O fora do risco que escapou ao vento
e no picar nervoso do pássaro mais rico

Um dos pássaros mais ricos
e os dois mil voltes dum fio
que pareceu em instantes
o risco entre o vento
e o picar nervoso do pássaro mais rico

Nem o homem nem o diabo
nem a mulher
nem a labareda
Mas o fogo todo inteiro
a possibilidade inteira do fogo
a mão de fogo constante
inalteravelmente vermelho
irremediavelmente preso de amor aos dedos
sensualmente delicado em seus arabescos de morte

No céu mais mudo do silêncio
sumir em chamas
para os pássaros tudo o que antes
fôra a fuga entre a vida dos pássaros

No risco mais fino do silêncio
entre o palpitar do mundo
e a vida dos pássaros
arder muito simplesmente
em franca esperança
na dada medida do desejo-de-dentro
o dentro do fogo branco
o fogo-branco-desejo
arder na vida dos pássaros
arder em penas a cair do vento
no risco mais fino do silêncio
entre o palpitar do desejo
e o silêncio que pertence aos pássaros


Fernando Lemos in Teclado Universal

sexta-feira, 30 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Adélia Simas


De onde eu venho
sou visitada pelas águas ao meio-dia
quando o silêncio se transforma
para as doces palavras do sal em flor
e das raparigas
Os muros são de pedra seca
e deixam escapar a luz por entre corredores
de raízes e vidro
lentas mulheres preparam a farinha
e cada gesto funda
o mundo todos os dias
há velhas mulheres pousadas sobre a tarde
enquanto a palavra
salta o muro e volta com um sorriso tímido
de dentes e sol.

Ana Paula Tavares, in O Lago da Lua

quinta-feira, 29 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Maria Machado




O movimento


Porque a coisa podia encontrar-se parada

como uma caixa.

Haveria a superfície, o rosto mais belo ou velhaco,

o sorriso, a ironia, e os ofícios.

E lá dentro, escondido: osso, vísceras e sensações;

tudo quieto e pasmado, a admirar o cinema exterior.

Porque a coisa podia encontrar-se parada

como uma caixa;

mas não.

E (é) este facto (que) complica os vivos




Gonçalo M. Tavares, in Poética do Corpo

quarta-feira, 28 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Margarida Santos

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo pr’além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola a falsa caridade,
Que bom, no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem...
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.


António Aleixo, in Este livro que vos Deixo

terça-feira, 27 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Paula Fonseca


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira, Poesia III

segunda-feira, 26 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... José Pedro Gonçalves


DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

domingo, 25 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Rosa Costa

Faz-se luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
Intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objetos
os objetos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny, Pena Capital

sábado, 24 de março de 2012

O DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... José Pacheco

DA SOLIDÃO

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior
solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que
se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si
mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a
quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade,
de socorro. O maior solitário é o que tem medo de
amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser
casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo
entristece também tudo em torno. Ele é a angústia
do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa
às verdadeiras fontes da emoção, as que são o
património de todos, e, encerrado em seu duro
privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e
desolada torre.

Vinícius de Moraes, Para Viver um Grande Amor

sexta-feira, 23 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Luísa Fragoso

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

quinta-feira, 22 de março de 2012

a escolha de... Elisa Costa Pinto

LAVOISIER

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 21 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


É bonito, haver um dia dedicado à celebração da poesia. Também a data foi uma escolha feliz, nesta época, metáfora para todos os começos.
Celebremos, pois, o dia.
Vamos fazê-lo, porém, dando ouvidos aos que “são contra os dias”, estes dias (da Criança, da Mulher, da Música, dos Direitos Humanos…), por os acharem sinal de desprezo pelo que comemoram, ou pelo menos de alguma fragilidade do que está a ser comemorado, nos restantes trezentos e tal dias do ano.
A solução impõe-se e só pode ser a de lembrarmos todos os dias este dia, ATÉ DE HOJE A UM ANO, com a publicação de um novo poema, escolhido por alunos, professores, funcionários, pais.

No final, teremos a Primeira Antologia Poética da ESPJAL.
A equipa da Biblioteca / projecto aLer+ tem o privilégio de começar, com

A escolha de … professora Ana Páscoa



Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in Poemas Dispersos

quinta-feira, 1 de março de 2012

NUNO MARKL FALA SOBRE OS CONTOS DE GIN TÓNICO

http://www.youtube.com/watch?v=JwB8_lZ2y94


É só "clicar" neste endereço para se ver/ouvir uma entrevista imperdível a Nuno Markl sobre o genial Mário-Henrique Leiria.