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quarta-feira, 18 de abril de 2012

170.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ANTERO DE QUENTAL


Sem querer quebrar a cadeia, assinalo os 170 anos do nascimento de um dos maiores poetas portugueses. Com um soneto seu, claro.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.


Antero de Quental, Sonetos


sábado, 14 de maio de 2011

JOAQUIM VIEIRA NA ESCOLA. AINDA

Já foi há uns dias, mas não posso deixar de assinalar este ponto alto da vida da Biblioteca da nossa Escola. Joaquim Vieira aceitou vir falar connosco e, como disse muito bem a Paula na apresentação que dele fez, pretextos não faltariam, tão vasto tem sido o campo de trabalho e investigação deste grande jornalista, escritor e historiador. Acabámos por escolher a semana da comemoração do 25 de Abril e, por isso, numa sessão a que deu o título de "Portugal: da ditadura à democracia", ele escolheu precisamente caracterizar, em linhas gerais, objectivas e certeiras, o Estado Novo e a eclosão do 25 de Abril, com recurso a um suporte de imagens projectadas muito bem escolhidas.

Foi uma extraordinária aula de História, mas não foi uma aula qualquer. Na verdade, todos os participantes ficaram presos pelo poder de comunicação deste profissional da comunicação. Os olhos não se desviavam. Os ouvidos não se dispersavam. Como professora, lembrei-me que não seria mal pensado aprendermos um pouco com os jornalistas (os jornalistas a sério, claro! Como Joaquim Vieira!)

Lembrei-me, entretanto, de uma curiosidade engraçada, acontecida há uns anos, quando na Escola comemorávamos um outro aniversário do 25 de Abril. A procurar uns papéis para a exposição da Biblioteca, encontrei, dentro de um velho caderno da Faculdade, uma folha policopiada, em stencil, como se usava nos anos 70. Era um comunicado das Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa a denunciar a prisão, pela PIDE, de um colega do Técnico - Joaquim Vieira. Com foto e tudo. Entreguei a folha amarelecida à irmã, a nossa colega Ana Vieira.

Agora, já que este é o blogue da Biblioteca, falemos de livros. Aconselho 2 títuloaos de Joaquim Vieira. Poderiam ser outros quaisquer, mas apetece mesmo sugerir estes: a biografia do fotógrafo Joshua Benoliel (com as suas fantásticas fotos que nos fazem revisitar momentos únicos da história de Lisboa e do país) e o romance (se quisermos) A Governanta (é mesmo a D. Maria do Salazar). Não percam.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PARA O EDUARDO PRADO COELHO

Ele foi o Mestre de uma geração inteira de alunos de Literatura. Para uns sedutor, para outros incomodamente erudito e hermético, para mim, o Mestre. Fico feliz por ter tido a coragem e o tempo de lho dizer num jantar informal, num pequeno restaurante em frente à Casa Fernando Pessoa, uns meses antes da sua morte.
No passado domingo, o CCB dedicou-lhe um dia. Foi uma homenagem muito afectiva - ele era um distribuidor de afectos - e também muito leve, apesar da sua ausência. Como ele teria gostado. A sala estava cheia de amigos que convocaram o EPC com a leitura de textos seus. Ternos, divertidos, sérios, um pouco de frivolidade em alguns. Ousadia noutros. E sempre a palavra literária, plástica, inesperada. Ele era assim.
Convido à leitura de uma crónica, bem adequada a este espaço.

A BIBLIOTECA
Há-de haver um último livro. Lembro-me do meu pai, já perto do fim, sentado na cama: lia Santo Agostinho. Converteu-se? Penso que não. Mas procurava outra coisa. Demasiado tarde, é claro – como sempre. Chegamos sempre no final da festa.
“Os livros são um problema” – quantas vezes ouvimos esta frase? Ela tornou-se tão banal que, de certo modo, foi amaciando o verdadeiro problema que eles, os livros que se acumulam, são. Toda a minha vida senti um alvoroço quando numa livraria encontrei um livro que não esperava. Visitei cidades onde passava horas nas livrarias, olhando as estantes, e arrastando comigo aquela culpa de não estar a ver o mar, de não sentir no corpo o bater das ondas, de não adormecer no chão das florestas. Quantas vezes não ouvi a campainha da porta tocar e sentia o estremecimento que me anunciava que novos livros iam chegar? Ainda hoje. Ainda hoje um pacote de livros constitui uma festa. A promessa de uma festa que demoradamente se despede de si mesma.
Até que, rodeado de livros por todos os lados, decidi que iria oferecer uma parte a uma biblioteca. As bibliotecas públicas são hoje um lugar de animação cultural – quer isto dizer um lugar de vida. Ainda noutro dia pude ler a descrição de um grupo de crianças que passaram a noite nas instalações da biblioteca de Oeiras: letras, jogos, palavras, sonhos, anjos de papel. A biblioteca de Oeiras é hoje dirigida por um amigo: Filipe Leal. Oeiras, Carnaxide, Algés. Achei que lhes podia propor que ficassem com alguns dos meus livros. Partiram já cerca de 3000. Talvez mais tarde partam mais.
Mas é tão difícil escolher os livros que nos vão deixar…
Olhando para cada um, sinto o momento em que o comprei, a livraria em que o vi, o café onde o folheei, a praia onde o li, a cama em que ele, já no chão, vigiou o meu sono habitado de palavras mágicas. Outros, tantos outros, nem os cheguei a ler. Foram hóspedes de passagem, estiveram anos em minha casa, acompanharam-me de Paris para Lisboa, e agora separamo-nos porque não satisfizeram o meu critério decisivo: “Será um livro fundamental? Será que ainda tenho tempo para o ler?” Vejo o livro envelhecido e sinto a tristeza que nele se acumula por essa espécie de injustiça de eu não o considerar essencial. Parece que ouço um queixume. Há uma caixa de cartão para onde ele deve ir, condenado pelo meu juízo impiedoso, mas talvez secretamente feliz pelo facto de poder vir a ser útil ao reformado que procura um momento de distracção, ao investigador que já não esperava pela informação que ele contém, à criança que nele aprende o território das invenções sem fim. Vou esquecê-lo. Vou esquecer em mim a alegria que me deu.
Há-se haver um livro – um último rosto, um último objecto, um último corpo. Há-de haver um último livro – até que a porta da biblioteca se feche definitivamente.

Eduardo Prado Coelho, “O Fio do Horizonte”, in Público, 9 de Abril de 2004

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DE ÁLVARO DE CAMPOS


Hoje é dia aniversário de Álvaro de Campos, o heterónimo que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890. (Por isso se realiza, nessa cidade, o I Encontro Internacional Álvaro de Campos).

A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!

Para além disso, transcrevemos alguns versos da "Ode Marítima", em homenagem ao mar de Tavira, onde Campos nasceu, ao mar de Lisboa, que Campos amou, ao mar de Glasgow, onde Campos estudou engenharia naval.

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
(............................................................................)

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

CAMUS

A morte de Albert Camus ocorreu há cinquenta anos.
Já começámos a assistir à esperável profusão de textos comemorativos. Como se o não tivéssemos abandonado e esquecido, a partir de um certo momento...
Para a maioria dos jovens, de facto, este nome nada diz. E é quase difícil explicar-lhes de que forma, para a minha geração, formada na língua, na cultura e na filosofia francesas, Camus constituiu uma referência imprescindível.

O primeiro contacto dava-se na disciplina de Francês: líamos, como texto obrigatório, e portanto na língua original, L'Étranger, esse estranho romance em que um narrador frio e distante, como se separado do mundo por um vidro que o impedisse de lhe aceder por meio de sentimentos e de emoções, descreve com uma insuportável objectividade episódios que o não marcam. («A mamã morreu»: é assim que ele inicia a narração daqueles dias a que nada o parece ligar...).

Mais tarde, para mim, por exemplo, a quem a filosofia principiava a interessar, Albert Camus surgiria como o autor de O Mito de Sísifo: é certo que o livro rasa constantemente o pessimismo, situando-nos em face do sem-sentido da existência, como se todos nós fossemos sísifos condenados pelos deuses a empurrar, dia-a-dia, uma vida vazia e absurda; consegue, porém, apresentar essa vida como, afinal, digna de ser vivida. Lembramo-nos muito bem das palavras com que o ensaio conclui: «É preciso imaginar Sísifo feliz.»

Mas, sobretudo, tendo chegado ao ponto de cortar relações com os amigos que não compreendiam o rigor das suas posições políticas - Sartre, por exemplo, não lhe perdoou as divergências -, Camus deve ser recordado como o homem desassombrado, que se não calou perante as injustiças e a opressão. Em nome de nada que não a sua consciência: nem ideologias, nem partidos, nem o comodismo que levou alguns a aceitar que os fins justificariam os meios.

Vale sem dúvida a pena uma comemoração: mas há que comemorar do único modo aceitável quando se trata de um escritor - relendo-o, se o não líamos há muito, ou descobrindo-o, se o não conhecíamos...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CLARICE LISPECTOR SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA

(Clarice Lispector 10 de Dezembro 1920 - 9 de Dezembro de 1977)

«Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida».

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

75 ANOS DA PUBLICAÇÃO DA MENSAGEM

No dia 1 de Dezembro de de 1934, precisamente há 75 anos, foi publicada a 1.ª edição de Mensagem de Fernando Pessoa. Esta obra, que viria a ser uma das mais importantes da história literária portuguesa, havia concorrido ao Prémio Antero de Quental, no qual foi ultrapassada por um livro medíocre, chamado Romaria, e escrito por um tal de Padre Vasques que, obviamente, não ficou para a História.

Não quero ceder à tentação, aqui, do elogio repetido e fácil. Mas posso ceder ao impulso de transcrever um poema da Mensagem.

Por que terei escolhido este? E quem resistirá a lê-lo, hoje?


Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa, Mensagem

terça-feira, 17 de novembro de 2009

2007: 1º PRÉMIO DE POESIA

PASSA UM NAVIO AO LARGO DOS MEUS OLHOS*

o presente é um esboço de desenho, de poema
uma música trauteada com a ajuda de longos dedos
descarnados, uma fotografia desapurada com o pior
enquadramento da cidade, talvez
um reflexo da córnea inflamada.

o presente que abraço é a realidade que há muito
findou para os outros.
retenho maquinalmente ou infiltro por osmose
a gota de chuva, caindo aos pés da criança de cabelos
desgrenhados e ponta do nariz suja de lama,
o jornal gratuito deixado ao abandono e chicoteado por um
deus qualquer,
o navio que parte levando consigo os homens da Lisboa para
o horizonte:
é já ali em frente!, aponta o marinheiro à jovem amada.

alimento-me de memórias armazenadas ao acaso,
perdidas em sinapses de uma cabeça doente
cujo crânio é quebrado
por uma chuva de olhares, invadido pela febre
crónica de um coração frouxo
e anacronismos crassos,
continuamente assaltado pela questão da veracidade da
sua existência.

Se vivo, viver é apenas sonhar?
não creio, ou seria provável humanidade significar um
ajuntamento de animais estáticos e extasiados nas suas
próprias quimeras.
(será possível esta realidade?)

deambulo pela minha Lisboa e anseio, sem saber por que razão,
tropeçar na vida - quem sabe, numa madrugada ébria.
por enquanto,
encubro a própria morte bebendo em estranhos e aprendendo
o ofício de sentir.

Susana Quartin Alves da Silva


*
Verso de Miguel Torga, escolhido como tema do Concurso Literário de 2007, ano de comemoração do centenário do nascimento do poeta