quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

MISTÉRIOS

Com grande probabilidade, o leitor terá já assistido, no meio de um jantar com amigos, à seguinte discussão - a certa altura, alguém se pro­nuncia sobre o algarismo suplementar que os bilhetes de identidade passaram a ter de há uns anos para cá, mais ou menos nos seguintes termos: «O algarismo suplementar que se segue ao número do BI indica o número de pessoas em Portugal que têm um nome exacta­mente igual ao do portador do BI.»
Quando confrontado com o absurdo de tal afirmação (por exemplo, o algarismo suplementar do meu BI é 9 e posso comprovar que sou a única pessoa no mundo, não apenas em Portugal, com o nome de Jorge Buescu), talvez o interlocutor diga algo do género «mas fui informado por fonte seguríssima de que é assim». Ou talvez prefira mudar de assunto. (...)
Afinal de contas, o que representa o misterioso algarismo suple­mentar que se segue ao número do nosso BI?


A pergunta com que o texto finaliza serve apenas de introdução ao mistério apresentado pelo professor Jorge Buescu, que todos os alunos do oitavo ano, em sessões distribuídas ao longo de várias semanas, foram desafiados a decifrar, acompanhados pelas professoras Inês Alegria e Teresa Jerónimo. A recebê-los, duas professoras da equipa da Biblioteca, uma de Biologia e uma de Português, a confirmar, mais uma vez, o que nunca é suficientemente repetido, pensar e aprender não são actividades que devam estar arrumadas em gavetas separadas, mas sim em espaços amplos e totalmente comunicantes.

Como seria de esperar, começámos pela leitura. O excerto, retirado do livro, Mistérios do Bilhete de Identidade e Outras Histórias , começou por assustar um pouco: "Tão grande!" foi um dos desabafos repetidos, no entanto, rapidamente se percebeu que ler em companhia, conversando sobre, esclarecendo, faz evaporar grande parte das dificuldades.
Entre outras etapas, foi necessário determinar/lembrar o conceito de algoritmo, para então aplicar aquele que serve (ou devia servir) para encontrar o dígito de controlo dos BIs dos cidadãos portugueses: cada um pegou no seu cartãozinho e tratou de fazer as contas. A pouco e pouco, os resultados foram surgindo e, tal como o texto indicava, nem sempre davam certos; curiosamente, só falhavam alguns dos casos em BIs cujo dígito de controlo é o 0 (zero).

Porquê? Os alunos do oitavo ano já sabem a resposta.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

tolstoi, cem anos passados

dia dezoito de novembro, pelas dez da matina, se não estou erro, e aceite um mui-interessante convite do professor josé pacheco para comemorar, à maneira já habitual da biblioteca, o século da morte desse gigante literário cuja tradução do nome para a língua lusitana é leão tolstoi, procedeu-se à sessão propriamente dita. e aquele tipo era mesmo um leão! na nossa pequenez de compreensão e espírito, tentámos desvendar, por entre o manto diáfano da fantasia que são as obras-primas que lev, esqueçamos o por vezes ridículo leão, tolstoi deixou à humanidade, as mensagens que se lêem nas entrelinhas. e não são poucas. terminada a leitura de uma obra como guerra e paz, a primeira reacção poderá ser a seguinte,
é isto a guerra e paz?
mas com o passar do tempo chegará a conclusão de que nada mais na história da literatura universal alcançou aquele patamar. porque aquele livro tem tudo. não só guerra e paz, mas também amor, traição, ciúme, desejo, ira, amizade, vício, maldade, filosofia, política, estratégia, inveja e, sobretudo, uma procura incansável do sentido da vida.
quanto à sessão, julgo que tudo foi pelo melhor. e a originalidade da sessão consistiu precisamente na sua apresentação, pois ela repartiu-se pela minha pessoa e pela do professor josé pacheco. corroborámo-nos, completámo-nos, ajudámo-nos. no entusiasmo que a sessão suscitou, leram-se excertos da obra, sugeriram-se romances do autor e discutiram-se até teorias improváveis sobre a morte do génio. depois, falou-se do homem, do escritor, da obra, da guerra e paz, em particular, de napoleão e das suas campanhas militares, das personagens e, claro, de pierre, desse pequeno grande homem, que se perdoe a referência ao romance de thomas berger, a quem já ouvi descrever como sendo um tontinho que não sabe o que quer da vida. por muito redutor que isto possa parecer, é a pura das verdades. pois não somos nós todos uns tontinhos que não sabemos o que queremos da vida? sim, somos, mas é com homens como tolstoi que aprendemos, nem que seja somente um pouquinho, a lidar melhor com nossa pesarosa existência. e se, como disse blaise pascal, na vida não há nada de bom salvo a esperança de uma outra vida, então sempre podemos esperar que ela venha acompanhados pela literatura que tolstoi nos legou. sim, o leão morreu há cem anos. mas muitos cem anos passarão até a sua literatura se perder no vácuo que prevalecerá sobre tudo.

domingo, 21 de novembro de 2010

AS MÃOS, AS PALAVRAS E OS FRUTOS

Quero acreditar que o Eugénio de Andrade me perdoaria o abuso do seu título, se tivesse assistido à oficina animadíssima que, logo de manhãzinha, encheu a Biblioteca de cores, aromas, risos e ideias a crescer por todos os lados.
É preciso primeiro explicar que o 9º E está mais uma vez a pôr à prova a sua criatividade (lembram-se das ilustrações de poemas e dos DVDs gravados no ano passado?). O ponto de partida, desta vez, foi o envolvimento da turma no Programa Pessoa e, em E.V., a escolha de um fruto por cada um dos alunos, que já o desenhou e já procurou, também, as palavras mais certas para o descrever. Alguns já tinham também pesquisado títulos de livros e de poemas contendo nomes de frutos, quando, na passada quinta-feira, nos reunimos para mais uma sessão
dedicada a saborear o prazer da leitura e da escrita.
Dos textos lidos, o primeiro um diálogo muito invulgar, em que um certo Virgílio se esforça por explicar a uma certa Beatriz como é uma pera (Yann Martel, Beatriz e Virgílio, ed. Presença),o segundo retirado de mais um daqueles livros em que a imaginação e o nonsense de Roald Dahl dão resultados sempre imprevisíveis (James e o Pessegueiro Mágico, ed. Terramar), aqui fica um breve fragmento:

BEATRIZ: Mas a que sabe? Não aguento mais.
VIRGÍLIO: Uma pêra madura transborda de suculência doce.
BEATRIZ: Oh, isso parece bom.
VIRGÍLIO: Corta uma pêra e verás que a sua polpa é de um branco incandescente. Brilha com uma luz interior. Aqueles que trazem consigo uma faca e uma pêra nunca têm medo do escuro.
BEATRIZ: Tenho de provar uma.
VIRGÍLIO: A textura de uma pêra, a sua consistência, é outra coisa difícil de pôr em palavras. Algumas peras são um tudo-nada crocantes.
BEATRIZ: Como uma maçã?
VIRGÍLIO: Não, nada parecido com uma maçã! Uma maçã resiste a ser comida. Uma maçã não é comida, é conquistada. A qualidade crocante de uma pêra é muito mais atraente. É generosa e frágil. Comer uma pêra é semelhante a... beijar.
BEATRIZ: Oh, céus! Parece tão bom.
VIRGÍLIO: A polpa de uma pêra pode ser ligeiramente granulosa. Contudo, derrete-se na boca.
BEATRIZ: Tal coisa é possível?
VIRGÍLIO: Com todas as peras. E isso é só o aspecto, o toque, o cheiro, a textura. Ainda nem te falei do sabor.
BEATRIZ: Meu Deus!
VIRGÍLIO: O sabor de uma boa pêra é tal que, quando se come, quando os nossos dentes mergulham na beatitude da polpa, isso torna-se uma actividade absorvente. Não se quer fazer mais nada além de comer a nossa pêra. Prefere-se estar sentado do que em pé. Prefere-se estar só do que acompanhado. Prefere-se o silêncio à música. Todos os sentidos, excepto o paladar, ficam inactivos. Não se vê nada, não se ouve nada, não se sente nada... ou apenas na medida em que nos ajude a apreciar o sabor divinal da nossa pêra.
BEATRIZ: Mas a que sabe ao certo?


Depois foi a folha em branco, o sossego instalando-se a pouco e pouco, as mãos que já desenharam os frutos pegando nos lápis hesitantes, as palavras e frases a despontarem, os textos a ganharem forma, consistência, sabor.
Não vai ficar por aqui este trabalho, a professora Maria João Cortegaça reservou a parte mais surpreendente para o final.


Estejam atentos!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA HORA DE LEITURA

Todos conhecemos o nome do chileno Antonio Skármeta como o autor do maravilhoso O Carteiro de Pablo Neruda. Pois bem, está aí um novo livro, igualmente terno e comovente, e igualmente desprovido de qualquer tentação piegas.
Um Pai de Filme conta a história de um jovem professor primário de uma remota aldeia chilena, com a cabeça cheia de sonhos literários e desejos de conhecer o amor e a vida. É uma brevíssima narrativa (menos de 100 páginas) que nos proporciona uma hora de puro prazer de leitura.

Na apresentação do seu livro, hoje, na Livraria Buccholz, Antonio Skármeta, muito divertido, confessou que, tendo começado por escrever um romance com mais de 300 páginas, acabou por ir cortando, cortando, até chegar a esta história curta, que deixa espaço para o leitor respirar e sonhar. O actor André Gomes (que representou Pablo Neruda na peça encenada há uns anos pelo Grupo de Teatro de Almada) leu páginas do livro.
Tenho a certeza de que, a esta hora, todos os que estavam naquela sala, já leram, de um fôlego, Um Pai de Filme de Antonio Skármeta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

FIAMA

A propósito do Colóquio "Fiama Hasse Pais Brandão", a que assistimos nos dias 29 e 30 de Outubro, na Casa Fernando Pessoa - e no qual foi lançada a antologia Âmago - deixamos aqui um poema revelador de uma das grandes vozes da poesia portuguesa da 2.ª metade do século XX.

Chamar-Te é um sopro. O assobio
dos pássaros na enseada.
Baixa a colina agora e segue
o fio da minha voz. O azul do mar
assimila-nos a si. O Teu
nome vai perder-se no estuário
que nós víamos do cimo
da muralha. Desprezo o eco. Nada
Te chegará de tudo isto
que é o real. Ventos, sons, o mar,
a voz são uma mancha inconsis-
tente no único espaço que nos une.


Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PESSOAL...E TRANSMISSÍVEL


Às vezes acontece-nos o privilégio de receber ao vivo e a cores convidados fascinantes, com a rara capacidade de abrir intervalos no meio das suas agendas sobrecarregadas, para conversar com estudantes do Secundário e revelar pedacinhos do seu muito saber e invejável experiência.
Na passada 2ª feira, visitou-nos Carlos Vaz Marques, autor do "Pessoal... e Transmissível"- programa da TSF que todos os apreciadores de uma boa entrevista conhecem e recomendam - colaborador do Jornal de Letras, da revista LER, responsável por uma colecção de títulos de literatura de viagens, e tradutor de alguns, moderador do imperdível "Governo Sombra", programa de sátira política entre cujos ministros se conta o fedorento Araújo Pereira, anfitrião do "Café com Letras", actividade regular das Bibliotecas Municipais de Oeiras, vencedor do prémio Ilídio Pinho, nada mais nada menos que o maior prémio de jornalismo atribuído em Portugal... Ufa! Tudo isto, e muito mais, num jovem que ainda no outro dia era aluno do Liceu Camões, onde teve como professora de Português a (nossa) Elisa Costa Pinto, que, evidentemente, se encarregou de apresentar orgulhosamente (babadamente, confessou ela) o jornalista às três turmas reunidas na Biblioteca para o conhecer.
Carlos Vaz Marques falou sobretudo das entrevistas de rádio. (Espantou-nos desde logo saber que é o único responsável pela sua preparação, quando se imaginaria, perante a profundidade das entrevistas e a lista de entrevistados, tão variada e extensa, uma equipa de retaguarda a fazer o exaustivo trabalho de pesquisa). Disse gostar particularmente de entrevistar pessoas que "não dizem o que se está à espera" - encontrando-se os escritores, naturalmente, entre os mais desafiantes - e também de trazer ao conhecimento do grande público pessoas que não aparecem frequentemente nos media, "aves raras", no melhor sentido da expressão.

Muitos de nós nunca tinhamos pensado na diferença entre as entrevistas "de combate"- em que, no dizer do nosso convidado, o jornalista substitui todos os que gostariam de poder estar ali, a colocar perguntas muitas vezes incómodas, a pessoas com responsabilidades governativas, por exemplo - e as outras, em que o entrevistador não pode exigir, antes tentando seduzir, entender, empatizar.
E Carlos Vaz Marques, nisso, é mestre. A nós encantou-nos!

P.S. - Graças à santa internet, podemos ouvir a qualquer hora os programas de rádio referidos. Basta ir ao sítio da TSF.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CASA DE AFECTOS


Leio (com gosto) os últimos textos aqui chegados, penso como provam vivamente que os livros e as suas casas são laços. Não gaiolas onde eremitas macambúzios se encerram, mas formas, espaços, de abrir as mentes e os corações aos outros, ao Outro.

Vem isto a propósito de uma sessão muito especial que na semana passada aconteceu. Como aconteceu?

Começou pela discussão, numa aula de Formação Cívica, sobre o drama vivido pelos mineiros chilenos, as diferentes emoções que experimentariam ao longo de tantas semanas de enclausuramento, a forma inteligente e solidária como souberam lutar pela sobrevivência, como cada um reagiria se se encontrasse numa situação mesmo que muito remotamente semelhante.

Depois, mas ainda antes de se conhecer o feliz desfecho desta história, o encontro teve lugar na Biblioteca, onde, partindo da leitura de um artigo de jornal, procurámos entender mais completamente as implicações emocionais e físicas de uma tão longa permanência no interior da terra.

Alguns factos tornaram-se-nos muito evidentes: a permanente ligação ao exterior, a presença esperançosa, perseverante, das famílias, mas também os olhos do mundo postos na mina de San Jose desempenharam um papel determinante na forma como tudo aconteceu. Por outro lado, percebemos que os próximos tempos vão ser ainda de duro combate por parte dos 33 mineiros, não irá ser sem sobressaltos a readaptação à vida "normal".

Tudo isto, e ainda mais a urgência de fazer alguma coisa, alguma coisa que tornasse material a nossa solidariedade, levou à escrita das cartas para o Chile, repletas de admiração e abraços, dos alunos do 8ºE.

BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS

«Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem [1], desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos [2], dos que temos vontade de reler por puro prazer [3], dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar [4], dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir [5], etc.»
Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas

Encontro, na minha biblioteca, um exemplo de cada um dos casos referidos.

1. Ulisses, James Joyce

2. Pedro Páramo, Juan Rulfo

3. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

4. Os Maias, Eça de Queirós

5. Vitorino Nemésio

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PARA O EDUARDO PRADO COELHO

Ele foi o Mestre de uma geração inteira de alunos de Literatura. Para uns sedutor, para outros incomodamente erudito e hermético, para mim, o Mestre. Fico feliz por ter tido a coragem e o tempo de lho dizer num jantar informal, num pequeno restaurante em frente à Casa Fernando Pessoa, uns meses antes da sua morte.
No passado domingo, o CCB dedicou-lhe um dia. Foi uma homenagem muito afectiva - ele era um distribuidor de afectos - e também muito leve, apesar da sua ausência. Como ele teria gostado. A sala estava cheia de amigos que convocaram o EPC com a leitura de textos seus. Ternos, divertidos, sérios, um pouco de frivolidade em alguns. Ousadia noutros. E sempre a palavra literária, plástica, inesperada. Ele era assim.
Convido à leitura de uma crónica, bem adequada a este espaço.

A BIBLIOTECA
Há-de haver um último livro. Lembro-me do meu pai, já perto do fim, sentado na cama: lia Santo Agostinho. Converteu-se? Penso que não. Mas procurava outra coisa. Demasiado tarde, é claro – como sempre. Chegamos sempre no final da festa.
“Os livros são um problema” – quantas vezes ouvimos esta frase? Ela tornou-se tão banal que, de certo modo, foi amaciando o verdadeiro problema que eles, os livros que se acumulam, são. Toda a minha vida senti um alvoroço quando numa livraria encontrei um livro que não esperava. Visitei cidades onde passava horas nas livrarias, olhando as estantes, e arrastando comigo aquela culpa de não estar a ver o mar, de não sentir no corpo o bater das ondas, de não adormecer no chão das florestas. Quantas vezes não ouvi a campainha da porta tocar e sentia o estremecimento que me anunciava que novos livros iam chegar? Ainda hoje. Ainda hoje um pacote de livros constitui uma festa. A promessa de uma festa que demoradamente se despede de si mesma.
Até que, rodeado de livros por todos os lados, decidi que iria oferecer uma parte a uma biblioteca. As bibliotecas públicas são hoje um lugar de animação cultural – quer isto dizer um lugar de vida. Ainda noutro dia pude ler a descrição de um grupo de crianças que passaram a noite nas instalações da biblioteca de Oeiras: letras, jogos, palavras, sonhos, anjos de papel. A biblioteca de Oeiras é hoje dirigida por um amigo: Filipe Leal. Oeiras, Carnaxide, Algés. Achei que lhes podia propor que ficassem com alguns dos meus livros. Partiram já cerca de 3000. Talvez mais tarde partam mais.
Mas é tão difícil escolher os livros que nos vão deixar…
Olhando para cada um, sinto o momento em que o comprei, a livraria em que o vi, o café onde o folheei, a praia onde o li, a cama em que ele, já no chão, vigiou o meu sono habitado de palavras mágicas. Outros, tantos outros, nem os cheguei a ler. Foram hóspedes de passagem, estiveram anos em minha casa, acompanharam-me de Paris para Lisboa, e agora separamo-nos porque não satisfizeram o meu critério decisivo: “Será um livro fundamental? Será que ainda tenho tempo para o ler?” Vejo o livro envelhecido e sinto a tristeza que nele se acumula por essa espécie de injustiça de eu não o considerar essencial. Parece que ouço um queixume. Há uma caixa de cartão para onde ele deve ir, condenado pelo meu juízo impiedoso, mas talvez secretamente feliz pelo facto de poder vir a ser útil ao reformado que procura um momento de distracção, ao investigador que já não esperava pela informação que ele contém, à criança que nele aprende o território das invenções sem fim. Vou esquecê-lo. Vou esquecer em mim a alegria que me deu.
Há-se haver um livro – um último rosto, um último objecto, um último corpo. Há-de haver um último livro – até que a porta da biblioteca se feche definitivamente.

Eduardo Prado Coelho, “O Fio do Horizonte”, in Público, 9 de Abril de 2004

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DE ÁLVARO DE CAMPOS


Hoje é dia aniversário de Álvaro de Campos, o heterónimo que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890. (Por isso se realiza, nessa cidade, o I Encontro Internacional Álvaro de Campos).

A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!

Para além disso, transcrevemos alguns versos da "Ode Marítima", em homenagem ao mar de Tavira, onde Campos nasceu, ao mar de Lisboa, que Campos amou, ao mar de Glasgow, onde Campos estudou engenharia naval.

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
(............................................................................)

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LUÍSA E TEODORA

O regresso do 7ºB e do 7ºF não se fez esperar, para receber duas conhecidíssimas visitantes: a escritora Luísa Fortes da Cunha e a sua Teodora, protagonista dos doze títulos da série já publicados, e dos mais que se seguirão.

Num encontro proporcionado pela Biblioteca Municipal de Carnaxide, a autora conversou, contou bocadinhos das suas histórias, revelou episódios que serviram de matéria a algumas das aventuras da pequena Teodora. Falou da sua infância e, como não podia deixar de ser, porque ninguém escreve sem ter lido muito, e quem gosta de escrever é, em geral, um grande leitor, falou também de leituras marcantes, em diversos momentos da vida.
A provar que o pensamento e a imaginação desobedecem sempre às fronteiras artificiais que os nossos preconceitos às vezes lhes impõem, revelou que foi uma cadeira da sua licenciatura em Educação Física que lhe aguçou o interesse pela cultura/literatura tradicional portuguesa, fonte inesgotável de inspiração. Não ignorando a mitologia clássica, absorvendo também gentes e viagens.
À pergunta colocada por um aluno, respondeu ter começado a escrever porque inventava histórias para os filhos, quando eram mais pequenos, e depois deu-lhes forma impressa. Contava-lhes muitas histórias, porque queria que eles viessem a ser leitores. Por que seria?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

UM MÊS DEPOIS


Se o blogue tem andado demasiado quieto (mea culpa), o mesmo não se passa com a Biblioteca. Longe disso!
Como fazemos questão de repetir em cada início de ano, abrimos as portas e as expectativas às turmas do 7º, em sessões de apresentação e boas vindas. Novos rostos, vozes, histórias, para nós o recomeço, a renovação, novas linhas na nossa fisionomia.
Quase todos ficarão connosco durante seis anos bem importantes nas suas vidas, em todos esperamos deixar as melhores recordações.
Acompanhados pelas professoras Céu Ribeiro e Teresa Silva, em Português, e Adelaide Pereira, em EAC, contaram de onde vêm, como usavam as Bibliotecas das suas antigas Escolas, partilharam gostos e opiniões.
Compenetrados, conheceram o Regulamento. Em silêncio atento, escutaram um história "de adormecer anjos", o conto "Sábios como Camelos" do angolano José Eduardo Agualusa, que escreveu o espantoso Estranhões & Bizarrocos, com ilustrações de Henrique Cayate. (Temos...) Depois, vasculharam estantes, em busca de autores que, à semelhança dos da biblioteca ambulante do grão-vizir, estão arrumados de A a Z. Alguns já voltaram para responder a um inquérito e escolher livros, sobre os quais mais tarde iremos conversar.
Gostámos de vos conhecer!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOBEL PARA MARIO VARGAS LLOSA

Grande escritor equatoriano, um dos maiores da língua castelhana, Mario Vargas Llosa recebe, finalmente, o Nobel da Literatura que, segundo a crítica, há muito lhe era devido. Depois dos chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, do colombiano Gabriel García Márquez, do mexicano Octavio Paz, Vargas Llosa oferece à riquíssima literatura latinoamericana o galardão máximo.

Queremos aqui homenageá-lo da melhor maneira que conhecemos para homenagear um escritor: lê-lo e dá-lo a ler.
Transcrevemos, pois, uns parágrafos do início do seu romance Travessuras da Menina Má, de 2006.

Aconteceram coisas extraordinárias naquele Verão de 1950. Cojinoba Lanas atirou-se pela primeira vez a uma rapariga - a ruiva Seminauel - e esta, ante a surpresa de Miraflores inteiro, disse-lhe que sim. Cojinoba esqueceu-se do seu coxear e andava desde então pelas ruas a fazer peito como um Charles Atlas. Tico Tiravante acabou o namoro com Ilse e atirou-se a Laurita, Victor Ojeda atirou-se a Ilse e acabou com Inge, Juan Barreto atirou-se a Inge e acabou com Ilse. Houve uma tal recomposição sentimental no bairro que andávamos aturdidos, os namoros desfaziam-se e refaziam-se e ao sair das festas dos sábados os pares nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. "Que relaxação!", escandalizava-se a minha tia Alberta, com quem eu vivia desde a morte dos meus pais.
As ondas dos banhos de Miraflores quebravam duas ao longe, a primeira a duzentos metros da praia, e era até aí que nós, os valentes, íamos abatê-las a peito, e deixávamo-nos arrastar uns cem metros, até onde as vagas morriam só para se reconstituírem em airosas ondulações e quebrarem de novo, numa segunda rebentação que nos fazia deslizar, aos que fazíamos carreirinhas nas ondas, até às pedrinhas da praia.
Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores toda a gente deixou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terramoto que pôs todos os pares infantis, adolescentes e maduros a saltar, pular, fazer figuras, nas festas do bairro. E a mesma coisa acontecia certamente fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, no centro de Lima, no Rímac e no Porvenir, onde nós, os miraflorinos, nunca tínhamos posto os pés nem pensávamos ter de pôr.
E assim como das valsinhas e das huarachas, dos sambas e das polcas tínhamos passado ao mambo, passámos também dos patins e das trotinetas à bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo, por exemplo, à mota, e inclusivamente um ou dois ao automóvel, como o matulão do bairro, Luchín, que roubava às vezes o Chevrolet descapotável ao pai e nos levava a dar uma volta pelos molhes, do Terrazas até à quebrada de Armendáriz, a cem à hora.

sábado, 25 de setembro de 2010

BENVINDOS À BIBLIOTECA

Pareceria, de algum modo, estranho que, começadas as aulas há umas quantas semanas, este blogue mantivesse, como último texto publicado, uma recomendação (aliás, excelente!) de leitura para férias.

As férias já lá vão. Venho desejar um óptimo reinício (e uma óptima continuação, pelo ano fora) de relações, estudos, leituras, almoços, recreios, músicas, pinturas, conversas, descobertas, deslumbramentos, filmes, visitas, abraços, navegações, surpresas, revelações e revoluções...

Possa, uma grande parte dessas experiências, ter lugar na Biblioteca.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SUGESTÕES PARA FÉRIAS

ESTRELA ERRANTE , Jean-Marie Gustave Le Clézio

É a descrição de uma longa viagem em busca da Terra Prometida; é também a viagem de Hélèna/Esther/Estrela, a menina que ao longo do romance se fez mulher, à procura de si mesma , da sua Identidade, até ao mais fundo de si - é a história de cumplicidades forjadas entre as personagens, fruto de encontros e desencontros, mais ou menos prolongados e que, ainda que fugazes, como o do encontro com Nejma, deixam a marca do desconforto moral , da extrema violência do mundo dos excluídos.
“Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai. Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada terá um encontro com Nejma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos rumo aos campos de refugiados. Esther e Nejma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra”. (nota do editor na badana da capa)
Neste romance acontece um duplo deslumbramento com a melodia e o poder das Palavras:
O da protagonista, ao ouvir os textos sagrados …
” Encostada à parede fria da capela, Esther ouvia de novo as palavras incompreensíveis naquela língua doce e sincopada, sem tirar os olhos do velho iluminado pelas velas. Uma vez mais sentiu um arrepio , como se aquela voz desconhecida soasse apenas para ela, no seu íntimo. A voz baixa, ciciante, lia o livro e aquilo apagava nela a fadiga , o medo e a raiva…(pág.102)...gostava muito de ouvir as histórias que o rabi Joël contava. Abria o seu livro negro e lia lentamente, primeiro naquela língua tão bela, simultaneamente áspera e doce, que eu ouvira no templo, em Saint-Martin. A seguir falava em francês, também lentamente….era como se fosse uma voz interior, que dizia aquilo que estávamos a ouvir. Falava da lei e da religião como se fossem as coisas mais simples do mundo. Explicava simplesmente o que era a alma falando da nossa sombra e o que era a justiça falando da luz do Sol e da beleza das crianças….” (pág. 165)
O deslumbramento do leitor/a com a escrita de Le Clézio, que eleva as palavras a um estado superior ao discurso do dia-a- dia, dando-lhes de novo o poder de invocação da realidade essencial.
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87)
Sem que eu consiga explicar muito bem porquê, Estrela Errante transporta-me para um universo de escrita feminina, o de As Ondas de Virginia Woolf, sem dúvida uma outra matriz de pertença, mas ainda assim o mesmo encantamento, com a música das palavras usadas para descrever uma relação quase fusional com a Natureza:
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87).


Também por isto, e como último apontamento e mais uma sugestão de leitura para férias, deixo um romance de Virginia Woolf – AS ONDAS. Marguerite Yourcenar, sua tradutora para Francês, descreveu assim este romance :
"As Ondas é considerado o melhor e mais radical romance de Virgínia Woolf – um desses raros escritores que nasceu no instante em que uma estrela se pôs a pensar".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA: ARGUMENTOS E PARADOXOS

E quase no final do ano lectivo,

incluído no UNIDIVERSO


ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA

(Ou: Filosofia? Matemática? Nonsense?)

dia 1 de Junho (terça-feira)

às 10h. 20 min.,
na Biblioteca




Uma sessão dinamizada por Ana Vieira a partir de
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A SESSÃO DE BARREIROS

Perante turmas silenciosas, mas não apáticas, João Barreiros, apresentado pela professora Ana Páscoa, falou sobre ficção científica, autores preferidos, razões da segregação do género, sonhos de um porvir auspicioso (graças à ciência e à técnica) versus medos de um porvir trágico (graças à ciência e à técnica), erros de livros e/ou filmes de fc (como raio se propaga o som no vácuo, em Star Wars, ou como seriam possíveis espadas de laser que não esticassem até ao infinito, ou como poderia o homem invisível não ser cego?) e apresentou-nos o «livro do futuro»: o e-book.

O silêncio do público não revelava indiferença, mas um misto de timidez, reverência, atenção.
Barreiros falou, ligou, deslumbrou, lançou piadas, foi politicamente incorrecto, cáustico q. b., espantou com os paradoxos (por exemplo sobre os viajantes no tempo); tratou, a partir das duas ou três únicas perguntas que lhe fizeram, de um seu conto em particular, O Caçador de Brinquedos.

Há-de voltar, para nova sessão, a esta escola em que já deu aulas - a escola que, assim consta da dedicatória que rabiscou no livro oferecido por si à biblioteca, o «acolheu durante longos anos».

segunda-feira, 17 de maio de 2010

UNIDIVERSO


UNIDIVERSO

APRESENTA

OUTROS GÉNEROS E COISAS DESSE GÉNERO II - FICÇÃO CIENTÍFICA

Uma conversa com o notável autor de Ficção Científica, João Barreiros, em torno do seu conto
O Caçador de Brinquedos



5ª-feira, dia 27 de Maio

15h. 30 min

Na Biblioteca da Espjal

domingo, 16 de maio de 2010

SESSÃO ADIADA

Caríssimos leitores:

Acabo de receber um mail da professora Conceição Pereira, que faria a apresentação de Glen Baxter. Infelizmente, por razões que nos (e lhe) são alheias, a sessão programada não poderá realizar-se. A todos os que mostraram interesse, as minhas sinceras desculpas.

Esperamos que seja um adiamento, não uma desistência definitiva.

Entretanto, a quem tenha ficado com água na boca, sugiro, e até que seja possível realizar-se uma sessão Baxter, que não deixe de pesquisar, porque vale a pena. Glen Baxter é extraordinário e vale realmente a pena ser conhecido!

Sirva o "link" que encontram no post anterior (em que anunciávamos a sessão) como um ponto de partida.

sábado, 15 de maio de 2010

UNIDIVERSO: GLEN BAXTER


UNIDIVERSO APRESENTA

*


GLEN BAXTER: IMAGEM E LEGENDA

Sessão acerca do extraordinário cartunista
dinamizada por

Conceição Pereira & alunos no âmbito de Inglês





5ª-feira, dia 20 de Maio, 8h. 30 min., na Biblioteca/Centro de recursos


(http://www.glenbaxter.com/)

terça-feira, 11 de maio de 2010

UNIDIVERSO: AS PALAVRAS (EN)CANTADAS

Sei, de Tiago Torres da Silva, que tem vasta obra dramática e muitos poemas escritos para canções. Aliás, para os leitores mais curiosos, deixo ligação ao seu blogue, Canções do Tiago, onde poderão espreitar alguma coisa do que ele vem trazendo à música portuguesa. Basta que cliquem aqui.

Contamos com a presença de Tiago Torres da Silva, no âmbito do Unidiverso, na Biblioteca da escola,

Sexta-feira, dia 14,

Às 15 h. 30 min., na sessão

PALAVRAS (EN)CANTADAS,

para conversar connosco acerca de «escrever para música».

sábado, 8 de maio de 2010

ECOS DO UNIDIVERSO

Amigos, tenho sido preguiçoso a dar conta do que vem decorrendo.
Mas - nem sequer isto referi - o primeiro debate acerca do romance de Camus foi excelente. Os alunos, que viram numa fotografia, lá para trás, de dedo no ar, respondendo à pergunta «Quem leu?», não só tinham lido, como (não todos, mas muitos deles) falaram sobre as suas impressões, o perturbador incómodo que lhes ficara aquando da leitura. E, de algum modo, filosofámos. Que sentido tem a vida, que estrangeiros somos, também, todos nós, em que medida nos parecemos com Sísifo na realização das nossas tarefas quotidianas, o que nos resgata do medo, do vazio, da frieza.

João Lemos, por sua vez, foi aquilo a que nos habituou: magnífico.
Fez jus ao que lhe chamei na apresentação: ele próprio «uma ligação de ligações, por vezes um pouco delirante, mas sempre irresistível». Falou da BD ao longo do tempo, mostrou-nos praticamente homens das cavernas inscrevendo já pranchas de Banda Desenhada nas paredes das grutas, falou-nos de como a própria escrita chinesa seria uma estilização de desenhos, ligados numa espécie de narrativa; ou acerca de comics medievais; ou de neuróticos do pormenor desenhado: os meus alunos não me falam de outra coisa - perguntam-me como se chamava o "maníaco da minúcia" que Lemos apresentou. Não me lembro, caramba... ; e concluiu uma sessão inolvidável - para um 7º, um 8º, um 9º e um 10º, público absolutamente inédito - com o testemunho de como os «antigos» contavam, no terreno, uma história aos antílopes, para os levarem a cair no poço. A BD impregnando tudo - todos os tempos, todas as actividades, no cerne da própria caça.

As outras promessas vão-se aproximando. Tiago Torres da Silva, poeta e letrista, que nos vem falar da adaptação das palavras à música (dia 14); João Barreiros, que conversará sobre ficção científica, a partir de um conto seu (27); Gonçalo M. Tavares, que dinamizará um workshop em torno de uma ideia extraordinária. E Glen Baxter. E Alice no País da Matemática. É o universo inteiro a cair-nos em cima. O unidiverso...

terça-feira, 27 de abril de 2010

UNIDIVERSO



Sexta-feira, dia 30 de Abril, às 10h. 20 min.


OUTROS GÉNEROS E COISAS DESSE GÉNERO - A BANDA DESENHADA

Workshop orientado por

JOÃO LEMOS

ver fotos



«E DESTE PESSOAL TODO, QUEM É QUE LEU O ESTANGEIRO?!»

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Oficina de Escrita sobre o Romance Policial


«Numa noite de trovoada, uma jovem de dezoito anos é assassinada na sua própria casa. Encontram o cadáver rodeado pelos seguintes objectos: um anel, um boneco, um cão de peluche, um frasco de verniz, uma borracha, um dado, uma vela praticamente consumida, pauzinhos de um restaurante chinês, e um suporte, em cartão, de papel higiénico.

«É chamado o detective G., feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo. Observando o local, a reconstituição dos acontecimentos parece-lhe óbvia:

« - A jovem tinha um encontro romântico com o seu possível namorado num restaurante chinês. Daí o verniz. É aí que ela recebe o anel; o boneco é um brinde oferecido pelo restaurante. A rapariga regressa a casa, decidida a estudar, pois tem um exame importante; mas há uma falha de energia e, com medo do escuro, acende uma vela e vai buscar o seu bicho de peluche; como a comida chinesa lhe provocou cólicas, foi à casa de banho e gastou o pouco papel que ainda havia. Sem se aperceber, levou, consigo, o cartão do papel higiénico para o quarto. Quanto ao dado, é o mais simples: trata-se da marca do assassino...»

Na oficina de escrita que se realizou em torno do romance policial, o Diogo Catalão e o João Nunes (10º A) apresentaram-nos este detective, «feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo» e puseram-no a relacionar, inteligente e rapidamente, as diversas pistas que lhes haviam sido previamente sugeridas...

sábado, 24 de abril de 2010

ENTRANHADA ESTRANHEZA




SEGUNDA-FEIRA (26 de Abril)

14 h. 30 min.

Na Biblioteca:

Homenagem a ALBERT CAMUS



Debate sobre O ESTRANGEIRO:

«Seremos todos estrangeiros em relação ao sentido da vida?»

quarta-feira, 21 de abril de 2010

MAIO, MÊS DE LIGAÇÕES PERIGOSAS

Senhoras e senhores, meninas e meninos, muito obrigado pela atenção. E agora que sei que, mediante um título carregado de ambiguidade, capturei a atenção de todos, deixem-me dizer-lhes de que se trata efectivamente.


«Ligações Perigosas» remete para a descoberta de que, num sentido ou noutro (ou em vários sentidos simultaneamente), tudo tem que ver com tudo: as disciplinas não estão verdadeiramente separadas: há literatura na matemática e matemática na literatura, há filosofia em quase tudo quanto fazemos (e até no que não fazemos), há poesia na música - e esta ideia da existência de miríades de minúsculas conexões entre o que aparentemente é diferente constitui o fio condutor que, apresentando-nos o universo como sendo um "unidiverso", irá orientar uma série de "ligações" ao longo destes meses do último período, com particular incidência em Maio.

Por exemplo, nesta sexta-feira (23 ainda de Abril), de manhã, haverá uma sessão/oficina de escrita: Outros Géneros e Coisas desse Género, Parte I: O Policial; a anunciar mais tarde, haverá um Outros Géneros e Coisas desse Género dedicado à ficção científica (com a presença de João Barreiros, autor) e um terceiro dedicado à banda desenhada (com João Lemos, que nos propõe um workshop).

Os profes de filosofia preparam um mergulho filosófico na literatura, associando-se às homenagens que têm sido dedicadas a Camus, por ocasião dos cinquenta anos do seu falecimento. Trata-se de Entranhada Estranheza, série de debates acerca de O Estrangeiro, no âmbito do tema: o sentido da existência.

Por outro lado, a matemática, já em Maio, pegará no delicioso Alice no País das Maravilhas para nos dar conta de como a lógica e a matemática estão presentes em alguns dos argumentos usados pelas personagens do romance de Carroll.

E outros temas, outras personagens, outros grupos, outras ligações irão preenchendo as semanas: falar-se-á sobre o polivalente Glen Baxter, e também sobre Antígona; esperamos convidados, sobretudo na medida em que seja possível revelarem-nos como, inesperadamente, diversas áreas se ligam ao que fazem: o cinema, o teatro, a poesia e a crónica (Pedro Mexia), a literatura e a História (João Paulo Borges Coelho), a literatura e a educação física (Gonçalo M. Tavares). Entre outros...

Sem urgências nem afogueamentos, paulatinamente, ao longo de vários dias, o universo da escola será a exibição do unidiverso...

domingo, 18 de abril de 2010

O LIVRO

Obviamente, não podia deixar de partilhar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

REI ÉDIPO de SÓFOCLES REVIVE NO TEATRO NACIONAL

A cidade de Tebas encontrava-se aterrorizada pela Esfinge. Creonte, cunhado do rei Laio, oferecia o reino a quem pudesse derrotar a Esfinge, enquanto que o rei procurava ajuda. Édipo chegou à cidade e conseguiu o que se considerava impossível – derrotar o monstro. A boa notícia espalha-se, juntamente com a notícia terrível da morte do antigo rei. Salteadores atacaram-no durante a sua viagem, de acordo com a única testemunha.
Os anos decorreram. Édipo casou-se com a rainha Jocasta, governando juntos a cidade de Tebas. Esta, no entanto, é atacada por uma violenta peste, e muitos procuram uma solução. De acordo com o deus Apolo, apenas a punição do assassino do rei Laio poderá trazer de novo prosperidade à cidade decadente.
É precisamente neste ponto que se enquadra a acção de o Rei Édipo. A peça consiste na procura do criminoso. A única pista que as personagens têm para prosseguir é uma premonição de Apolo, segundo a qual o rei Laio seria morto pelo próprio filho, e este casar-se-ia com a sua mãe. Enquanto a acção se desenrola, podemos, pois, assistir à revelação dos segredos do passado de Édipo, que são mais obscuros do que, a princípio, se pode imaginar.
A interpretação da peça encenada no Teatro Nacional D. Maria II é uma versão actualizada. Jorge Silva Melo, o encenador da tragédia, pretendeu uma identificação dos espectadores com a situação retratada. Apesar de a história ter vários elementos mantidos da tragédia escrita por Sofócles, o ambiente transmitido é relativamente contemporâneo, através, por exemplo, das roupas, ou dos instrumentos musicais utilizados (maioritariamente de percussão).
Diogo Infante (Rei Édipo), Lia Gama (Rainha Jocasta) e Virgílio Castelo (Creonte), entre outros, dão vida e força à peça. A banda sonora encontra se a cargo de Pedro Carneiro, um percussionista excepcional. Não há momentos mortos em O Rei Édipo, devido a esta banda sonora, que preenche, de forma extraordinária, as pausas da peça. Concluindo, O Rei Édipo é uma peça magnífica, muito bem interpretada e com uma banda sonora muito rica.
Aristóteles considerou a tragédia original de Sofócles como a melhor peça da Antiguidade. Tendo em conta esta opinião, que opinião expressaria sobre esta interpretação, caso ainda vivesse? Ninguém sabe. Mas provavelmente adoraria. Tal como eu adorei.

DIOGO NOGUEIRA, 11.ºC
(Depois de ter ido assistir à peça, com as turmas 11.ºC e 11.º F)

E COMO FOI O SERÃO?

Tenho pena de não poder falar-vos sobre o Serão Romântico mas, infelizmente, não pude estar presente. Uma doença inculta e anti-romântica atirou comigo de gatas para a cama, onde fiquei sofrendo, a pensar no que estava a perder.
Escrevo este post, pois, simplesmente pedindo às repórteres que cumpram a sua missão. A alguma das afortunadas presentes no serão, que nos conte, que nos mostre o que foi.
Nós, que não estivemos lá, pelas mais variadas razões, e só perdemos com isso, agradecemos e aguardamos.

sábado, 27 de março de 2010

DESCOBRINDO MEXIA


Cronista, poeta, dramaturgo, crítico de cinema, Pedro Mexia esteve na escola, a convite do Clube de Cinema, para apresentar um dos seus filmes de eleição.

Descubro-o agora, vagarosamente, como poeta.
Por exemplo, neste poema do seu livro Eliot e Outras Observações:

ALUNOS DO LICEU

Alunos do liceu que me passais pela retina
porque não vos fixais? Encostados ao vento
descem a rua, bando feliz, alguns isolados
em pequenas tristezas. Os rapazes, na sua rudeza

artificial, trazem raquetes, usam neologismos,
enquanto as raparigas, que ontem mesmo
despontaram, segredam cenários entre sorrisos.

Todos rua abaixo, mesmo a tempo
da aula das oito, e trazendo nas mochilas
insuspeitados tesouros.

segunda-feira, 22 de março de 2010

PRÉMIO DE POESIA PARA A NOSSA ESCOLA

NO DIA MUNDIAL DA POESIA, NO CCB


Mais uma vez, a nossa Escola recebeu um importante Prémio de Poesia.

Desta vez foi o 2.º Prémio do Secundário, no Concurso Nacional "Faça Lá um Poema", promovido pelo Plano Nacional de Leitura e o Centro Cultural de Belém.

Sejamos mais rigorosos. Quem recebeu o prémio foi o João de Almeida d'Eça, do 11.ºF, e o poema - extraordinário poema - é "Morte em Veneza".

Estivemos no CCB, na cerimónia de entrega dos prémios, integrada nas comemorações do DIA MUNDIAL DA POESIA, e ficámos a saber, pelo Fernando Pinto do Amaral, presidente do PNL e do Júri, que estiveram em concurso mais de 2500 poemas. A única coisa que ocorre dizer é que foi muito emocionante ouvir o João ler, maravilhosamente, o seu poema. A perplexidade face a esta tão madura reflexão sobre a fugacidade da beleza e da juventude, submetidas ao peso implacável do tempo, esse escultor, não deixa de nos acompanhar. Thomas Mann e Visconti estiveram por momentos sentados, ao nosso lado, no grande auditório do CCB.
Parabéns, João, por os teres convidado!

Já que não ficou registo gravado desse instante tão intenso, transcreve-se o poema.


MORTE EM VENEZA

Todos morremos em Veneza
todos somos Aschenbach
vendo a juventude fugir
esvaindo-se por entre os dedos.
Todos encontramos o pequeno Anselmo
e todos o perdemos entre a bruma da maré
e quando ele reaparece, tarde de mais,
jazemos mortos na areia cálida
o bafo moribundo contra a corrente
os olhos brancos fitando o céu.
E o pequeno Anselmo foge
em toda a sua resplandecência
vendo a nossa carcaça velha
apodrecer ao sol poente.
Sim! Todos somos Aschenbach
e vimos morrer a Veneza
roídos pela frustração,
pela dúvida e pela incerteza
e todos vemos o pequeno Anselmo
fugir com a sua beleza!

ESCREVER POESIA COM QUADROS DENTRO


Já se vai tornando um hábito - um bom hábito - ir ao Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés, ver uma exposição e, de caminho, fazer uma Oficina de Escrita Criativa. Desta vez, a magnífica exposição de gravura de Bartolomeu Cid dos Santos convidava mesmo à evocação de Pessoa e não foi preciso reler muitos poemas para encontrar o verso certo para cada quadro, pegar nele, e usá-lo como mote para o poema a inventar.

Mas em primeiro lugar, falemos do pintor. Grande artista, gravador como poucos, quem o conhece? Quantos se lembram de ter visto um quadro seu? Em Tavira há umas escadinhas com o seu nome, no lugar onde teve o último atelier, depois do regresso de Londres e até à sua morte recente, em 2008. Devia ser proibido não conhecer a obra deste enorme artista português que viveu grande parte da sua vida em Londres e que na Literatura procurou insistentemente os temas da sua obra e que teve em Pessoa, sobretudo Álvaro de Campos, um motivo recorrente.

Partimos, pois, à procura das imagens de Bartolomeu Cid dos Santos e nelas procurámos as pegadas de Pessoa, e nessas pegadas o impulso para o nosso próprio salto de palavras - a palavra poética arrancada às imagens que aos poemas foram beber. Trajectória em Labirinto - curiosamente uma imagem multipresente nesta exposição - para encontrarmos os nossos labirintos interiores.

A turma que ali esteve, de corpo inteiro, foi o 12.ºB com a professora Assunção Sobral Gomes. Gostei mesmo desta turma. E do modo como se perderam nos quadros de Bartolomeu Cid dos Santos. E dos poemas que escreveram, eles que diziam que não eram grandes poetas...

Esta viagem do aLeR+ valeu mesmo a pena.

domingo, 21 de março de 2010

OUVIR EM VEZ DE LER

Ler é um acto que, na sua aparente e enganadora simplicidade, resulta de um longo processo histórico e da complexa formação cognitiva de cada um: lia-se, na Idade Média, pronunciando as palavras em voz baixa; não era conhecida a leitura silenciosa, sem mover dos lábios. Esta, que nos parece intuitiva, terá sido uma "descoberta" (provavelmente de mulheres: freiras que, para grande espanto dos que pela primeira vez as viram nessa prática, inventavam o acto, que hoje nos parece normal, de entrega à página de um livro, sem mediação da voz, como se a pessoa estivesse numa espécie de absoluto recolhimento).

Lê-se relativamente pouco em Portugal. Muitas das pessoas que sabem ler não gostam de o fazer. A leitura como um prazer é, obviamente, uma conquista. Mas que difícil, num mundo em que abundam e se buscam os prazeres que não dão trabalho, que se recebem passivamente.

Daí que me espante que certa editora apresente agora, como o último grito, "resumos de grandes obras" para se ouvir em i-pod. Ouvia há tempos, espantado, os argumentos de um orgulhoso responsável por este produto: que não podíamos recusar o «desafio das modernas tecnologias»; que se tratava de simplificar a vida dos jovens, apresentando-lhes, por exemplo, Felizmente Há Luar, de uma forma mais «motivadora» (porque, deduzo, os libertava da tarefa de "ler" a obra, permitindo-lhes que "ouvissem" um resumo dela). Era transbordando de vaidade que o senhor rematava: «Na altura dos exames, quando virem passar jovens de i-pod, quem sabe?, talvez estejam a ouvir Felizmente Há Luar».

Isto parece-me uma evolução ameaçadora. Não sou dos que pensam que a leitura esteja em risco - mas considero de uma irresponsabilidade que uma editora não perceba até que ponto está a corromper e a tentar substituir o que devia promover.

Provavelmente estou errado.

terça-feira, 16 de março de 2010

UMA RODA VIVA

Sempre numa roda viva, a nossa Biblioteca.


OFICINAS DE ESCRITA CRIATIVA
Em oficinas de escrita criativa, várias turmas do Básico e do Secundário têm sido convidadas a soltar a imaginação e a inventar prodígios. Recorde-se que o tema do Concurso Literário deste ano é precisamente O Dia dos Prodígios, título do romance com que Lídia Jorge, há trinta anos, iniciou a sua carreira literária. Recorde-se também que, dos textos criados nas oficinas irão ser seleccionados, nas turmas respectivas, os que poderão ser apresentados a disputar prémios.
Já foi a vez do 11º B, 11º G, 11º E, 7º B, 7º D, 7º A, 10º F, com as respectivas professoras de Português - Fátima Magriço, Mavilde Nunes, Ana Borba, Paula Varela, Irene Fonseca - e outras turmas se seguirão.
Com maior ou menor concentração, maior ou menor disponibilidade para a escrita, em comum há os casos extremos dos que declaram não ter ideias, ou não ter jeito para escrever, ou as duas coisas, e sempre, sempre, quem acabe com o contentamento, muitas vezes misturado de espanto, pelo resultado final, ao ter conseguido dar forma de palavra às ideias e imagens que, afinal, estavam (des)arrumadas em todas as cabeças.

LEITURA EM VOZ ALTA
Houve também lugar para a leitura em voz alta, com o décimo ano de História da Cultura e das Artes, acompanhado pela professora Fátima Madaleno, a mergulhar na atmosfera medieval do conto “A Dama Pé de Cabra”, de Alexandre Herculano – cujo bicentenário do nascimento se comemora em 2010 – e a descobrir que fantástico, almas penadas e outros mistérios têm a sua origem em épocas bem distantes, muito apreciados por exemplo pelo gosto romântico, antes de terem sido redescobertos pelos actuais fabricantes de bestsellers.
A redescobrir, também, o prazer de ler em companhia, dando à palavra impressa a sonoridade que ela contém, a saborear texto e voz(es).

CONFERÊNCIA
No mesmo dia, mas ao fim da manhã, mudámos de registo e preparámo-nos para assistir à Conferência de intrigante título que a Doutora Elizabeth Sousa iria proferir: SK – FP – RS: Pseudónimos e Heterónimos. Com agrado e curiosidade, uma assistência composta por duas turmas já iniciadas na poesia de Fernando Pessoa (O 12º A e o 12º C), acompanhadas das respectivas professoras de Português, Conceição Pereira e Mavilde Nunes, e outros professores interessados pelo tema, acompanhou a conferencista no traçar de relações entre a pluralidade de identidades a que tanto o filósofo Soren Kierkgaard como o compositor Robert Schumann deram existência e a heteronímia pessoana. Comunicadora cativante, usando a linguagem simples de quem domina com segurança as matérias que expõe, Elizabeth Sousa abriu perspectivas novas, sobre a obra do enorme e sempre inesgotável poeta.
De novo a Biblioteca contou com a Conceição Pereira, na dinamização de mais um encontro.

RODA DE LIVROS
E a Roda de Livros do 10º B voltou a girar, sob o impulso da professora de Português, Elisa Costa Pinto.
Desta vez, as raparigas dominaram, e com elas a escolha de alguns livros em que sentimentos e emoções são objecto de observação. Só Resta o Amor, de Agustin Paz, E Dizer-te uma Estupidez qualquer, por exemplo, Amo-te, de Martín Córdoba. O primeiro, contou a Erica, que confessou não ter hábitos de leitura, foi começado no dia do PARAR PARA LER, e depois lido de enfiada. Às vezes é assim, “primeiro estranha-se, depois entranha-se…”. O segundo prova como um título pode ser decisivo no momento da escolha de um livro. Deu origem a alguma discussão, sobre o estado de idiotice em que se pode ficar quando se está apaixonado, de tal forma que até os rapazes participaram, eles que não gostam nada de falar destas coisas…
Seguiram-se A Criança Que Não Queria Falar, de Torey Hayden, Adrian Mole e as Armas de Destruição Maciça, de Sue Townsend e Um Leão Chamado Christie, de Anthony Bourke, todos suscitando diferentes curiosidades, numa conversa que voltou a fluir, ágil e saborosa.

quinta-feira, 11 de março de 2010

UMA RODA VIVA

Continua a andar numa roda viva, a nossa Biblioteca

terça-feira, 9 de março de 2010

UMA EVOLUÇÃO PARALELA

Se alguns amores há que são para ser mascados rapidamente e engolidos, como fast-food, outros, mais difíceis mas mais compensadores, devem saborear-se. Assim sucede com a minha última paixão. Vou apresentar um pedacinho, um fragmento, só, desse amor vagaroso e exigente:

«Muito da força da tecnologia, pensada em sua generalidade, vem desta conversão de uma ambivalência ancestral numa função única. É isto que faz o avião voar, a roda do carro girar, a lâmpada acender - o assassinato do possível. A tecnologia não é a falsa maravilha mas a mais violenta delas, já que cala todas as demais. Pois quem pode garantir que o borrifamento gracioso e a dispersão contínua da água, como numa gigantesca fonte barroca, não seriam capazes, numa outra evolução tecnológica (feita a partir do pó e não do fogo, da lama e não da roda, do vinho e não do pergaminho, do grito e não da fala), de gerar mais energia do que as hedrelétricas? Ou que ao invés de utilizar aviões pudéssemos ser catapultados em colchões de ar até o outro lado do oceano, abraçados a travesseiros de penas de ganso que voassem ainda? Não haverá em nosso grito uma enorme fonte de energia desperdiçada, e será que o mecanismo de nossas pálpebras não dispensaria combustíveis fósseis? E se cuspíssemos para cima? E se não fizéssemos nada? E se acendêssemos lâmpadas com bocejos?»

Mantenho, como perceberam, o português do Brasil. O autor chama-se Nuno Ramos. O livro tem um título tão simples e tão inesquecível como isto: Ó! Foi Prémio PT em 2009.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

PRÉMIO PARA MARIA VELHO DA COSTA


Maria Velho da Costa foi a grande vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído ao seu romance Myra (Assírio & Alvim) que esteve a concurso entre 160 livros de autores de língua portuguesa, castelhana ou hispânica. O prémio inscreve-se no programa do encontro "Correntes de Escritas", anualmente organizado na Póvoa de Varzim e que, este ano, reuniu cerca de 65 escritores.
O júri era constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis e Vergílio Alberto Vieira.

NOTA: lembramos que Maria Velho da Costa, uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea, esteve já na Bibiloteca da nossa Escola, a orientar uma interessantíssima oficina de escrita (como pode ver-se na foto).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Chimamanda Adichie: O perigo da história única

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie conta como aprendeu a compreender que é perigoso conhecer uma única história, que é como quem diz, olhar alguém ou uma realidade, sob uma só perspectiva.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ONDE NÃO ESTOU, TU NÃO EXISTES

onde não estou, tu não existes, de Marta Chaves, é um livro singular. São 21 poemas breves (5 deles têm apenas 1 verso, o mais extenso tem 8 versos), respiração de uma fortíssima intensidade emocional e textual que a escassez das palavras parece sublinhar.
O título abre para um universo de referências (a relação sujeito-objecto) claramente vinculadas à Filosofia e à Psicanálise. E se esta é uma linha de sentido que perpassa por aqui, uma outra, igualmente cara a estes domínios, se cruza com ela - a linguagem. Temos, então, que este é um livro sobre a relação do eu com o outro, uma relação que é instaurada pela palavra, o nome, ou, na impossibilidade de nomear, pelo silêncio. Na verdade, este é também um livro onde o silêncio se faz ouvir, desde o primeiro poema
Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.
ou mais adiante
Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio.
ou ainda
Fico só
entre mim e o nome que dou às coisas.

Não se pense, no entanto, que Marta Chaves procura na Filosofia ou na Psicanálise um abrigo redutor, ou comprometedor, da dimensão poética dos seus versos. Muito longe disso, estes poemas (ou o poema contínuo, para usar uma expressão roubada a Herberto Helder) são pura poesia, tecida palavra a palavra, linguagem densa e depurada. Com estas palavras se enuncia o (des)encontro com o outro, o amor, a perda, a fuga, o rapto. Com estas palavras, colhidas laboriosamente no dicionário mais íntimo, se indicia uma narrativa (e uma geografia)
Esta cidade está repleta de pequenos raptos,
de andaimes suspensos no tempo da minha memória.

Lembrar que este é o primeiro livro de Marta Chaves, depois da estreia na revista "Criatura", e da presença na blogosfera literária, não é irrelevante. Porque é necessária uma grande maturidade estilística para publicar assim, para escrever assim, com este rigor e esta escassez. É preciso um domínio muito eficaz da linguagem, para virar as palavras do avesso e depois devolvê-las intactas e transparentes ao labor da representação. É preciso deixar para trás muitos cadernos de versos para, num só verso, escrever
Chegam cobertas de pó as coisas imaginadas.

onde não estou, tu não existes é um livro cuja leitura nos obriga a parar, porque só no silêncio do encontro com a substância da palavra poética, saberemos desocultar o que apenas se pressente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

RODA DE LIVROS



Toda a gente sabe que a invenção da roda foi uma das mais fabulosas que o ser humano jamais realizou, e as extraordinárias mudanças que trouxe à sua existência. Sem rodas, como seria a nossa vida?
O que muitos ainda não experimentaram foi a magia de pertencer, ou mesmo só de assistir, a uma “Roda de Livros”, como a que teve lugar na Biblioteca. A turma B do 10º ano, simpática, “boa onda”, divertida, com a professora de Português, também, a falar de coisas muito sérias com a naturalidade e à vontade com que se deve falar das coisas sérias.
Ora vamos lá a ver. Cheguei atrasada, segundo um dos alunos, perdi o melhor... O que seria, se o resto foi tão bom?! Soube depois que foi a apresentação de um livro que li de um fôlego, daqueles que lemos e depois andamos a querer convencer toda a gente de que não pode de maneira nenhuma perdê-lo: A Sombra do Vento, do catalão Zaffon, romance premiado no ano em que saiu, logo aqui em Portugal, no Correntes de Escritas (o importante encontro de literatura de expressão ibérica, que todos os anos se realiza na Póvoa do Varzim). Que pena não ter ouvido!
Mas ouvi falar do Siddartha, de Hermann Hesse, da procura do ser, do caminho para lá, percebi como foi bem feita a escolha do que devia ser dito, apreciei como alguém perguntou, concluiu – “Então, é como se esse fosse o caminho da vida?” (Não foi bem assim, mas garanto que o sentido foi esse.)
Ouvi falar d’ O Carteiro de Pablo Neruda, daquela tocante amizade entre o carteiro e o poeta, daquele amor do carteiro que o poeta ajudou a conquistar. Das cartas sonoras que o carteiro enviou ao poeta, quando este precisou de recordar.
Do inesquecível Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, do intemporal Diário de Anne Frank.
Também de As Brumas de Avalon, que um divertido leitor confessou ter partes “com bolinha” e que foram exactamente essas que lhe agradaram mais.
E ainda houve tempo para um magnífico policial de Agatha Christie, para acabar em suspense.
Nada quebrou aquele círculo perfeito, as apresentações cativantes, as perguntas inteligentes, outras ligeiras e bem humoradas (“Quanto tempo levaste a ler esse livro?”- 6 vezes..., “Mas há história de amor?”, “E o rapaz, era bonito?”), mas sempre com um grande companheirismo. Não sei se a palavra está fora de moda, mas foi o que achei e me agradou mais. Temos turma!
Como dizia o senhor Pedro no final, “Ficava aqui o resto da manhã a ouvi-los.”