- O que veem?
- Uma casa, não sei se é... parece.
_ Por acaso, parece!
_ De que material é feito?
- De óleo.
- E de que época será esta pintura?
- Da época medieval.
- Não, é mais aintiga, eles ainda não sabiam pintar!
Assim, num vivíssimo diálogo a muitas vozes, sem silêncios, mas também sem atropelos, o 8ºD foi comentando as imagens mostradas pela professora Ana Cristina Marques, selecionadas da vastíssima iconografia da figura de D. Quixote de la Mancha.
Começando pelos contemporâneos, os tais que ainda não sabiam pintar - equívoco prontamente esclarecido e ótimo pretexto para dar algumas noções sobre a pintura não figurativa - e recuando até ao século XVIII, diversas representações do cavaleiro, primeiro mantido anónimo, foram sendo vistas e apreciadas pela assistência.
Não tardou a ser identificado, dando a deixa para a fase seguinte da conversa, agora sobre a história e significado da famosa personagem: os professores José António Pacheco e Adélia Simas conduziram a reflexão, acrescentando novos elementos e situando na sua época o grande clássico da literatura universal, de mistura com a leitura de excertos ilustrativos, e a projeção de uma cena do musical com Peter O'Toole, trazido pela professora Suzete Monteiro.
Na última parte, saltou a pergunta, confirmação inequívoca do interesse e envolvimento dos assistentes. A hora era mesmo de questionar, não apenas de escutar:
- Porque é que fizeram um livro sobre um homem que nem sequer era cavaleiro e que não regulava lá muito bem?
Duas das sugestões de resposta:
- Porque se calhar era cómico!
- Com certeza havia uma mensagem - vive os teus sonhos, nem sempre o que nós achamos que é fantasia é mesmo fantasia.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
segunda-feira, 14 de março de 2011
ANTÍGONA NA BIBLIOTECA
Antígona é um texto muito especial.
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.
Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.
Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?
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sábado, 29 de maio de 2010
ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA: ARGUMENTOS E PARADOXOS
E quase no final do ano lectivo,
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sábado, 30 de janeiro de 2010
UM LIVRO
Há um livro que me é particularmente querido, e desde há muito.
O autor é um homem discreto, que preferiu esconder-se do público e fugir às entrevistas: J. D. Salinger. O título original é The Catcher in the Rye. A tradução portuguesa desta expressão tem variado: já lhe chamaram Uma Agulha no Palheiro. Já lhe chamaram À Espera no Centeio. (Ambas as edições se encontram no mercado). Mas trata-se de aproximações bizarras, insuficientes para «agarrar» um termo, "catcher", que não possuímos em português.
O narrador é Holden Caulfield, um jovem de dezasseis anos que acaba de ser "dispensado" (leia-se expulso) de um colégio interno.
Numa linguagem crua e cruel, com obscenidades ou palavras típicas de um rapaz da sua época - semelhantes, no fundo, às de qualquer adolescente de qualquer tempo e qualquer parte -, Caulfield revela-nos a sua paradoxal visão do mundo e da vida, impregnada de rancor e de inocência, malvadez e generosidade, incompreensão e lucidez. O seu humor fere. O desprezo que nutre pelos adultos (ou pelos próprios colegas) não é senão uma face oculta da carência que o marca, da necessidade de que o amem.
Vai narrando a aventura desse lapso em que, expulso de Pencey, decide não regressar imediatamente a casa: quer dar tempo aos pais para que recebam e digiram a notícia. E desaparece por uns dias, durante os quais, entre as mais estranhas peripécias, nunca perde a ligação íntima com a infância: recorda o seu irmão escritor, o outro irmão, que morreu, a sua irmã mais nova, que adora, evocados em memórias palpitantes, à Proust, em que todas as sensações permanecem intensas: os cheiros, as cores, as vozes.
É um livro mais triste do que revoltado, escrito nos anos cinquenta, mas em que reencontro, hoje, uma personagem que não é diferente do meu filho ou dos meus alunos. É um livro em que a dor está sempre à beira de se deixar tocar, apesar de disfarçada na arrogância, contida pela noção do ridículo ou aparentemente suspensa entre acontecimentos inesperados e divertidos.
Neste momento, é só o que interessa. Entendam-me: escrevo simplesmente sobre um livro que amo, pelo que é, em si mesmo. E se este texto despertou o interesse de alguém que não conhecia Uma Agulha no Palheiro, gostaria que o procurasse pelo que o livro é.
Por um instante, esqueçamos, pois, que J. D. Salinger, seu autor, morreu na quarta-feira passada. Talvez seja uma homenagem justa. Estamos a falar do seu livro: um livro que nunca morrerá.
O autor é um homem discreto, que preferiu esconder-se do público e fugir às entrevistas: J. D. Salinger. O título original é The Catcher in the Rye. A tradução portuguesa desta expressão tem variado: já lhe chamaram Uma Agulha no Palheiro. Já lhe chamaram À Espera no Centeio. (Ambas as edições se encontram no mercado). Mas trata-se de aproximações bizarras, insuficientes para «agarrar» um termo, "catcher", que não possuímos em português.
O narrador é Holden Caulfield, um jovem de dezasseis anos que acaba de ser "dispensado" (leia-se expulso) de um colégio interno.
Numa linguagem crua e cruel, com obscenidades ou palavras típicas de um rapaz da sua época - semelhantes, no fundo, às de qualquer adolescente de qualquer tempo e qualquer parte -, Caulfield revela-nos a sua paradoxal visão do mundo e da vida, impregnada de rancor e de inocência, malvadez e generosidade, incompreensão e lucidez. O seu humor fere. O desprezo que nutre pelos adultos (ou pelos próprios colegas) não é senão uma face oculta da carência que o marca, da necessidade de que o amem.
Vai narrando a aventura desse lapso em que, expulso de Pencey, decide não regressar imediatamente a casa: quer dar tempo aos pais para que recebam e digiram a notícia. E desaparece por uns dias, durante os quais, entre as mais estranhas peripécias, nunca perde a ligação íntima com a infância: recorda o seu irmão escritor, o outro irmão, que morreu, a sua irmã mais nova, que adora, evocados em memórias palpitantes, à Proust, em que todas as sensações permanecem intensas: os cheiros, as cores, as vozes.
É um livro mais triste do que revoltado, escrito nos anos cinquenta, mas em que reencontro, hoje, uma personagem que não é diferente do meu filho ou dos meus alunos. É um livro em que a dor está sempre à beira de se deixar tocar, apesar de disfarçada na arrogância, contida pela noção do ridículo ou aparentemente suspensa entre acontecimentos inesperados e divertidos.
Neste momento, é só o que interessa. Entendam-me: escrevo simplesmente sobre um livro que amo, pelo que é, em si mesmo. E se este texto despertou o interesse de alguém que não conhecia Uma Agulha no Palheiro, gostaria que o procurasse pelo que o livro é.
Por um instante, esqueçamos, pois, que J. D. Salinger, seu autor, morreu na quarta-feira passada. Talvez seja uma homenagem justa. Estamos a falar do seu livro: um livro que nunca morrerá.
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