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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DAVID MARÇAL, O COMEDIANTE CIENTÍFICO

David Marçal, que tinha sido, há já algum tempo, convidado a visitar-nos, conseguiu finalmente estar presente na Biblioteca, diante de uma assistência numerosa, risonha e atenta, para, simultaneamente:

a) recordar-nos o seu percurso, desde o saudoso tempo em que foi aluno nesta escola (à roda de 1995),

b) falar da sua pós-graduação na área de "comunicação do saber científico", de que o brilhante Carl Sagan foi um pioneiro [e se tem revelado a forma certa de conjugar os interesses e conhecimentos científicos de David Marçal e o seu talento para a escrita],

c) referir a importância do sentido de humor na divulgação da ciência: David Marçal trabalhou para o suplemento satírico "Inimigo Público" e é o criador de um delirante projecto de cientistas que se dedicam à Stand-up comedy, o "Cientistas em Pé",

d) apresentar-nos o seu livro, "Darwin aos Tiros", que é um extraordinário exemplo da arte de cativar, falando sobre episódios da História da Ciência de uma forma absolutamente impagável.

E foi precisamente o que sucedeu ao longo da sessão: o exercício de saber e bom humor que consistiu em mostrar-nos o lado mais humano da ciência, trazida até mesmo ao pé de nós, desentalada de um pedestal onde os leigos a vêem, quase sempre, respeitosa e longinquamente.

Como dizia a Paula Fonseca, encantada, o David foi a prova viva de que se pode ser um cientista, um comediante nato e talentoso e um jovem bonito, tudo ao mesmo tempo. (Não é o meu caso, claro, porque não sou cientista...)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O PRINCIPEZINHO


Se é indiscutível que de costume se prefere o silêncio e o estar sozinho para companheiros da leitura, não deixa de ser verdade que está a voltar , e a alastrar cada vez mais, o gosto pela leitura partilhada, feita em voz alta.
Numa experiência até agora inédita na Escola, e só possível graças à pronta disponibilidade dos professores das turmas 7ºB, D e F, assim fizemos com O Principezinho , que lemos quase de um fôlego: apresentada a proposta de que, em dias sucessivos, cada disciplina dedicasse uma aula às páginas intemporais do livro de Saint-Éxupery, ela foi acolhida com o agrado que é já promessa de sucesso.
Diferentes vozes, timbres, intensidades e entoações, com intervalos abertos para o comentário, a discussão, o significado das palavras.
Alguns alunos já tinham lido O Principezinho, no 2º ciclo, outros só conheciam o "diálogo da raposa", outros tinham visto representado, a maioria só conhecia a imagem do menino de cabelos loiros e cachecol esvoaçantes. A conclusão foi comum: esta foi uma leitura diferente, com muito mais janelas abertas.
Afinal, como todos os grandes livros, O Principezinho reserva muitos segredos e, quanto mais e mais experientes os olhos, maior será a probabilidade de os descobrir.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ANTÍGONA NA BIBLIOTECA

Antígona é um texto muito especial.
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.

Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

LIVROS e LEITORES


Outros dois encontros, em que as leituras pessoais estiveram também em destaque, seria imperdoável não divulgar: um ainda em Dezembro, exactamente na última semana de aulas, o outro logo a seguir ao pequeno-almoço com o senhor Descartes (ainda havia chá...).

Os alunos do 10º C, com a professora Maria João Lima, aceitaram deixar o espaço de conforto, como se diz agora, da sala de aula, e convidar outra turma, o 9º D, para assistir à apresentação de dois livros do contrato de leitura. Dois títulos de qualidade indiscutível, e muito diferentes entre si, sendo também muito diversas as abordagens realizadas. O grupo que falou sobre o romance de Marina Mayoral, Tristes Armas, trouxe vasta e variada informação, sobre a autora, claro, mas sobretudo sobre o fundo histórico em que a narrativa se constrói, a Guerra Civil de Espanha, realidade terrível, desconhecida para a maioria dos assistentes, e que aconteceu aqui tão perto e há tão pouco tempo. O segundo título, o clássico e belíssimo O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, prestava-se a uma leitura menos factual e mais simbólica. e foi exactamente o que fizeram ambos os alunos que a apresentaram, curiosamente feita individualmente, dando oportunidade ao confronto e complementaridade de duas perspectivas.

O segundo encontro foi o regresso da RODA DE LVROS do agora 11º B, que tanto nos tinha encantado, nas edições anteriores.

Um pouco entorpecida de início, a Roda demorou um nadinha a deslizar, mas, depois de começar, recuperou a já conhecida agilidade e leveza. Sem papéis nas mãos, a memória das páginas lidas, a visão crítica e pessoal, a conversa.

A turma está diferente, mas não está. Quer dizer, há algumas caras novas, mas parece que sempre pertenceram ao grupo, não se nota estranheza ou inibição. Se calhar, é um dos segredos para que as coisas corram tão bem!

Quanto aos livros, o primeiro foi o Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide, o conhecido e apaixonante clássico de Robert Louis Stevenson. Seguiu-se-lhe uma emocionada apresentação de Marina, o último romance editado em Portugal do catalão Carlos R. Zaffon, o autor de A Sombra do Vento. Já só houve tempo para o terceiro volume da tetralogia As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.

E resta-nos pedir para não demorar muito, a próxima RODA. Somos fãs!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O RISCO DOS PEQUENOS-ALMOÇOS


Sim senhor, sim senhor. Hoje, tivémos a segunda visita de monsieur Descartes.
Para mais duas turmas décimo-primeiro anistas, A e C, organizou a Biblioteca/CRE da escola um pequeno-almoço que, não desfazendo, correu particularmente bem.

Foram guiadores de visita os alunos, do 11º A, Diogo Cunha e Helena Cordeiro. As apresentações foram seguras e as intervenções dos mais diversos alunos eram de uma grande perspicácia, mesmo quando se fechavam numa certa teimosia. Mas não queria repetir o que já disse, em post anterior, acerca da sessão em si mesma. Portanto, conto antes que, há dias, quando, na aula, descrevia à turma o que se iria passar nesse pequeno-almoço a sério, onde, à volta da mesa, conversaríamos acerca da filosofia de René Descartes, o Diogo Cunha seguia o meu entusiasmo com um olhar céptico. Como se pensasse para os seus botões: «Hum! Tanta lantejoula para quê?»
Hoje, após a sessão, não resisti e perguntei-lhe: «Então, que tal?»; e assim falou o Diogo, parando de mastigar a tosta com compota que, visivelmente, lhe estava a saber muito bem: «Foi excelente!»; retruquei (grande palavra): «Sim, mas confesse lá. O Diogo estava muito deconfiado, não estava?»; e ele: «Porque era um risco, professor. Correu-se um risco: parecia-me uma daquelas ideias que se, na prática correm mal, dão muito mau resultado...»

Eu sei. A afirmação do Diogo não foi uma crítica, mas um elogio: reconhecer que toda a diferença implica algum risco - e, já agora, que a Biblioteca da escola é, e tem sido, desde há muitos anos, um lugar onde se correm riscos, e se sofrem frustrações, claro, mas se realizam sessões ímpares, é o maior elogio que pode ser feito. Ainda bem que o chá vos soube bem. Descartes, de onde quer que vos viu, gostou certamente do que viu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PEQUENO-ALMOÇO COM DESCARTES

A manhã do dia 17 foi marcada por uma surpresa que esperava, na Biblioteca, alguns alunos de 11ºs anos (E, F): um pequeno-almoço.

No lugar sagrado que é uma Biblioteca estava-se perante a possibilidade de uma refeição que também só poderia ser uma refeição sagrada, uma oferenda, um ritual: chá, tostas com compota ou mel e biscoitos constituíram os alimentos de um pequeno-almoço em que o convidado central foi o filósofo René Descartes.

O pretexto era a leitura de um livro, que encontram na Biblioteca, e cujo título é Pequeno-almoço com Sócrates. O título é deliberadamente redutor, aludindo simplesmente a um conceito: «Sócrates» não é Sócrates, é todos os filósofos sobre que o livro vai falando - e, já agora, «pequeno-almoço» também não é só o pequeno-almoço, mas símbolo de todas as actividades corriqueiras e quotidianas (como ir ao ginásio, preparar uma festa, fazer compras, discutir com o parceiro...) que preenchem mecanicamente a nossa existência. Não pensamos acerca delas: e, todavia, são pensáveis, na sua significação filosófica ou nas perplexidades em que nos envolvem quando sobre elas reflectimos. Mais: o autor mostra-nos como, de algum modo, os mais simples actos humanos, nas suas implicações éticas e políticas, já foram matéria de uma meditação por parte dos filósofos, desde Sócrates até aos contemporâneos.

Dois alunos do 11º E guiaram a conversa: a Mariana Amor e o João Ramos, em torno da ideia do «acordar», suscitavam perguntas que, a cada passo, nos transportavam para Descartes. O fantasma do filósofo acompanhava o diálogo. E se não interveio directamente, os seus problemas foram invocados. E debatidos.

Proximamente, haverá um outro pequeno-almoço. Valha-nos Descartes!

domingo, 21 de novembro de 2010

AS MÃOS, AS PALAVRAS E OS FRUTOS

Quero acreditar que o Eugénio de Andrade me perdoaria o abuso do seu título, se tivesse assistido à oficina animadíssima que, logo de manhãzinha, encheu a Biblioteca de cores, aromas, risos e ideias a crescer por todos os lados.
É preciso primeiro explicar que o 9º E está mais uma vez a pôr à prova a sua criatividade (lembram-se das ilustrações de poemas e dos DVDs gravados no ano passado?). O ponto de partida, desta vez, foi o envolvimento da turma no Programa Pessoa e, em E.V., a escolha de um fruto por cada um dos alunos, que já o desenhou e já procurou, também, as palavras mais certas para o descrever. Alguns já tinham também pesquisado títulos de livros e de poemas contendo nomes de frutos, quando, na passada quinta-feira, nos reunimos para mais uma sessão
dedicada a saborear o prazer da leitura e da escrita.
Dos textos lidos, o primeiro um diálogo muito invulgar, em que um certo Virgílio se esforça por explicar a uma certa Beatriz como é uma pera (Yann Martel, Beatriz e Virgílio, ed. Presença),o segundo retirado de mais um daqueles livros em que a imaginação e o nonsense de Roald Dahl dão resultados sempre imprevisíveis (James e o Pessegueiro Mágico, ed. Terramar), aqui fica um breve fragmento:

BEATRIZ: Mas a que sabe? Não aguento mais.
VIRGÍLIO: Uma pêra madura transborda de suculência doce.
BEATRIZ: Oh, isso parece bom.
VIRGÍLIO: Corta uma pêra e verás que a sua polpa é de um branco incandescente. Brilha com uma luz interior. Aqueles que trazem consigo uma faca e uma pêra nunca têm medo do escuro.
BEATRIZ: Tenho de provar uma.
VIRGÍLIO: A textura de uma pêra, a sua consistência, é outra coisa difícil de pôr em palavras. Algumas peras são um tudo-nada crocantes.
BEATRIZ: Como uma maçã?
VIRGÍLIO: Não, nada parecido com uma maçã! Uma maçã resiste a ser comida. Uma maçã não é comida, é conquistada. A qualidade crocante de uma pêra é muito mais atraente. É generosa e frágil. Comer uma pêra é semelhante a... beijar.
BEATRIZ: Oh, céus! Parece tão bom.
VIRGÍLIO: A polpa de uma pêra pode ser ligeiramente granulosa. Contudo, derrete-se na boca.
BEATRIZ: Tal coisa é possível?
VIRGÍLIO: Com todas as peras. E isso é só o aspecto, o toque, o cheiro, a textura. Ainda nem te falei do sabor.
BEATRIZ: Meu Deus!
VIRGÍLIO: O sabor de uma boa pêra é tal que, quando se come, quando os nossos dentes mergulham na beatitude da polpa, isso torna-se uma actividade absorvente. Não se quer fazer mais nada além de comer a nossa pêra. Prefere-se estar sentado do que em pé. Prefere-se estar só do que acompanhado. Prefere-se o silêncio à música. Todos os sentidos, excepto o paladar, ficam inactivos. Não se vê nada, não se ouve nada, não se sente nada... ou apenas na medida em que nos ajude a apreciar o sabor divinal da nossa pêra.
BEATRIZ: Mas a que sabe ao certo?


Depois foi a folha em branco, o sossego instalando-se a pouco e pouco, as mãos que já desenharam os frutos pegando nos lápis hesitantes, as palavras e frases a despontarem, os textos a ganharem forma, consistência, sabor.
Não vai ficar por aqui este trabalho, a professora Maria João Cortegaça reservou a parte mais surpreendente para o final.


Estejam atentos!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA HORA DE LEITURA

Todos conhecemos o nome do chileno Antonio Skármeta como o autor do maravilhoso O Carteiro de Pablo Neruda. Pois bem, está aí um novo livro, igualmente terno e comovente, e igualmente desprovido de qualquer tentação piegas.
Um Pai de Filme conta a história de um jovem professor primário de uma remota aldeia chilena, com a cabeça cheia de sonhos literários e desejos de conhecer o amor e a vida. É uma brevíssima narrativa (menos de 100 páginas) que nos proporciona uma hora de puro prazer de leitura.

Na apresentação do seu livro, hoje, na Livraria Buccholz, Antonio Skármeta, muito divertido, confessou que, tendo começado por escrever um romance com mais de 300 páginas, acabou por ir cortando, cortando, até chegar a esta história curta, que deixa espaço para o leitor respirar e sonhar. O actor André Gomes (que representou Pablo Neruda na peça encenada há uns anos pelo Grupo de Teatro de Almada) leu páginas do livro.
Tenho a certeza de que, a esta hora, todos os que estavam naquela sala, já leram, de um fôlego, Um Pai de Filme de Antonio Skármeta.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PESSOAL...E TRANSMISSÍVEL


Às vezes acontece-nos o privilégio de receber ao vivo e a cores convidados fascinantes, com a rara capacidade de abrir intervalos no meio das suas agendas sobrecarregadas, para conversar com estudantes do Secundário e revelar pedacinhos do seu muito saber e invejável experiência.
Na passada 2ª feira, visitou-nos Carlos Vaz Marques, autor do "Pessoal... e Transmissível"- programa da TSF que todos os apreciadores de uma boa entrevista conhecem e recomendam - colaborador do Jornal de Letras, da revista LER, responsável por uma colecção de títulos de literatura de viagens, e tradutor de alguns, moderador do imperdível "Governo Sombra", programa de sátira política entre cujos ministros se conta o fedorento Araújo Pereira, anfitrião do "Café com Letras", actividade regular das Bibliotecas Municipais de Oeiras, vencedor do prémio Ilídio Pinho, nada mais nada menos que o maior prémio de jornalismo atribuído em Portugal... Ufa! Tudo isto, e muito mais, num jovem que ainda no outro dia era aluno do Liceu Camões, onde teve como professora de Português a (nossa) Elisa Costa Pinto, que, evidentemente, se encarregou de apresentar orgulhosamente (babadamente, confessou ela) o jornalista às três turmas reunidas na Biblioteca para o conhecer.
Carlos Vaz Marques falou sobretudo das entrevistas de rádio. (Espantou-nos desde logo saber que é o único responsável pela sua preparação, quando se imaginaria, perante a profundidade das entrevistas e a lista de entrevistados, tão variada e extensa, uma equipa de retaguarda a fazer o exaustivo trabalho de pesquisa). Disse gostar particularmente de entrevistar pessoas que "não dizem o que se está à espera" - encontrando-se os escritores, naturalmente, entre os mais desafiantes - e também de trazer ao conhecimento do grande público pessoas que não aparecem frequentemente nos media, "aves raras", no melhor sentido da expressão.

Muitos de nós nunca tinhamos pensado na diferença entre as entrevistas "de combate"- em que, no dizer do nosso convidado, o jornalista substitui todos os que gostariam de poder estar ali, a colocar perguntas muitas vezes incómodas, a pessoas com responsabilidades governativas, por exemplo - e as outras, em que o entrevistador não pode exigir, antes tentando seduzir, entender, empatizar.
E Carlos Vaz Marques, nisso, é mestre. A nós encantou-nos!

P.S. - Graças à santa internet, podemos ouvir a qualquer hora os programas de rádio referidos. Basta ir ao sítio da TSF.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

UM MÊS DEPOIS


Se o blogue tem andado demasiado quieto (mea culpa), o mesmo não se passa com a Biblioteca. Longe disso!
Como fazemos questão de repetir em cada início de ano, abrimos as portas e as expectativas às turmas do 7º, em sessões de apresentação e boas vindas. Novos rostos, vozes, histórias, para nós o recomeço, a renovação, novas linhas na nossa fisionomia.
Quase todos ficarão connosco durante seis anos bem importantes nas suas vidas, em todos esperamos deixar as melhores recordações.
Acompanhados pelas professoras Céu Ribeiro e Teresa Silva, em Português, e Adelaide Pereira, em EAC, contaram de onde vêm, como usavam as Bibliotecas das suas antigas Escolas, partilharam gostos e opiniões.
Compenetrados, conheceram o Regulamento. Em silêncio atento, escutaram um história "de adormecer anjos", o conto "Sábios como Camelos" do angolano José Eduardo Agualusa, que escreveu o espantoso Estranhões & Bizarrocos, com ilustrações de Henrique Cayate. (Temos...) Depois, vasculharam estantes, em busca de autores que, à semelhança dos da biblioteca ambulante do grão-vizir, estão arrumados de A a Z. Alguns já voltaram para responder a um inquérito e escolher livros, sobre os quais mais tarde iremos conversar.
Gostámos de vos conhecer!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOBEL PARA MARIO VARGAS LLOSA

Grande escritor equatoriano, um dos maiores da língua castelhana, Mario Vargas Llosa recebe, finalmente, o Nobel da Literatura que, segundo a crítica, há muito lhe era devido. Depois dos chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, do colombiano Gabriel García Márquez, do mexicano Octavio Paz, Vargas Llosa oferece à riquíssima literatura latinoamericana o galardão máximo.

Queremos aqui homenageá-lo da melhor maneira que conhecemos para homenagear um escritor: lê-lo e dá-lo a ler.
Transcrevemos, pois, uns parágrafos do início do seu romance Travessuras da Menina Má, de 2006.

Aconteceram coisas extraordinárias naquele Verão de 1950. Cojinoba Lanas atirou-se pela primeira vez a uma rapariga - a ruiva Seminauel - e esta, ante a surpresa de Miraflores inteiro, disse-lhe que sim. Cojinoba esqueceu-se do seu coxear e andava desde então pelas ruas a fazer peito como um Charles Atlas. Tico Tiravante acabou o namoro com Ilse e atirou-se a Laurita, Victor Ojeda atirou-se a Ilse e acabou com Inge, Juan Barreto atirou-se a Inge e acabou com Ilse. Houve uma tal recomposição sentimental no bairro que andávamos aturdidos, os namoros desfaziam-se e refaziam-se e ao sair das festas dos sábados os pares nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. "Que relaxação!", escandalizava-se a minha tia Alberta, com quem eu vivia desde a morte dos meus pais.
As ondas dos banhos de Miraflores quebravam duas ao longe, a primeira a duzentos metros da praia, e era até aí que nós, os valentes, íamos abatê-las a peito, e deixávamo-nos arrastar uns cem metros, até onde as vagas morriam só para se reconstituírem em airosas ondulações e quebrarem de novo, numa segunda rebentação que nos fazia deslizar, aos que fazíamos carreirinhas nas ondas, até às pedrinhas da praia.
Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores toda a gente deixou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terramoto que pôs todos os pares infantis, adolescentes e maduros a saltar, pular, fazer figuras, nas festas do bairro. E a mesma coisa acontecia certamente fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, no centro de Lima, no Rímac e no Porvenir, onde nós, os miraflorinos, nunca tínhamos posto os pés nem pensávamos ter de pôr.
E assim como das valsinhas e das huarachas, dos sambas e das polcas tínhamos passado ao mambo, passámos também dos patins e das trotinetas à bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo, por exemplo, à mota, e inclusivamente um ou dois ao automóvel, como o matulão do bairro, Luchín, que roubava às vezes o Chevrolet descapotável ao pai e nos levava a dar uma volta pelos molhes, do Terrazas até à quebrada de Armendáriz, a cem à hora.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A SESSÃO DE BARREIROS

Perante turmas silenciosas, mas não apáticas, João Barreiros, apresentado pela professora Ana Páscoa, falou sobre ficção científica, autores preferidos, razões da segregação do género, sonhos de um porvir auspicioso (graças à ciência e à técnica) versus medos de um porvir trágico (graças à ciência e à técnica), erros de livros e/ou filmes de fc (como raio se propaga o som no vácuo, em Star Wars, ou como seriam possíveis espadas de laser que não esticassem até ao infinito, ou como poderia o homem invisível não ser cego?) e apresentou-nos o «livro do futuro»: o e-book.

O silêncio do público não revelava indiferença, mas um misto de timidez, reverência, atenção.
Barreiros falou, ligou, deslumbrou, lançou piadas, foi politicamente incorrecto, cáustico q. b., espantou com os paradoxos (por exemplo sobre os viajantes no tempo); tratou, a partir das duas ou três únicas perguntas que lhe fizeram, de um seu conto em particular, O Caçador de Brinquedos.

Há-de voltar, para nova sessão, a esta escola em que já deu aulas - a escola que, assim consta da dedicatória que rabiscou no livro oferecido por si à biblioteca, o «acolheu durante longos anos».

sábado, 8 de maio de 2010

ECOS DO UNIDIVERSO

Amigos, tenho sido preguiçoso a dar conta do que vem decorrendo.
Mas - nem sequer isto referi - o primeiro debate acerca do romance de Camus foi excelente. Os alunos, que viram numa fotografia, lá para trás, de dedo no ar, respondendo à pergunta «Quem leu?», não só tinham lido, como (não todos, mas muitos deles) falaram sobre as suas impressões, o perturbador incómodo que lhes ficara aquando da leitura. E, de algum modo, filosofámos. Que sentido tem a vida, que estrangeiros somos, também, todos nós, em que medida nos parecemos com Sísifo na realização das nossas tarefas quotidianas, o que nos resgata do medo, do vazio, da frieza.

João Lemos, por sua vez, foi aquilo a que nos habituou: magnífico.
Fez jus ao que lhe chamei na apresentação: ele próprio «uma ligação de ligações, por vezes um pouco delirante, mas sempre irresistível». Falou da BD ao longo do tempo, mostrou-nos praticamente homens das cavernas inscrevendo já pranchas de Banda Desenhada nas paredes das grutas, falou-nos de como a própria escrita chinesa seria uma estilização de desenhos, ligados numa espécie de narrativa; ou acerca de comics medievais; ou de neuróticos do pormenor desenhado: os meus alunos não me falam de outra coisa - perguntam-me como se chamava o "maníaco da minúcia" que Lemos apresentou. Não me lembro, caramba... ; e concluiu uma sessão inolvidável - para um 7º, um 8º, um 9º e um 10º, público absolutamente inédito - com o testemunho de como os «antigos» contavam, no terreno, uma história aos antílopes, para os levarem a cair no poço. A BD impregnando tudo - todos os tempos, todas as actividades, no cerne da própria caça.

As outras promessas vão-se aproximando. Tiago Torres da Silva, poeta e letrista, que nos vem falar da adaptação das palavras à música (dia 14); João Barreiros, que conversará sobre ficção científica, a partir de um conto seu (27); Gonçalo M. Tavares, que dinamizará um workshop em torno de uma ideia extraordinária. E Glen Baxter. E Alice no País da Matemática. É o universo inteiro a cair-nos em cima. O unidiverso...

terça-feira, 27 de abril de 2010

UNIDIVERSO



Sexta-feira, dia 30 de Abril, às 10h. 20 min.


OUTROS GÉNEROS E COISAS DESSE GÉNERO - A BANDA DESENHADA

Workshop orientado por

JOÃO LEMOS

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«E DESTE PESSOAL TODO, QUEM É QUE LEU O ESTANGEIRO?!»

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Oficina de Escrita sobre o Romance Policial


«Numa noite de trovoada, uma jovem de dezoito anos é assassinada na sua própria casa. Encontram o cadáver rodeado pelos seguintes objectos: um anel, um boneco, um cão de peluche, um frasco de verniz, uma borracha, um dado, uma vela praticamente consumida, pauzinhos de um restaurante chinês, e um suporte, em cartão, de papel higiénico.

«É chamado o detective G., feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo. Observando o local, a reconstituição dos acontecimentos parece-lhe óbvia:

« - A jovem tinha um encontro romântico com o seu possível namorado num restaurante chinês. Daí o verniz. É aí que ela recebe o anel; o boneco é um brinde oferecido pelo restaurante. A rapariga regressa a casa, decidida a estudar, pois tem um exame importante; mas há uma falha de energia e, com medo do escuro, acende uma vela e vai buscar o seu bicho de peluche; como a comida chinesa lhe provocou cólicas, foi à casa de banho e gastou o pouco papel que ainda havia. Sem se aperceber, levou, consigo, o cartão do papel higiénico para o quarto. Quanto ao dado, é o mais simples: trata-se da marca do assassino...»

Na oficina de escrita que se realizou em torno do romance policial, o Diogo Catalão e o João Nunes (10º A) apresentaram-nos este detective, «feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo» e puseram-no a relacionar, inteligente e rapidamente, as diversas pistas que lhes haviam sido previamente sugeridas...

terça-feira, 16 de março de 2010

UMA RODA VIVA

Sempre numa roda viva, a nossa Biblioteca.


OFICINAS DE ESCRITA CRIATIVA
Em oficinas de escrita criativa, várias turmas do Básico e do Secundário têm sido convidadas a soltar a imaginação e a inventar prodígios. Recorde-se que o tema do Concurso Literário deste ano é precisamente O Dia dos Prodígios, título do romance com que Lídia Jorge, há trinta anos, iniciou a sua carreira literária. Recorde-se também que, dos textos criados nas oficinas irão ser seleccionados, nas turmas respectivas, os que poderão ser apresentados a disputar prémios.
Já foi a vez do 11º B, 11º G, 11º E, 7º B, 7º D, 7º A, 10º F, com as respectivas professoras de Português - Fátima Magriço, Mavilde Nunes, Ana Borba, Paula Varela, Irene Fonseca - e outras turmas se seguirão.
Com maior ou menor concentração, maior ou menor disponibilidade para a escrita, em comum há os casos extremos dos que declaram não ter ideias, ou não ter jeito para escrever, ou as duas coisas, e sempre, sempre, quem acabe com o contentamento, muitas vezes misturado de espanto, pelo resultado final, ao ter conseguido dar forma de palavra às ideias e imagens que, afinal, estavam (des)arrumadas em todas as cabeças.

LEITURA EM VOZ ALTA
Houve também lugar para a leitura em voz alta, com o décimo ano de História da Cultura e das Artes, acompanhado pela professora Fátima Madaleno, a mergulhar na atmosfera medieval do conto “A Dama Pé de Cabra”, de Alexandre Herculano – cujo bicentenário do nascimento se comemora em 2010 – e a descobrir que fantástico, almas penadas e outros mistérios têm a sua origem em épocas bem distantes, muito apreciados por exemplo pelo gosto romântico, antes de terem sido redescobertos pelos actuais fabricantes de bestsellers.
A redescobrir, também, o prazer de ler em companhia, dando à palavra impressa a sonoridade que ela contém, a saborear texto e voz(es).

CONFERÊNCIA
No mesmo dia, mas ao fim da manhã, mudámos de registo e preparámo-nos para assistir à Conferência de intrigante título que a Doutora Elizabeth Sousa iria proferir: SK – FP – RS: Pseudónimos e Heterónimos. Com agrado e curiosidade, uma assistência composta por duas turmas já iniciadas na poesia de Fernando Pessoa (O 12º A e o 12º C), acompanhadas das respectivas professoras de Português, Conceição Pereira e Mavilde Nunes, e outros professores interessados pelo tema, acompanhou a conferencista no traçar de relações entre a pluralidade de identidades a que tanto o filósofo Soren Kierkgaard como o compositor Robert Schumann deram existência e a heteronímia pessoana. Comunicadora cativante, usando a linguagem simples de quem domina com segurança as matérias que expõe, Elizabeth Sousa abriu perspectivas novas, sobre a obra do enorme e sempre inesgotável poeta.
De novo a Biblioteca contou com a Conceição Pereira, na dinamização de mais um encontro.

RODA DE LIVROS
E a Roda de Livros do 10º B voltou a girar, sob o impulso da professora de Português, Elisa Costa Pinto.
Desta vez, as raparigas dominaram, e com elas a escolha de alguns livros em que sentimentos e emoções são objecto de observação. Só Resta o Amor, de Agustin Paz, E Dizer-te uma Estupidez qualquer, por exemplo, Amo-te, de Martín Córdoba. O primeiro, contou a Erica, que confessou não ter hábitos de leitura, foi começado no dia do PARAR PARA LER, e depois lido de enfiada. Às vezes é assim, “primeiro estranha-se, depois entranha-se…”. O segundo prova como um título pode ser decisivo no momento da escolha de um livro. Deu origem a alguma discussão, sobre o estado de idiotice em que se pode ficar quando se está apaixonado, de tal forma que até os rapazes participaram, eles que não gostam nada de falar destas coisas…
Seguiram-se A Criança Que Não Queria Falar, de Torey Hayden, Adrian Mole e as Armas de Destruição Maciça, de Sue Townsend e Um Leão Chamado Christie, de Anthony Bourke, todos suscitando diferentes curiosidades, numa conversa que voltou a fluir, ágil e saborosa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ONDE NÃO ESTOU, TU NÃO EXISTES

onde não estou, tu não existes, de Marta Chaves, é um livro singular. São 21 poemas breves (5 deles têm apenas 1 verso, o mais extenso tem 8 versos), respiração de uma fortíssima intensidade emocional e textual que a escassez das palavras parece sublinhar.
O título abre para um universo de referências (a relação sujeito-objecto) claramente vinculadas à Filosofia e à Psicanálise. E se esta é uma linha de sentido que perpassa por aqui, uma outra, igualmente cara a estes domínios, se cruza com ela - a linguagem. Temos, então, que este é um livro sobre a relação do eu com o outro, uma relação que é instaurada pela palavra, o nome, ou, na impossibilidade de nomear, pelo silêncio. Na verdade, este é também um livro onde o silêncio se faz ouvir, desde o primeiro poema
Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.
ou mais adiante
Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio.
ou ainda
Fico só
entre mim e o nome que dou às coisas.

Não se pense, no entanto, que Marta Chaves procura na Filosofia ou na Psicanálise um abrigo redutor, ou comprometedor, da dimensão poética dos seus versos. Muito longe disso, estes poemas (ou o poema contínuo, para usar uma expressão roubada a Herberto Helder) são pura poesia, tecida palavra a palavra, linguagem densa e depurada. Com estas palavras se enuncia o (des)encontro com o outro, o amor, a perda, a fuga, o rapto. Com estas palavras, colhidas laboriosamente no dicionário mais íntimo, se indicia uma narrativa (e uma geografia)
Esta cidade está repleta de pequenos raptos,
de andaimes suspensos no tempo da minha memória.

Lembrar que este é o primeiro livro de Marta Chaves, depois da estreia na revista "Criatura", e da presença na blogosfera literária, não é irrelevante. Porque é necessária uma grande maturidade estilística para publicar assim, para escrever assim, com este rigor e esta escassez. É preciso um domínio muito eficaz da linguagem, para virar as palavras do avesso e depois devolvê-las intactas e transparentes ao labor da representação. É preciso deixar para trás muitos cadernos de versos para, num só verso, escrever
Chegam cobertas de pó as coisas imaginadas.

onde não estou, tu não existes é um livro cuja leitura nos obriga a parar, porque só no silêncio do encontro com a substância da palavra poética, saberemos desocultar o que apenas se pressente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

RODA DE LIVROS



Toda a gente sabe que a invenção da roda foi uma das mais fabulosas que o ser humano jamais realizou, e as extraordinárias mudanças que trouxe à sua existência. Sem rodas, como seria a nossa vida?
O que muitos ainda não experimentaram foi a magia de pertencer, ou mesmo só de assistir, a uma “Roda de Livros”, como a que teve lugar na Biblioteca. A turma B do 10º ano, simpática, “boa onda”, divertida, com a professora de Português, também, a falar de coisas muito sérias com a naturalidade e à vontade com que se deve falar das coisas sérias.
Ora vamos lá a ver. Cheguei atrasada, segundo um dos alunos, perdi o melhor... O que seria, se o resto foi tão bom?! Soube depois que foi a apresentação de um livro que li de um fôlego, daqueles que lemos e depois andamos a querer convencer toda a gente de que não pode de maneira nenhuma perdê-lo: A Sombra do Vento, do catalão Zaffon, romance premiado no ano em que saiu, logo aqui em Portugal, no Correntes de Escritas (o importante encontro de literatura de expressão ibérica, que todos os anos se realiza na Póvoa do Varzim). Que pena não ter ouvido!
Mas ouvi falar do Siddartha, de Hermann Hesse, da procura do ser, do caminho para lá, percebi como foi bem feita a escolha do que devia ser dito, apreciei como alguém perguntou, concluiu – “Então, é como se esse fosse o caminho da vida?” (Não foi bem assim, mas garanto que o sentido foi esse.)
Ouvi falar d’ O Carteiro de Pablo Neruda, daquela tocante amizade entre o carteiro e o poeta, daquele amor do carteiro que o poeta ajudou a conquistar. Das cartas sonoras que o carteiro enviou ao poeta, quando este precisou de recordar.
Do inesquecível Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, do intemporal Diário de Anne Frank.
Também de As Brumas de Avalon, que um divertido leitor confessou ter partes “com bolinha” e que foram exactamente essas que lhe agradaram mais.
E ainda houve tempo para um magnífico policial de Agatha Christie, para acabar em suspense.
Nada quebrou aquele círculo perfeito, as apresentações cativantes, as perguntas inteligentes, outras ligeiras e bem humoradas (“Quanto tempo levaste a ler esse livro?”- 6 vezes..., “Mas há história de amor?”, “E o rapaz, era bonito?”), mas sempre com um grande companheirismo. Não sei se a palavra está fora de moda, mas foi o que achei e me agradou mais. Temos turma!
Como dizia o senhor Pedro no final, “Ficava aqui o resto da manhã a ouvi-los.”

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

PALAVRAS COM MÚSICA

Durante um certo tempo, houve, no andar de cima, alguém a arrastar mobília; cá em baixo, na Biblioteca, contudo, nem se dava por isso.

Algures, um telefone tocou: mal se deu por isso.

Estava também presente pelo menos uma turma de alunos que, às vezes, se mostram irrequietos: ali, pareciam em transe.

Vi olhos abertos, rostos em beatitude, expressões de enlevo. Não pensem que exagero ou que falo de uma ida à missa.
Estávamos, repito, na Biblioteca. Eram doze horas e quarenta e cinco minutos.
Perante o número ideal de assistentes - três turmas: 10º F, 11º F, 12º B -, recuperava-se o belíssimo espectáculo de poesia e música a que já algumas pessoas tinham assistido, no fim do período passado, num dos dias em que oficialmente a escola comemorou os seus 30 anos.

Não houve outro critério, na escolha dos poemas, que não fosse o do gosto dos que os disseram. Nem cronológicos, nem temáticos: foram apenas jovens, a Inês Lourenço, o Guilherme Santos, o João d'Eça, a Maria Carlos Cortegaça, a Sara Meess, a Verónica e a Beatriz Braz, que nos vieram mostrar a poesia que os toca: Cesariny, Neruda, Ary, Sophia - num poema dedicado ao Professor Lucas, que tanto dela gostava -, Ramos Rosa, Pessoa, Pessanha e Eugénio. As suas palavras ecoaram na Biblioteca, suspensas dos acordes das violas. (João Paulo e João Secca).

A seguir, duas alunas, a Minerva e a Isabela, tocaram clarinete e flauta, em melodias de balanço brasileiro, onde pressentíamos, por exemplo, a poesia de Vinícius («Quando a luz dos olhos meus/ Encontra a luz dos olhos teus...»); a fechar, a Andreia cantou naquela sua voz de que, ainda ela não acabara, e já nós começávamos a sentir saudades.

Foi um dos momentos mais maravilhosos que a Biblioteca guardará - e olhai lá, que a Biblioteca tem tido muitos momentos maravilhosos.