«Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem [1], desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos [2], dos que temos vontade de reler por puro prazer [3], dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar [4], dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir [5], etc.»
Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas
Encontro, na minha biblioteca, um exemplo de cada um dos casos referidos.
1. Ulisses, James Joyce
2. Pedro Páramo, Juan Rulfo
3. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
4. Os Maias, Eça de Queirós
5. Vitorino Nemésio
Mostrar mensagens com a etiqueta bibliotecas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta bibliotecas. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
domingo, 15 de novembro de 2009
CONTINUANDO À VOLTA DOS LIVROS
E ainda vagamente a pretexto de livros, não resisto a transcrever esta passagem que, entre outras qualidades, me parece tão sugestiva e tão bem escrita:
«Vejo-o, por exemplo, atrás do balcão no seu fato preto impecável, o cabelo bem penteado, a cara pálida de contornos definidos. Quando entra um cliente, coloca com cuidado o seu cigarro aceso no rebordo do cinzeiro e, esfregando as mãos magras, satisfaz zelosamente as necessidades do comprador. Por vezes - em particular se for uma senhora - faz um sorriso débil para exprimir condescendência para com os livros em geral, ou talvez escarnecendo de si próprio no papel de vulgar vendedor, e dá conselhos valiosos - isto vale a pena ler, ao passo que aquilo é um tanto pesado; aqui descreve-se de um modo assaz divertido a eterna guerra dos sexos e este romance não é profundo, mas é muito fresco, muito inebriante, sabe, como champagne. E a dama que tinha comprado o livro, a dama de lábios vermelhos e casaco de peles preto, leva consigo a imagem fascinante: aquelas mãos delicadas pegando nos livros com alguma falta de jeito, aquela voz contida, aquele sorriso fugaz, aqueles modos admiráveis. Em casa dos Khrustchov, porém, Smurov [que é, obviamente, a personagem que tem estado a ser descrita] começava já a causar uma impressão algo diferente numa certa pessoa.»
Este excerto, que é uma lição completa, foi escrito por Vladimir Nabokov. Encontra-se num livro chamado O Olho. Traduzido - e muito bem - por Telma Costa e editado pela Teorema.
«Vejo-o, por exemplo, atrás do balcão no seu fato preto impecável, o cabelo bem penteado, a cara pálida de contornos definidos. Quando entra um cliente, coloca com cuidado o seu cigarro aceso no rebordo do cinzeiro e, esfregando as mãos magras, satisfaz zelosamente as necessidades do comprador. Por vezes - em particular se for uma senhora - faz um sorriso débil para exprimir condescendência para com os livros em geral, ou talvez escarnecendo de si próprio no papel de vulgar vendedor, e dá conselhos valiosos - isto vale a pena ler, ao passo que aquilo é um tanto pesado; aqui descreve-se de um modo assaz divertido a eterna guerra dos sexos e este romance não é profundo, mas é muito fresco, muito inebriante, sabe, como champagne. E a dama que tinha comprado o livro, a dama de lábios vermelhos e casaco de peles preto, leva consigo a imagem fascinante: aquelas mãos delicadas pegando nos livros com alguma falta de jeito, aquela voz contida, aquele sorriso fugaz, aqueles modos admiráveis. Em casa dos Khrustchov, porém, Smurov [que é, obviamente, a personagem que tem estado a ser descrita] começava já a causar uma impressão algo diferente numa certa pessoa.»
Este excerto, que é uma lição completa, foi escrito por Vladimir Nabokov. Encontra-se num livro chamado O Olho. Traduzido - e muito bem - por Telma Costa e editado pela Teorema.
sábado, 7 de novembro de 2009
LIVROS COM BIBLIOTECAS DENTRO
Uma biblioteca é um lugar onde se encontram portas secretas para outros mundos: abrindo-se um livro, atravessa-se uma fronteira.
Há inúmeros livros acerca de bibliotecas.
Evocando alguns, um pouco arbitrariamente, ao correr da minha memória, começo por falar de O Nome da Rosa. Existe, nessa história sobre uma série de crimes, quem seja assassinado por causa de um segredo. Tal segredo diz respeito a um livro. Por sua vez, o livro em causa encontra-se na biblioteca de um mosteiro medieval, já de si uma concentração de saberes diligentemente copiados por monges, onde a tradição e a inovação entram, por vezes, em choque.
Se quisermos dar um salto do passado para o futuro, podemos referir Fahrenheit 451. Trata-se de um romance maravilhoso, sobre o qual conversámos aqui mesmo, na Biblioteca da escola, no decurso de uma tertúlia. Numa sociedade de onde toda a
escrita e toda a leitura foram banidas, porque o Poder as considera potencialmente perigosas, a biblioteca que os homens inventam é uma biblioteca humana, isto é, em que os livros são as próprias pessoas - aqueles resistentes que memorizam textos inteiros, ou capítulos essenciais, de modo a que a literatura se não perca nessa sociedade onde os derradeiros livros detectados são postos a arder...
Entre estes dois pontos extremos, encontramos outras bibliotecas: por exemplo, em O Homem sem Qualidades é-nos descrita uma biblioteca e, mais do que isso, um bibliotecário extraordinário, cuja função o obriga a uma visão de conjunto dos livros - o que, por outro lado, o impede de ler qualquer um deles em particular...(Curioso e terrível paradoxo, não é?)

Temos a Biblioteca de Babel, de Borges. Ou a biblioteca, no colégio de Harry Potter, onde se encontram os livros proibidos, que só sob o manto da invisibilidade podem ser procurados pelos jovens curiosos. E
, muito mais recentemente, A Sombra do Vento, de Zafón, que guarda todo o mistério das novelas do século XIX, e onde um livro estranhíssimo (e com uma longa História) é escolhido por Daniel, uma personagem romântica, entre os labirintos de uma
bibliotec
a profunda, com qualquer coisa de diabólico...
Acredito que a biblioteca da nossa escola é, também, um lugar mais obscuro e secreto do que poderá parecer à primeira vista. Sob um ruído persistente, sob a dispersão de alunos que se interessam mais pela internet do que por livros, sob um soalho deprimente (que talvez venha a ser mudado em breve), algumas surpresas do outro mundo nos aguardam. Serenamente. Tranquilamente. (Aparentemente...)
Há inúmeros livros acerca de bibliotecas.
Evocando alguns, um pouco arbitrariamente, ao correr da minha memória, começo por falar de O Nome da Rosa. Existe, nessa história sobre uma série de crimes, quem seja assassinado por causa de um segredo. Tal segredo diz respeito a um livro. Por sua vez, o livro em causa encontra-se na biblioteca de um mosteiro medieval, já de si uma concentração de saberes diligentemente copiados por monges, onde a tradição e a inovação entram, por vezes, em choque.
Se quisermos dar um salto do passado para o futuro, podemos referir Fahrenheit 451. Trata-se de um romance maravilhoso, sobre o qual conversámos aqui mesmo, na Biblioteca da escola, no decurso de uma tertúlia. Numa sociedade de onde toda a
escrita e toda a leitura foram banidas, porque o Poder as considera potencialmente perigosas, a biblioteca que os homens inventam é uma biblioteca humana, isto é, em que os livros são as próprias pessoas - aqueles resistentes que memorizam textos inteiros, ou capítulos essenciais, de modo a que a literatura se não perca nessa sociedade onde os derradeiros livros detectados são postos a arder...Entre estes dois pontos extremos, encontramos outras bibliotecas: por exemplo, em O Homem sem Qualidades é-nos descrita uma biblioteca e, mais do que isso, um bibliotecário extraordinário, cuja função o obriga a uma visão de conjunto dos livros - o que, por outro lado, o impede de ler qualquer um deles em particular...(Curioso e terrível paradoxo, não é?)

Temos a Biblioteca de Babel, de Borges. Ou a biblioteca, no colégio de Harry Potter, onde se encontram os livros proibidos, que só sob o manto da invisibilidade podem ser procurados pelos jovens curiosos. E
, muito mais recentemente, A Sombra do Vento, de Zafón, que guarda todo o mistério das novelas do século XIX, e onde um livro estranhíssimo (e com uma longa História) é escolhido por Daniel, uma personagem romântica, entre os labirintos de umabibliotec
a profunda, com qualquer coisa de diabólico...Acredito que a biblioteca da nossa escola é, também, um lugar mais obscuro e secreto do que poderá parecer à primeira vista. Sob um ruído persistente, sob a dispersão de alunos que se interessam mais pela internet do que por livros, sob um soalho deprimente (que talvez venha a ser mudado em breve), algumas surpresas do outro mundo nos aguardam. Serenamente. Tranquilamente. (Aparentemente...)
Subscrever:
Mensagens (Atom)