quinta-feira, 19 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Lúcia Marques


AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade, in Coração do dia

quarta-feira, 18 de abril de 2012

170.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ANTERO DE QUENTAL


Sem querer quebrar a cadeia, assinalo os 170 anos do nascimento de um dos maiores poetas portugueses. Com um soneto seu, claro.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.


Antero de Quental, Sonetos


DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Gilda Rosa

UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

Jorge de Sena

terça-feira, 17 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Raquel Leal (12ºB)


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.



David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 16 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… João Pedro Secca

PARA SER GRANDE

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis in Odes De Ricardo Reis

domingo, 15 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de … Teresa Palhares

FELICIDADE

Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia – por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

sábado, 14 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de… Fátima Madaleno



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Teresa Gomes

NO TEU POEMA

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto-chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


José Luís Tinoco

quinta-feira, 12 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Sara Oliveira


Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra «amigo»!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 11 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Maria João Santos



POEMA DA DESPEDIDA



Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Mia Couto

terça-feira, 10 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Adelaide Pereira

URGENTEMENTE

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 9 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Clara Anunciação


ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

domingo, 8 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Paula Varela


INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou o mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 7 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


A escolha de… A PÁGINAS TANTAS

No 119º aniversário do nascimento de José de Almada Negreiros

ACONTECEU-ME

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros

sexta-feira, 6 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Adília Ramos


Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Suzete Monteiro

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!


António Gedeão, in Movimento Perpétuo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Conceição Pereira


Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Ricardo Reis

terça-feira, 3 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Cristina Nunes

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Sarah Musgrave

O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

Pablo Neruda, in Poemas de Amor

domingo, 1 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Carlos Guerreiro

PEDRA FILOSOFAL

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão, in Movimento Perpétuo

sábado, 31 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Maria João Cortegaça

O SILENCIO É DOS PÁSSAROS

Os que não têm pão
da vida inesgotável
cantam silencio em prata noturna
prata secreta da noite
vaga e fútil
das quimeras amorosas na noite

Na noite das pratas
Das pratas roubadas ao senhor mais rico
Na vida dos pássaros
na fuga da vida falhada aos gritos
um grito na altura
no espaço
entre a morte
e o último vagão da vida

Da vida dos pássaros
numa sombra que nunca se deixa apanhar
Na luz que nunca se deixa pintar
nem apagar mesmo no espelho
que te abraçou na tormenta
construída pelo lar fora
pelo lar fora dos pássaros
O fora do risco que escapou ao vento
e no picar nervoso do pássaro mais rico

Um dos pássaros mais ricos
e os dois mil voltes dum fio
que pareceu em instantes
o risco entre o vento
e o picar nervoso do pássaro mais rico

Nem o homem nem o diabo
nem a mulher
nem a labareda
Mas o fogo todo inteiro
a possibilidade inteira do fogo
a mão de fogo constante
inalteravelmente vermelho
irremediavelmente preso de amor aos dedos
sensualmente delicado em seus arabescos de morte

No céu mais mudo do silêncio
sumir em chamas
para os pássaros tudo o que antes
fôra a fuga entre a vida dos pássaros

No risco mais fino do silêncio
entre o palpitar do mundo
e a vida dos pássaros
arder muito simplesmente
em franca esperança
na dada medida do desejo-de-dentro
o dentro do fogo branco
o fogo-branco-desejo
arder na vida dos pássaros
arder em penas a cair do vento
no risco mais fino do silêncio
entre o palpitar do desejo
e o silêncio que pertence aos pássaros


Fernando Lemos in Teclado Universal

sexta-feira, 30 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Adélia Simas


De onde eu venho
sou visitada pelas águas ao meio-dia
quando o silêncio se transforma
para as doces palavras do sal em flor
e das raparigas
Os muros são de pedra seca
e deixam escapar a luz por entre corredores
de raízes e vidro
lentas mulheres preparam a farinha
e cada gesto funda
o mundo todos os dias
há velhas mulheres pousadas sobre a tarde
enquanto a palavra
salta o muro e volta com um sorriso tímido
de dentes e sol.

Ana Paula Tavares, in O Lago da Lua

quinta-feira, 29 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de...Maria Machado




O movimento


Porque a coisa podia encontrar-se parada

como uma caixa.

Haveria a superfície, o rosto mais belo ou velhaco,

o sorriso, a ironia, e os ofícios.

E lá dentro, escondido: osso, vísceras e sensações;

tudo quieto e pasmado, a admirar o cinema exterior.

Porque a coisa podia encontrar-se parada

como uma caixa;

mas não.

E (é) este facto (que) complica os vivos




Gonçalo M. Tavares, in Poética do Corpo

quarta-feira, 28 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de ... Margarida Santos

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo pr’além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola a falsa caridade,
Que bom, no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem...
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.


António Aleixo, in Este livro que vos Deixo

terça-feira, 27 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Paula Fonseca


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira, Poesia III

segunda-feira, 26 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... José Pedro Gonçalves


DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

domingo, 25 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Rosa Costa

Faz-se luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
Intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objetos
os objetos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny, Pena Capital

sábado, 24 de março de 2012

O DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... José Pacheco

DA SOLIDÃO

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior
solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que
se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si
mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a
quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade,
de socorro. O maior solitário é o que tem medo de
amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser
casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo
entristece também tudo em torno. Ele é a angústia
do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa
às verdadeiras fontes da emoção, as que são o
património de todos, e, encerrado em seu duro
privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e
desolada torre.

Vinícius de Moraes, Para Viver um Grande Amor

sexta-feira, 23 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

A escolha de... Luísa Fragoso

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

quinta-feira, 22 de março de 2012

a escolha de... Elisa Costa Pinto

LAVOISIER

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 21 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


É bonito, haver um dia dedicado à celebração da poesia. Também a data foi uma escolha feliz, nesta época, metáfora para todos os começos.
Celebremos, pois, o dia.
Vamos fazê-lo, porém, dando ouvidos aos que “são contra os dias”, estes dias (da Criança, da Mulher, da Música, dos Direitos Humanos…), por os acharem sinal de desprezo pelo que comemoram, ou pelo menos de alguma fragilidade do que está a ser comemorado, nos restantes trezentos e tal dias do ano.
A solução impõe-se e só pode ser a de lembrarmos todos os dias este dia, ATÉ DE HOJE A UM ANO, com a publicação de um novo poema, escolhido por alunos, professores, funcionários, pais.

No final, teremos a Primeira Antologia Poética da ESPJAL.
A equipa da Biblioteca / projecto aLer+ tem o privilégio de começar, com

A escolha de … professora Ana Páscoa



Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in Poemas Dispersos

quinta-feira, 1 de março de 2012

NUNO MARKL FALA SOBRE OS CONTOS DE GIN TÓNICO

http://www.youtube.com/watch?v=JwB8_lZ2y94


É só "clicar" neste endereço para se ver/ouvir uma entrevista imperdível a Nuno Markl sobre o genial Mário-Henrique Leiria.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DAVID MARÇAL, O COMEDIANTE CIENTÍFICO

David Marçal, que tinha sido, há já algum tempo, convidado a visitar-nos, conseguiu finalmente estar presente na Biblioteca, diante de uma assistência numerosa, risonha e atenta, para, simultaneamente:

a) recordar-nos o seu percurso, desde o saudoso tempo em que foi aluno nesta escola (à roda de 1995),

b) falar da sua pós-graduação na área de "comunicação do saber científico", de que o brilhante Carl Sagan foi um pioneiro [e se tem revelado a forma certa de conjugar os interesses e conhecimentos científicos de David Marçal e o seu talento para a escrita],

c) referir a importância do sentido de humor na divulgação da ciência: David Marçal trabalhou para o suplemento satírico "Inimigo Público" e é o criador de um delirante projecto de cientistas que se dedicam à Stand-up comedy, o "Cientistas em Pé",

d) apresentar-nos o seu livro, "Darwin aos Tiros", que é um extraordinário exemplo da arte de cativar, falando sobre episódios da História da Ciência de uma forma absolutamente impagável.

E foi precisamente o que sucedeu ao longo da sessão: o exercício de saber e bom humor que consistiu em mostrar-nos o lado mais humano da ciência, trazida até mesmo ao pé de nós, desentalada de um pedestal onde os leigos a vêem, quase sempre, respeitosa e longinquamente.

Como dizia a Paula Fonseca, encantada, o David foi a prova viva de que se pode ser um cientista, um comediante nato e talentoso e um jovem bonito, tudo ao mesmo tempo. (Não é o meu caso, claro, porque não sou cientista...)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PORQUÊ LER OS CLÁSSICOS

- O que veem?
- Uma casa, não sei se é... parece.
_ Por acaso, parece!
_ De que material é feito?
- De óleo.
- E de que época será esta pintura?
- Da época medieval.
- Não, é mais aintiga, eles ainda não sabiam pintar!


Assim, num vivíssimo diálogo a muitas vozes, sem silêncios, mas também sem atropelos, o 8ºD foi comentando as imagens mostradas pela professora Ana Cristina Marques, selecionadas da vastíssima iconografia da figura de D. Quixote de la Mancha.
Começando pelos contemporâneos, os tais que ainda não sabiam pintar - equívoco prontamente esclarecido e ótimo pretexto para dar algumas noções sobre a pintura não figurativa - e recuando até ao século XVIII, diversas representações do cavaleiro, primeiro mantido anónimo, foram sendo vistas e apreciadas pela assistência.
Não tardou a ser identificado, dando a deixa para a fase seguinte da conversa, agora sobre a história e significado da famosa personagem: os professores José António Pacheco e Adélia Simas conduziram a reflexão, acrescentando novos elementos e situando na sua época o grande clássico da literatura universal, de mistura com a leitura de excertos ilustrativos, e a projeção de uma cena do musical com Peter O'Toole, trazido pela professora Suzete Monteiro.
Na última parte, saltou a pergunta, confirmação inequívoca do interesse e envolvimento dos assistentes. A hora era mesmo de questionar, não apenas de escutar:
- Porque é que fizeram um livro sobre um homem que nem sequer era cavaleiro e que não regulava lá muito bem?
Duas das sugestões de resposta:
- Porque se calhar era cómico!
- Com certeza havia uma mensagem - vive os teus sonhos, nem sempre o que nós achamos que é fantasia é mesmo fantasia.

sábado, 14 de janeiro de 2012

VIAGEM AO ORIENTE

As turmas participantes nas sessões com a autora do livro LUIS FRÓIS, UM PORTUGUÊS NO JAPÃO (ver aLer+) foram convidadas a fazer a sua apreciação, que a professora Adélia Simas selecionou e nos fez chegar.


Opiniões do 8ºB

«Eu gostei muito da apresentação…fiquei a saber várias coisas como por exemplo… gostei também da apresentação da colega… fiquei curioso para ler o livro…»
Pedro Ferreira

»Foi importante aprender um pouco mais da história…a escritora era muito simpática…foi muito importante saber como era o Japão
Ylamara

«Eu gostei bastante da apresentação e da autora… achei muito interessante pois é um livro que nos dá mais informação da matéria que estamos a tratar na disciplina de História… foi um bocado muito bem passado»
Mayara

«Eu achei o livro muito interessante porque aprendi novas coisas…no final foi uma colega nossa do 9ºano cá da escola que estuda japonês e ensinou-nos algumas coisas interessantes…eu gostei muito da sessão porque como toda a gente estava interessada estava um bom ambiente»
Gonçalo Graciano

«Eu gostei muito do livro. Obrigada»
Jacira

«A apresentação foi muito bem estruturada e muito clara… toda a gente estava com atenção… Eu achei esta actividade bastante interessante! Eu agradeço muito a vinda dessa autora à nossa escola».
Matilde

«Eu achei esta apresentação muito interessante e produtiva… aprendi algo interessante e novo»
Maria

«Achei que esta apresentação correu muito bem porque fiquei a saber mais sobre a forma como os portugueses encontraram o Japão»
Rita

«Gostei bastante da sessão, acho que foi bastante interessante… o lugar foi fantástico para o que aconteceu, a biblioteca é um espaço espectacular e silencioso portanto deu para estarmos sossegados e bem comportados durante a sessão… foi um dia diferente…»
Tiago

«A caminho da sessão eu esperava que fosse daqueles sessões um pouco cansativas e que passado meia hora já estaria a turma toda a falar mas, pelo contrário, a turma esteve sempre atenta e eu achei a sessão muito importante não só por ser um tema que estamos a dar na disciplina de História… mas também porque fazia querer sempre saber mais…»
Diogo Santos

«Gostei bastante da apresentação… gostei de saber que… Também gostei imenso da intervenção da colega…»
Ricardo

«Eu gostei pois aprendemos coisas novas de uma maneira divertida e acho que correu bem pois na minha opinião a turma esteve atenta e calada»
Cátia

«…O ambiente na biblioteca era silencioso e calmo…Gostei muito daquele bocado de tempo porque aprendi muito e fiquei interessada em ler o livro
Filipa

«… foi uma sessão com interesse e com condições calmas e agradáveis de trabalho»
Pedro Ho

«…Na minha opinião o livro deve ser bastante interessante, porque retrata a época em que Portugal teve mais influência …»
David

«…fiquei a saber muitas coisas com a apresentação… foi interessante sem ser maçadora»
Simão

«Eu com esta apresentação aprendi muita coisa…Gostei muito de ouvir a autora… despertou-me curiosidade… Nunca tinha visto a minha turma tão calada e a participar correctamente e a mostrar tanto interesse… Eu gostei muito e gostava de repetir»
Diogo Gomes

«Para mim a actividade foi interessante, aprendi mais coisas do que estava à espera…»
Beatriz

«Eu acho que foi muito educativo porque para além de termos conhecido um livro novo muito interessante, também aprendemos mais sobre a expansão portuguesa… Com esta apresentação eu fiquei com interesse para ler o livro…»
Mafalda

«Gostei muito de ter assistido porque aprendi coisas novas e acho que correu bem porque também houve participação do nosso lado, fazendo perguntas às quais a escritora Ana Paula Miranda nos respondeu.»
Sofia

«O livro pareceu-me muito interessante e fiquei com curiosidade de o ler … O local escolhido para a apresentação foi a biblioteca, penso que foi bem escolhido porque estava silêncio… acho que devíamos repetir coisas deste género, que nos revelam interesse e nos façam aprender»
«…Gonçalo Uva

«A língua e a cultura japonesa sempre me fascinaram, mas depois desta apresentação a chama ficou mais forte. A apresentação foi muito boa e gostaria de agradecer às pessoas envolvidas, especialmente à autora»
«EuHugo Simão

«Acho que a apresentação correu bem e eu gostei porque o livro era interessante e a forma como a autora o apresentou também foi. Eu gostei da sessão e aprendi algumas coisas, acho que a autora foi simpática em ter vindo até à nossa escola…»
Nuno

«Eu gostei muito da apresentação… achei uma boa ideia a autora vir cá à nossa escola.»
Mariana

«…foi interessante pois enquadrava-se na matéria… o tema era interessante»
Pedro Simão

«Achei que foi interessante e que a autora brincou um bocadinho com a história, o que tornou a sessão mais animada…Despertou-me curiosidade para a língua japonesa…»
Carolina

«Eu gostei da sessão porque deu a conhecer a cultura japonesa… gostei também muito da autora… a sessão teve uma parte muito gira porque foi lá uma aluna que andava a estudar japonês… Com esta apresentação fiquei cativado para ler o livro porque os portugueses no Japão é um tema muito interessante.»
Gustavo

«…gostei muito, aprendi bastantes coisas que não sabia e foi uma aula diferente, também tive a oportunidade de conhecer a autora que é muito simpática e a possibilidade de uma colega do 9º ano falar um pouco da língua japonesa. O livro parece ser bastante interessante e fiquei com vontade de o ler…»
Pedro Alves

Opiniões do 8ºD

«Gostei bastante da apresentação da autora … vou certamente à biblioteca para requesitar o livro.»
Matyas

«A autora explicou bem as diferenças entre portugueses e japoneses, o que foi bstante interessante… A ida à biblioteca, para ouvir falar do livro, para mim foi interessante e correu bem.»
Catarina

«Eu gostei desta sessão porque pensei que iria ser um bocado aborrecida, mas depois a autora do livro era muito simpática e explicava muito bem as coisas… gostei também quando apareceu aquela miúda a falar japonês… fiquei muito surpreendida e gostei muito.»
Ivo

«Eu gostei do livro porque explica a importância dos descobrimentos…»
Valentyn

«Foi uma ótima apresentação…Foi clara, resumida, interessante e uma forma diferente de aprender. Despertou em mim não só a curiosidade de ler o livro, como também a vontade de aprofundar um pouco sobre os costumes do Japão… Gostei bastante da apresentação… todos colaboraram e participaram… No fim conclui que por vezes o que parece chato ou mau não é.»
Miguel

«A autora deste livro apresentou a ‘magia´ que o livro continha …Eu gostei imenso mas por agora não o posso ler pois tenho um para terminar.»
Mariana

«…foi impressionante o que a autora tinha para contar… eu gostei muito da apresentação e a biblioteca da escola foi o sítio ideal para o fazer… Depois da apresentação do livro surgiu-me o interesse de começar a leitura da PEREGRINAÇÃO de Fernão Mendes Pinto»
Manuel

«Gostei não só da apresentação como do local onde foi realizado, a biblioteca acho que é o sítio ideal para estar em convívio com o autor e os livros.»
Alexandra

«Eu achei a sessão agradável, tivemos um bom comportamento. Fizeram algumas perguntas e falaram de coisas importantes…»
Rodrigo

«Foi uma boa apresentação em que as dúvidas ficaram esclarecidas…A autora fez uma ótima apresentação… a turma conseguiu participar correctamente.»
Inês Marques

«A autora ao estar a dizer que os japoneses levam muito a sério e com agrado a nossa visita ao Japão, eu senti-me orgulhoso e curioso de conhecer um japonês… Eu gostei muito da apresentação.»
Pedro Diogo

«Acho que escolheram bem o sítio para a apresentação, numa sala qualquer não ía ter o mesmo interesse porque a biblioteca dá uma certa magia e é muito melhor… acho que vou ler o livro porque posso ficar a saber muitas outras coisas e também porque fiquei muito curiosa para saber o resto da história…»
Natharry

«Gostei muito da apresentação em si, a turma teve um comportamento exemplar e a autora criou um ambiente fantástico, revelando factos muito interessantes…Também apreciei e agradeço à nossa colega que teve a amabilidade de nos dizer umas palavras em japonês.»
Carolina Barrosa

«Eu gostei da visita à biblioteca, acho que foi agradável e que foi interessante para aumentar os nossos conhecimentos… Gostei muito e gostaria de repetir.»
Inês Correia

«Achei a sessão interessante e elucidativa. Muitas curiosidades engraçadas e palavras japonesas muito parecidas com as portuguesa… Foi muito giro… Não arranjei ainda o livro porque estou a ler outro, mas quando acabar vou ter o prazer de o ler…»
Laura

«Eu gostei bastante da apresentação… Foi divertida e bastante interessante… Acho que se deve continuar a apresentar livros na biblioteca pois é um espaço dedicado à leitura.. Gostei muito daquela pequena explicação sobre a língua japonesa feita pela aluna do 9º ano…»
João Pedro

« ...eu gostei muito da forma como a autora apresentou o seu livro com uma linguagem concisa que deu para perceber muito bem…»
Gelson

«Eu achei a sessão… muito interessante e a apresentação muito agradável. Nunca tinha estado ao pé de uma autora de um livro e gostei muito… é um livro cativante…Achei muito interessante… Acho também que aprendemos muito…»
Joana

«…A autora deu-nos a conhecer o livro e contextualizou a matéria do livro. A sessão correu muito bem para os dois lados, a escritora falou muito bem, mostrando confiança e interesse… o 8ºD portou-se muito bem, participou exemplarmente e deu uma boa imagem da escola. Eu achei enriquecedora a sessão…»
Rafael

«Fiquei muito interessada no livro, perguntei a uma das professoras que lá estava se havia aquele livro disponível na biblioteca da escola e ela disse que sim, mas como já tenho um livro requisitado, tenho primeiro de o acabar.. A apresentação foi também uma aula, muito interessante. O livro parece ser bom, estou entusiasmada para o ler.»
Ana Karla

«A sessão foi muito boa porque todos se portaram bem…»
Daniel

«…a apresentação do livro ajudou-nos a perceber ainda melhor a matéria…Eu gostava de ter mais tempo em casa para poder ler o livro, antes eu ía para a cama e como não tinha sono lia, mas agora já chego à cama e adormeço logo, tenho pena de não ler o livro porque parece ser um excelente livro… Eu gostei bastante da apresentação.»
Tiago Nery

«O início foi muito bom porque quando entrámos na biblioteca estava um ambiente estranho, com música oriental… Era um livro muito interessante porque falava dos primeiros portugueses a ir ao Japão… Gostei muito desta sessão. Podíamos ter mais aulas de história assim!»
Pedro Gonçalves

«Eu gostei do livro e acho que vou requisitá-lo à biblioteca porque me suscitou um bocadinho de curiosidade.»
Ede

«Para ser sincero antes de entrar na sessão não estava nada contente mas depois com o decorrer da mesma fiquei interessado. Aprendi… Eu gostei da sessão e do conteúdo que aprendi…»
Ricardo

«…Acho que foi uma apresentação muito boa…Fiquei com interesse de ler o livro e perceber mais sobre a viagem ao Japão.»
Gonçalo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

OLÁ, ESTÁ AÍ ALGUÉM?

Vale muito a pena repetir as experiências que resultam bem, até porque nunca são verdadeiras repetições: o Sol está mais brilhante nesse dia, o teste da aula anterior não correu lá muito bem, aquela passagem do livro é particularmente interessante, os leitores estavam mais ou menos inspirados… É sempre diferente.
Falo das leituras em voz alta, desta vez do livro OLÁ, ESTÁ AÍ ALGUÉM, realizadas por várias turmas do 8º ano, ao longo de Outubro e Novembro, e mais uma vez contando com a colaboração de professores de diversas disciplinas: Português, Francês, Matemática, Biologia, TIC, @rte. com, Francês, Fisico-Químicas…
O autor de O MUNDO DE SOFIA, o norueguês Jostein Gaarder, professor de Filosofia com vasta experiência na literatura juvenil, conta neste romance o encontro entre uma criança de oito anos e um extra-terrestre. Situação privilegiada, como se imagina, para virar do avesso as ideias feitas e poder explorar os mais diversos temas, dos quais a evolução não podia deixar de fazer parte.
Os alunos do 8º C, a pedido da professora Céu Ribeiro, enviaram-nos as suas opiniões, sobre estas horas passadas na Biblioteca.
Aqui ficam, com os nossos agradecimentos, e a garantia de que vamos continuar!


Opinião ...

“...o texto foi feito de forma muito inteligente.... Foi baseado num sonho, numa parte da realidade e talvez numa amizade algo forte...
Tinha frases, declarações e questões muito sábias, curiosas e que principalmente nos fazem pensar. Por outro lado, o autor do livro teve realmente muita imaginação.
De facto, o livro era algo que não esperava
.”
Inês Freitas

“...gostei muito do livro, porque nos leva a refletir sobre assuntos que não é normal serem questionados. É importante fazermos perguntas e não considerar aquilo que sabemos como sendo a única verdade ou resposta.
Devemos usar sempre a nossa imaginação, mesmo quando adultos.
"
Clara Godinho

É interessante porque faz-nos pensar em coisas nas quais, se não tivéssemos lido, nunca pensaríamos. Do que gostei mais foi quando o Joaquim percebeu que o Mika lia os seus pensamentos.”
José Simões

Adorei o livro porque há partes muito engraçadas, como quando o Joaquim foi tirar uma foto ao Mika e o Mika não tinha umbigo. Ahah!"
Guilherme Castro

Acho um livro interessante e apropriado para a nossa idade. Foi bastante fácil de ler. Uma pessoa ficava, ao ler o livro, bastante curiosa para ver o que vinha a seguir.
Miguel Sousa

Eu gostei muito das sessões na biblioteca. É bom variar de vez em quando. Não é costume meu ler, mas gostei do livro. A história é muito interessante e criativa. Também, por outro lado, achei útil, pois aprendi a interpretar as coisas de várias maneiras.
Muitas pessoas dizem que a filosofia é “chata” e aborrecida mas, com estas sessões fiquei com a ideia que não é assim tão aborrecida e pode ser muito útil
.”
Pedro Valente

Este livro baseia-se numa história de dois jovens que, por vezes, parecem muito diferentes. O Mika e o JoaKim, no desenrolar da história, provam que podemos ser diferentes por fora mas que, por dentro, somos todos iguais. Uma história bastante interessante e educativa.Gostei muito da actividade na biblioteca, foi bastante divertido ler este livro com os meus colegas. Gostaria de repetir.”
Mallu Novaes

Este livro é muito engraçado porque vemos que duas pessoas muito diferentes podem ser muito iguais.Mika e o Joakim provam que, às vezes, o que interessa é mesmo o interior.A atividade que fizemos na Biblioteca foi muito interessante – foi muito educativa e aprendemos muito.”
Raquel Brites

Gostei da atividade e do livro. Estava escrito de forma notável. Foi com arrebatamento que li o livro. Enchi o peito de ar e fiz esta crítica de que me orgulho.Havia frases muito bem escritas e, se eu as pusesse aqui, não saía daqui nem amanhã.”
Bernardo Almeida

Desde já gostaria de agradecer à pessoa que esteve connosco na biblioteca e é responsável por estas sessões pois apresentou-nos um livro fantástico. Aliás, é mais que um livro, para mim é um dicionário de ensinamentos.
Se, neste preciso momento, em que escrevo esta análise, crítica ou como lhe quiserem chamar, me perguntassem qual é o título do livro, não vos sabia responder pois não o fixei, apenas fixei as palavras das personagens deste livro que, no fundo, se formos a pensar bem, são palavras filosóficas.
Pode parecer estranho como um miúdo de 8 anos (Joakim) e um ser vindo de outro planeta (Mika), podem fazer com que este livro possa estar cheio de ensinamentos. Digo isto porque, sem eles, este livro não ganhava magia, uma magia muito especial, que nos leva, a nós, também, para dentro do livro. É impressionante como Joakim e Mika são tão parecidos e tão diferentes.
Por isso, a quem estiver a ler este texto, recomendo-vos este livro de cujo título não me recordo. Mas, se um ser verde com uma grande cabeça, um ser não muito diferente de nós, vos tocar à porta e vos diga que é um mumbo, que veio de um planeta chamado chamado Eljo, que nasceu de um ovo e que precise de acolhimento, não hesitem, fiquem com ele e …ah, perguntem-lhe o título deste livro que eu adorei ler.”

João Fonseca

Eu gostei desta experiência na biblioteca porque foi a primeira vez que fiz uma coisa destas. A história é muito interessante e fazia uma pessoa reflectir sobre aquilo que estava escrito. Também era interessante porque é muito difícil encontrar um menino de 8 anos a saber tanta coisa….
Tomás Silva

Eu achei o texto muito divertido. O livro ensina muitas coisas como o início da vida que começou com animais aquáticos e põe uma questão muito importante: Será que existem seres vivos em outros planetas? Eu acho que é possível existirem seres como Mika, tirando aquele poder de ler pensamentos
André Borges

Eu gostei muito de ir à biblioteca ler o livro, que é muito giro . Fala de uma história com muita imaginação e muita realidade. Lia-o outra vez.
Alexandre Lourenço

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ANIVERSÁRIO

Carta para Josefa minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o Sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do Mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietnam é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas? ...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este Mundo e não curaste de saber o que é o Mundo. Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inaces¬sível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in Deste Mundo e do Outro, ed. Caminho
(1ª publicação, jornal “A Capital”, 1968)



José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922.
A “Carta” é uma das muitas e muitas páginas extraordinárias que nos deixou.

domingo, 22 de maio de 2011

ALICE VIEIRA


Muito aguardada, esta visita, mais exactamente desde o ano lectivo passado. Queríamos muito rever Alice Vieira, e comemorar com ela o trigésimo aniversário da sua vida literária e o trigésimo aniversário da nossa Escola.
Foi finalmente possível e a autora de Rosa, minha irmã Rosa foi recebida por alunos das seis turmas do oitavo ano, os muitos que aceitaram a sugestão das professoras de Português, de ler romances da autora e sobre eles escreverem as suas impressões de leitura.
Após as muito sinceras felicitações e agradecimentos à escritora, pelos admiráveis textos que nos tem oferecido, a palavra foi dada a três leitoras. Curiosamente, enquanto a Inês falou sobre o primeiro romance, a Mafalda escolheu a poesia, que muito recentemente veio desvendar uma grande poeta, faceta ainda por muitos desconhecida, da autora que tem dedicado a sua escrita sobretudo ao público juvenil.
Começou então Alice, e o seu poder de comunicação, a voz cheia e calorosa, a extraordinária vivacidade e sentido de humor, cativaram o público até ao final. Na última visita a escolas que realiza este ano (coincidentemente, também é a nossa última convidada), recordou com inesperada nitidez e um agrado que muito nos envaideceu o Projecto que pela primeira vez ocasionou o nosso encontro, já há cerca de vinte anos: o Concurso "Entrer dans la Légende", que proporcionou aos alunos de uma turma do 11º ano, e respectivas professoras de Português e de Francês, Vera Batista e Fátima Magriço (presente na sessão e companheira de mesa), escolher um mito nacional, o de D. Sebastião, escrever sobre ele com Alice Vieira, traduzi-lo, dramatizá-lo, representá-lo em Paris e vê-lo publicado em edição bilingue. Bem bom!
Falou em seguida da sua escrita, do importantíssimo lugar que o jornalismo ocupa na sua vida profissional e no que contribui, em rigor, em observação da realidade, na atenção ao outro, para a actividade literária. Contou episódios da sua vida de escitora, falou de amigos, leu textos deles - Ruy Belo, Tolentino Mendonça, Mário Henrique Leiria... - homenageou-os. Respondeu a todas as perguntas, autografou todos os livros e folhinhas de papel estendidos por muitas mãos.
Que melhor forma de agradecer do que recomendar os seus livros?
O que dói às aves e Dois corpos tombando na água são os livros de poesia que os mais velhos NÃO PODEM PERDER!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ANTÓNIO VASCONCELOS RAPOSO - A GUERRA É A GUERRA

Até ao Fim - a Última Operação, de António Vasconcelos Raposo, é um livro de guerra, classificação para a qual a capa nos reenvia, sem equívocos. O contexto é, de facto, a guerra colonial, Angola, 1974, e os protagonistas, um destacamento de Fuzileiros Especiais a quem é confiada a difícil missão de recuperar um grupo de militares (digamos assim, para não revelar tudo...) feitos prisioneiros pelos guerrilheiros independentistas. A acção desenvolve-se, pois, em torno desta operação, que se constitui como foco de toda a narrativa. Ora, é precisamente a escolha deste episódio exemplar e não a opção tentadora da acumulação de memórias diversas e dispersas que dá unidade a este romance autobiográfico e lhe confere um sentido que ultrapassa a circunstância histórica que reúne aqueles homens naquele lugar.
É verdade que sabemos, desde as primeiras linhas, estar perante uma história vivida e mais tarde recontada pela voz da memória - uma memória tatuada, para sempre, como nos adverte a introdução. É verdade que a natureza da matéria narrada, o tempo e o lugar encaixam perfeitamente numa memória colectiva circunstancial recente, atestada pelas fotografias intercaladas no texto. Mas é também verdade que o que move aquele grupo de homens é um conjunto de sentimentos e valores intemporais e intrínsecos à condição humana: a coragem (e o medo), a lealdade, a amizade, o sentido de pertença, a dignidade, o respeito pelo outro.
Não me é fácil entender completamente o espírito bélico que, apesar da reconhecida injustiça daquela guerra, ecoa em muitas das páginas. Mas é muito fácil compreender que quem viveu uma experiência limite como esta a tenha vivido assim. E a recorde assim. Nesta guerra de império em estertor, afinal havia muitos homens extraordinários que mereciam estar noutro tempo e noutro lugar. As "malhas que o império tece" (teceu) fê-los estar ali, e foi ali que revelaram a sua vulnerabilidade, mas também a sua grandeza.

Este é um livro de guerra, dizia nas primeiras linhas. Agora estou quase a dizer que é também um livro sobre o treino. Na verdade, reconheço, no narrador desta memória intensa, a voz do treinador de outros livros assinados pelo mesmo autor. O espírito é o mesmo, os valores são os mesmos. E embora este seja um romance, reconheço nele também a voz grave, de leve sotaque açoriano de um professor desta Escola, que todos aprendemos a admirar. A voz de um amigo. O António Vasconcelos que em Angola treinou a coragem, a amizade, o respeito pela vida.

Este é, finalmente, um livro de libertação. Do peso do passado, da persistência da memória, da voz silenciada na mata, longe de casa. Um livro com a marca da urgência muito tempo contida. Porque a guerra é a guerra.

sábado, 14 de maio de 2011

JOAQUIM VIEIRA NA ESCOLA. AINDA

Já foi há uns dias, mas não posso deixar de assinalar este ponto alto da vida da Biblioteca da nossa Escola. Joaquim Vieira aceitou vir falar connosco e, como disse muito bem a Paula na apresentação que dele fez, pretextos não faltariam, tão vasto tem sido o campo de trabalho e investigação deste grande jornalista, escritor e historiador. Acabámos por escolher a semana da comemoração do 25 de Abril e, por isso, numa sessão a que deu o título de "Portugal: da ditadura à democracia", ele escolheu precisamente caracterizar, em linhas gerais, objectivas e certeiras, o Estado Novo e a eclosão do 25 de Abril, com recurso a um suporte de imagens projectadas muito bem escolhidas.

Foi uma extraordinária aula de História, mas não foi uma aula qualquer. Na verdade, todos os participantes ficaram presos pelo poder de comunicação deste profissional da comunicação. Os olhos não se desviavam. Os ouvidos não se dispersavam. Como professora, lembrei-me que não seria mal pensado aprendermos um pouco com os jornalistas (os jornalistas a sério, claro! Como Joaquim Vieira!)

Lembrei-me, entretanto, de uma curiosidade engraçada, acontecida há uns anos, quando na Escola comemorávamos um outro aniversário do 25 de Abril. A procurar uns papéis para a exposição da Biblioteca, encontrei, dentro de um velho caderno da Faculdade, uma folha policopiada, em stencil, como se usava nos anos 70. Era um comunicado das Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa a denunciar a prisão, pela PIDE, de um colega do Técnico - Joaquim Vieira. Com foto e tudo. Entreguei a folha amarelecida à irmã, a nossa colega Ana Vieira.

Agora, já que este é o blogue da Biblioteca, falemos de livros. Aconselho 2 títuloaos de Joaquim Vieira. Poderiam ser outros quaisquer, mas apetece mesmo sugerir estes: a biografia do fotógrafo Joshua Benoliel (com as suas fantásticas fotos que nos fazem revisitar momentos únicos da história de Lisboa e do país) e o romance (se quisermos) A Governanta (é mesmo a D. Maria do Salazar). Não percam.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O PRINCIPEZINHO


Se é indiscutível que de costume se prefere o silêncio e o estar sozinho para companheiros da leitura, não deixa de ser verdade que está a voltar , e a alastrar cada vez mais, o gosto pela leitura partilhada, feita em voz alta.
Numa experiência até agora inédita na Escola, e só possível graças à pronta disponibilidade dos professores das turmas 7ºB, D e F, assim fizemos com O Principezinho , que lemos quase de um fôlego: apresentada a proposta de que, em dias sucessivos, cada disciplina dedicasse uma aula às páginas intemporais do livro de Saint-Éxupery, ela foi acolhida com o agrado que é já promessa de sucesso.
Diferentes vozes, timbres, intensidades e entoações, com intervalos abertos para o comentário, a discussão, o significado das palavras.
Alguns alunos já tinham lido O Principezinho, no 2º ciclo, outros só conheciam o "diálogo da raposa", outros tinham visto representado, a maioria só conhecia a imagem do menino de cabelos loiros e cachecol esvoaçantes. A conclusão foi comum: esta foi uma leitura diferente, com muito mais janelas abertas.
Afinal, como todos os grandes livros, O Principezinho reserva muitos segredos e, quanto mais e mais experientes os olhos, maior será a probabilidade de os descobrir.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

joaquim vieira

a propósito da celebração do vinte e cinco de abril, o dia da liberdade e da revolta para todos os portugueses que se considerem como tal, a escola recebeu a visita do jornalista joaquim vieira, mais conhecido pela sua produção de documentários para a televisão, escrita de autobiografias e fotobiografias, e obras documentais em geral. joaquim vieira apresentou-nos um powerpoint que retratava a vida durante o estado novo e as mudanças que a revolução trouxe. descreveu-nos a história geral do regime fascista e assassino, mas focou-se também no período de setenta e quatro, setenta e seis, após a revolução dos cravos, em que as forças de esquerda quase conseguiram formar um regime justo, igualitário e fraterno. em vez disso, sobrou-nos a democracia que temos hoje. e, no fundo, foi esse o objectivo de joaquim vieira, o de nos mostrar como, só compreendendo o passado, podemos compreender o presente, e, assim, mudar o futuro. numa altura em que mudar é mais importante do que qualquer outra coisa, as suas lições, entre aspas, da nossa história nacional tornaram-se muito pertinentes. talvez o seu discurso pudesse ter focado assuntos menos conhecidos do nosso passado, em vez de sublinhar outra vez o que vem nos manuais de história, mas o tempo escasseava e o certo é que joaquim vieira conseguiu prender a atenção de todos. assim sendo, julgo que ninguém saiu a perder.

domingo, 1 de maio de 2011

NA CASA DE ANNE FRANK

Em sessões na Biblioteca que se distribuíram por várias semanas, as turmas do oitavo ano dedicaram uma aula de Português, acompanhadas pelas professoras Ana Borba e Paula Varela, à visita virtual à casa de Anne Frank, complementada com leituras de páginas do Diário.
Transcrevemos alguns dos comentários escritos a propósito.


É triste saber que uma rapariga tão corajosa, que consegue superar os seus medos das maneiras mais divertidas, como Anne Frank, morreu apenas duas semanas antes de os judeus serem libertados. Achei a visita virtual muito interessante, pois mostrou como Anne Frank vivia e também conseguimos através das pequenas histórias descobrir um pouco mais da sua personalidade.
Ana Sofia Pendão 8ºE

Achei a visita virtual à casa museu de Anne Frank muito interessante, pois ficámos a ter um pouco mais cultura geral.
Achei muito interessante o anexo, nunca pensei que tivesse tanto espaço, quando me falaram pensei que fosse coisa mais pequena. Gostei e espero repetir coisas deste género.

Miriam Leal 8º C

Do que eu gostei mais foi quando a Anne Frank recebeu o livro, que mais tarde se tornou o seu bem mais precioso. Ela não deu importância a um simples livro, primeiro achava que ninguém se ia importar. No entanto, foram feitas milhares de cópias em centenas de línguas.
Daniel Santos 8º E

Do que eu gostei mais foi de ter lido os excertos do Diário, pois eu sempre gostei do livro de Anne Frank, porque é uma história verídica de uma altura da guerra, o que o torna muito interessante.
Joana Leite 8ºE

Eu achei a visita interessante e despertou-me alguma curiosidade. É pena não estar em português, mas acho que vale a pena visitar virtualmente a casa museu de Anne Frank. As minhas partes favoritas foram a descrição da Anne Frank do anexo secreto, dos sapatos vermelhos e achei muito engraçado quando disseram que ela subia e descia as escadas a correr para fazer barulho pois tinha medo do som das bombas e dos ataques.
Bárbara Ribeiro, 8ºE

Eu gostei muito de ver a casa museu de Anne Frank, mesmo que tenha sido virtualmente. Claro que gostava mais de ir à Holanda, mas acho que este site é muito interessante, para as pessoas que não podem lá ir conhecerem o tão famoso anexo secreto onde Anne Frank e a sua família viveram durante alguns anos, escondidos de tudo e de todos.
Beatriz Lory, 8ºE

Eu gostei muito da casa em 3D, das imagens reais e imagens que representavam algumas partes da casa de Anne Frank , a empresa do pai e o anexo. Também gostei da reconstituição da época da 2º Guerra Mundial, a partir de imagens e documentários.
David Coelho, 8º C

Do que gostei mais foi de ver o anexo. Gostei do facto de não se saber daquela parte da casa, e de eles lá viverem secretamente. A casa parecia um labirinto, cheia de cantos e recantos.
Inês Telo, 8º C

Consegui compreender um pouco mais sobre as privações e o medo que os judeus sentiam.
Daniel Alves Costa, 8º E

Eu não tinha lido o livro e com esta actividade consegui perceber tudo por que Anne passou, a intensidade com que o viveu, todos os momentos horríveis, sobretudo a força que teve para enfrentar, com a sua tenra idade. Tudo o que aprendi com esta actividade deu-me uma enorme vontade de ler o seu Diário.
Inês Rodrigues, 8ºA

A história da vida de Anne foi muito emocionante, com um final triste. Gostei particularmente de ver o seu “cantinho”, onde ela gostava de estar, através da janela do sótão ela observava o seu amigo castanheiro, o amigo que lhe fazia companhia.
Carolina Merca, 8ºA

É incrível como cabem tantos quartos numa zona tão à vista e em que ninguém repara. Também gostei da parte em que, praticamente, revivemos os ataques às ruas de Amesterdão, e que por pouco não atingiram o anexo onde estavam nove pessoas. É como se estivéssemos a viver aqueles momentos.
Francisca Azevedo, 8 ºA

Imaginar viver ali é horrível, porque tinham que estar escondidos e calados o tempo todo e assim não se vive. No entanto, Anne Frank e os outros viveram assim, no anexo, e ver o espaço onde estiveram bastante tempo, de certo modo, liga-nos a essas pessoas.
Eduarda Santos , 8ºA

Mostrou-nos a verdadeira e dura realidade. Deve ter sido principalmente difícil para as crianças que tinham de ficar caladas e sossegadas durante o dia e o que me espantou mais foi que uma rapariga como Anne Frank conseguiu ter a calma e a maturidade para lidar com esta situação, escrevendo no seu diário.
Mafalda Granado 8º A

Achei a visita à casa-museu de Anne Frank bastante interessante. Até porque gosto imenso de ler, e o Diário de Anne Frank foi um dos livros que li nas férias do Natal. Como passou pouco tempo de o ter lido, foi engraçado comparar o aspecto físico que eu imaginei com o que elas tinham realmente.
Rita Marques 8º E

Aprendi muito sobre Anne Frank nesta visita, gostei do anexo que era acolhedor. Otto Frank foi quem mais adorei, pois tinha um carácter calmo e gostava de um escritor, Charles Dickens, de que eu também gosto. Tenho pena que tenham sido descobertos quase no final da guerra .
André Rua 8ºA

Já tinha lido o livro e visitar a casa museu de Anne Frank entusiasmou-me bastante.
Adorei ver o quarto dela, um sítio pequeno, que partilhava com a sua irmã e que mais tarde veio a partilhar com outra pessoa .
Aconselho todos os meus amigos e colegas a fazerem a visita .

Ana Beatriz 8º A

Eu gostei da visita virtual à casa museu de Anne Frank, pois nunca tinha visto nem visitado. Gostei particularmente do sótão onde Anne pensava e reflectia sobre o que estava acontecer.
Também gostei da parte em que fala dos bombardeamentos nazis, pois enriquece a nossa cultura Geral.
Nuno Galhofo 8º A

Eu gostei, acho que foi interessante sabermos mais sobre a vida de Anne Frank , da família e
de todos aqueles que contactaram com ela. A parte de que mais gostei foi da visita guiada por dentro da casa e saber o que cada um gostava ou fazia para passar o tempo.

Aléxia Marques 8º A

Nesta visita aprendi muito sobre a vida de Anne Frank “conheci” a família , o anexo secreto, a casa toda e vi o que eles passavam e como tiveram de viver . Aprendi que Anne Frank era uma rapariga simples e descomplicada , “conheci” as outras pessoas que também estavam com ela no anexo como eles se davam com zangas e chatices. Gostei muito desta visita virtual.
E para ser sincera depois de tudo isto, deu-me vontade de continuar o livro que alguns tempos tinha interrompido.

Leonor Galvão 8ºA

Gostei muito da casa virtual de Anne Frank, pois pudemos ver o que se passava ou sofria no anexo, apesar de ser um anexo tem bom aspecto e boa higiene, tal como uma casa. Gostei mais de ver o quarto dela porque ela lhe deu magia ao pôr aqueles posters. Apesar de ter tido medo, sustos, de ter sofrido, ela ainda conseguiu escrever um diário para nós leitores sabermos o que lhe aconteceu nos anos em que viveu no anexo.
Ana Rita Cruz 8º A

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A URGÊNCIA DE CELEBRAR. COM SOPHIA


25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ANTÍGONA NA BIBLIOTECA

Antígona é um texto muito especial.
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.

Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Uma leitura e nada mais....

Já passou mais de um mês sobre o lançamento do livro Nada Mais e Ciúme, de Gil Duarte. Prometi ao editor e ao autor lê-lo, e escrever trezentas e trinta e oito palavras, tantas quantas as páginas do romance. Empolguei-me e são mais de quinhentas. Bom sinal este.
Perseguindo uma estratégia narrativa proustiana, cujo fulcro é a evocação alimentada pela memória de um narrador fortemente comprometido com situações testemunhadas e experienciadas, manifestando uma espécie de ethos e eros irónico-trágicos, sem faca e alguidar, acerca das relações pessoais e familiares, eis um dos eixos de narratividade de Nada Mais e o Ciúme.
O triângulo de relações estabelecido pelas personagens Bernardo, Dulce, Virgílio, fechado num círculo, que é a vida do narrador, é ensombrado pela tragicidade. Um triângulo dessa natureza, em Camilo, Eça, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, resolvia-se a tiros de bacamarte, com uma apoplexia, um corpo a boiar numa lagoa… anulando um dos lados do triângulo. Não enveredando por aí, o narrador sabe que o tempo tudo diluirá. Gil Duarte deixa que tudo apodreça por si como se o tempo fosse uma das personagens principais que silenciosamente atravessa o texto, a escrita. Uma espécie de tudo e nada mais donde sobressai o ciúme, outra centralidade do romance, sintetizado na frase final de Pedro (o narrador), proferida numa solidão cortante: “Tenho-lhe ciúmes. Saudades, não.”
Do ponto de vista do narrador, o que sobra do tempo de convivência, de partilha e cumplicidade é, apenas, o ciúme. Com efeito, este é resultado de relações próximas e de conflitualidade entre personagens que são e deixam de ser; são quase perfeitas, bafejadas pelo êxito, presenteadas pelo trágico e insólitos inesperados. Veja-se o caso do professor de matemática que ora se empolga ora desiste perante o desafio de saber, melhor, negar o movimento, como se, para descobrirmos se o movimento existe ou não, fosse necessário enfrentar um comboio, quando apenas um Toyota, num parque de estacionamento retira a vida a Leonor. Como se o ciúme fosse demonstrável e deduzido matematicamente, materializado numa fórmula brilhante, demonstração, afinal, do matemático que era: "tudo acaba menos o ciúme: o ciúme é a única coisa que resta quando já nada mais há” (p. 121). Este cepticismo lúcido e um racionalismo académico caracterizam Bernardo! Todavia, o ciúme é uma cristalização que resiste ao tempo. Esta formulação dá o título ao romance. É o resto de adições, subtracções, divisões... Gil Duarte apenas altera a ordem dos elementos da frase, estabelecendo um quase-silogismo. Certamente que o nada mais é "o tudo" que já não se tem, que já passou, que já não se suporta, as relações quebradas, mas sempre na perspectiva de se reatarem: Bernardo – Dulce – Virgílio - o próprio Pedro; Dulce e outras experiências dulcíssimas às quais Dulce não resiste porque ela, sim, é livre, não revela memória, vive o tempo, (a)parece sempre feliz. Infeliz, não. Por isso não cultiva o ciúme. A sua memória é linear, a dos outros é circular.
Enfim, o ciúme apresenta-se como mínimo denominador comum, quando já mais nada subsiste, sentimento ambivalente que promove e corrói.
A narrativa encanta pelo modo como o ethos (os costumes, os vários caracteres, entenda-se) e o eros convivem numa lógica de cio, mãe do ciúme, em qualquer sentido da sexualidade. Por vezes inveja, pelo menos da parte do narrador, também escritor como Virgílio. Mas quem não terá ciúmes de um Virgílio?
Em síntese: o ciúme perdurará enquanto houver memória e desejo.
Findando. Desde o início, com a apresentação da brutal e insólita cena da morte de Leonor, outra ausente sempre presente, elemento pro-diegético por excelência, ou uma parte do todo que é o nada mais, até ao epílogo, somos envolvidos pela narratividade a vários tempos, vozes e ritmos que evidenciam uma técnica já apurada e consolidada.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cronivite

Nada melhor do que abrir a caixa do correio e ter um convite ou desafio.
Neste caso implica teclar algumas letras, palavras frases - teia infindável de sentimentos e sabores - que após um clique entram no convívio dos sentidos. Isto está muito metafísico! Nada melhor do que olhar, escutar... deixem-se de metafísicas que distrai. E numa altura destas andar distraído é perigoso por dois motivos: o primeiro, é que a distração em si é censurável, andas na Lua pá? Olha o candeeiro, o parquímetro, o fiscal do parquímetro, que é pior! O outro, é que um ser humano distraído não é deste mundo: deixa de apreciar o belo destes dias quase primaveris, quer eles quer elas. E mesmo atento, atento mesmo, mesmo, mesmo, olhai, atento que nem um penedo, uma antena, não impedes que te vão ao bolso descaradamente. Quanto mais distraído, mais subtraído!
Sinceramente! Não gosto de moralistas mas, para contrariar, deixo um conselho. Vivamos a vida, erguei taças às vossas crenças, amigos, esqueçamo-nos disto!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

NADA MAIS E O CIÚME

Do livro, direi que vale mesmo muito a pena ler (e ver, que é bem bonito!), que surpreende, pela singularidade do olhar sobre as personagens, pelas situações criadas, que prende pela construção da narrativa e, claro, pela escrita.
Direi também o que na sessão de apresentação -bem documentada em lugares diversos como ESTE e ESTE e ainda ESTE - no alvoroço do atraso, não encontrei oportunidade de dizer: que foi bom, aquele ambiente de festa e de amizade, que a escolha da Biblioteca, a cuja equipa o autor pertence e espaço de tantos encontros com a sua marca pessoalíssima, me deu enorme contentamento. Mais uma memória guardada por todos, com particular carinho!
Também queria ter dito que felicito sinceramente o Zé António, pela criatividade, pela coragem, que desejo muitos leitores ao seu livro. Que desejo outros livros ao autor.


P.S. - Ainda há alguns exemplares, na Biblioteca

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

SOBRE O ERRO











Foi fascinante!
Na sua primeira visita à nossa Biblioteca, (há dois anos, já?), Gonçalo M. Tavares conduziu uma conferência invulgar, como tudo o que faz..., onde a escrita, a aceitação e a contestação, o certo e o errado, a imaginação e o real, tudo foi interrogado, virado do avesso, segundo uma lógica desconcertante.

Desta vez, os felizardos participantes foram um grupo que não pôde ser muito alargado, formado por alunos de várias turmas do Secundário, e alguns professores. Foram eles participantes numa Oficina que teve como ponto de partida aquele que habitualmente não se considera o começo ideal, mas que ficou demonstrado ser exactamente uma das melhores formas de desencadear a criatividade. O erro.

Desenhem uma casa errada, pediu. Logo em seguida, saltou à vista que os erros menos aplaudidos são os mais banais. Curioso.
Inventem agora uma personagem para habitar essa casa, continuou, que seja criada por esse espaço.

Assim, etapa atrás de etapa, cada uma mais inesperada que a outra, e ao mesmo tempo tão simples, a dizer "isto esteve sempre lá... não me digam que ainda não tinham visto?...", foram crescendo as histórias.

Como quem prepara uma viagem, com metade do gozo que ela lhe vai dar a realizar, tínhamos andado divertidíssimos a pedir aos leitores de Gonçalo M. Tavares que escolhessem uma estrofe, de Uma Viagem à Índia, e nela inscrevessem a sua marca pessoal, um sublinhado, uma nota, um rabisco. Claro que todos aceitaram, e claro que todos se queixaram da dificuldade da escolha! Ampliadas, essas páginas (poucas) formaram um percurso, desde a entrada da Escola até à Biblioteca. Uma forma de agradecer ao escritor, devolvendo-lhe, lidos, alguns dos seus escritos.

Agradecemos muito, muito, a Gonçalo M. Tavares.

E à Didi, que no-lo apresentou e o trouxe até nós, literalmente. E ao Zé António, o nosso Mercúrio. E à João, pelas notas artísticas que sempre acrescenta. E a todos os participantes.