quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ANIVERSÁRIO

Carta para Josefa minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o Sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do Mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietnam é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas? ...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este Mundo e não curaste de saber o que é o Mundo. Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inaces¬sível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in Deste Mundo e do Outro, ed. Caminho
(1ª publicação, jornal “A Capital”, 1968)



José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922.
A “Carta” é uma das muitas e muitas páginas extraordinárias que nos deixou.

domingo, 22 de maio de 2011

ALICE VIEIRA


Muito aguardada, esta visita, mais exactamente desde o ano lectivo passado. Queríamos muito rever Alice Vieira, e comemorar com ela o trigésimo aniversário da sua vida literária e o trigésimo aniversário da nossa Escola.
Foi finalmente possível e a autora de Rosa, minha irmã Rosa foi recebida por alunos das seis turmas do oitavo ano, os muitos que aceitaram a sugestão das professoras de Português, de ler romances da autora e sobre eles escreverem as suas impressões de leitura.
Após as muito sinceras felicitações e agradecimentos à escritora, pelos admiráveis textos que nos tem oferecido, a palavra foi dada a três leitoras. Curiosamente, enquanto a Inês falou sobre o primeiro romance, a Mafalda escolheu a poesia, que muito recentemente veio desvendar uma grande poeta, faceta ainda por muitos desconhecida, da autora que tem dedicado a sua escrita sobretudo ao público juvenil.
Começou então Alice, e o seu poder de comunicação, a voz cheia e calorosa, a extraordinária vivacidade e sentido de humor, cativaram o público até ao final. Na última visita a escolas que realiza este ano (coincidentemente, também é a nossa última convidada), recordou com inesperada nitidez e um agrado que muito nos envaideceu o Projecto que pela primeira vez ocasionou o nosso encontro, já há cerca de vinte anos: o Concurso "Entrer dans la Légende", que proporcionou aos alunos de uma turma do 11º ano, e respectivas professoras de Português e de Francês, Vera Batista e Fátima Magriço (presente na sessão e companheira de mesa), escolher um mito nacional, o de D. Sebastião, escrever sobre ele com Alice Vieira, traduzi-lo, dramatizá-lo, representá-lo em Paris e vê-lo publicado em edição bilingue. Bem bom!
Falou em seguida da sua escrita, do importantíssimo lugar que o jornalismo ocupa na sua vida profissional e no que contribui, em rigor, em observação da realidade, na atenção ao outro, para a actividade literária. Contou episódios da sua vida de escitora, falou de amigos, leu textos deles - Ruy Belo, Tolentino Mendonça, Mário Henrique Leiria... - homenageou-os. Respondeu a todas as perguntas, autografou todos os livros e folhinhas de papel estendidos por muitas mãos.
Que melhor forma de agradecer do que recomendar os seus livros?
O que dói às aves e Dois corpos tombando na água são os livros de poesia que os mais velhos NÃO PODEM PERDER!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ANTÓNIO VASCONCELOS RAPOSO - A GUERRA É A GUERRA

Até ao Fim - a Última Operação, de António Vasconcelos Raposo, é um livro de guerra, classificação para a qual a capa nos reenvia, sem equívocos. O contexto é, de facto, a guerra colonial, Angola, 1974, e os protagonistas, um destacamento de Fuzileiros Especiais a quem é confiada a difícil missão de recuperar um grupo de militares (digamos assim, para não revelar tudo...) feitos prisioneiros pelos guerrilheiros independentistas. A acção desenvolve-se, pois, em torno desta operação, que se constitui como foco de toda a narrativa. Ora, é precisamente a escolha deste episódio exemplar e não a opção tentadora da acumulação de memórias diversas e dispersas que dá unidade a este romance autobiográfico e lhe confere um sentido que ultrapassa a circunstância histórica que reúne aqueles homens naquele lugar.
É verdade que sabemos, desde as primeiras linhas, estar perante uma história vivida e mais tarde recontada pela voz da memória - uma memória tatuada, para sempre, como nos adverte a introdução. É verdade que a natureza da matéria narrada, o tempo e o lugar encaixam perfeitamente numa memória colectiva circunstancial recente, atestada pelas fotografias intercaladas no texto. Mas é também verdade que o que move aquele grupo de homens é um conjunto de sentimentos e valores intemporais e intrínsecos à condição humana: a coragem (e o medo), a lealdade, a amizade, o sentido de pertença, a dignidade, o respeito pelo outro.
Não me é fácil entender completamente o espírito bélico que, apesar da reconhecida injustiça daquela guerra, ecoa em muitas das páginas. Mas é muito fácil compreender que quem viveu uma experiência limite como esta a tenha vivido assim. E a recorde assim. Nesta guerra de império em estertor, afinal havia muitos homens extraordinários que mereciam estar noutro tempo e noutro lugar. As "malhas que o império tece" (teceu) fê-los estar ali, e foi ali que revelaram a sua vulnerabilidade, mas também a sua grandeza.

Este é um livro de guerra, dizia nas primeiras linhas. Agora estou quase a dizer que é também um livro sobre o treino. Na verdade, reconheço, no narrador desta memória intensa, a voz do treinador de outros livros assinados pelo mesmo autor. O espírito é o mesmo, os valores são os mesmos. E embora este seja um romance, reconheço nele também a voz grave, de leve sotaque açoriano de um professor desta Escola, que todos aprendemos a admirar. A voz de um amigo. O António Vasconcelos que em Angola treinou a coragem, a amizade, o respeito pela vida.

Este é, finalmente, um livro de libertação. Do peso do passado, da persistência da memória, da voz silenciada na mata, longe de casa. Um livro com a marca da urgência muito tempo contida. Porque a guerra é a guerra.

sábado, 14 de maio de 2011

JOAQUIM VIEIRA NA ESCOLA. AINDA

Já foi há uns dias, mas não posso deixar de assinalar este ponto alto da vida da Biblioteca da nossa Escola. Joaquim Vieira aceitou vir falar connosco e, como disse muito bem a Paula na apresentação que dele fez, pretextos não faltariam, tão vasto tem sido o campo de trabalho e investigação deste grande jornalista, escritor e historiador. Acabámos por escolher a semana da comemoração do 25 de Abril e, por isso, numa sessão a que deu o título de "Portugal: da ditadura à democracia", ele escolheu precisamente caracterizar, em linhas gerais, objectivas e certeiras, o Estado Novo e a eclosão do 25 de Abril, com recurso a um suporte de imagens projectadas muito bem escolhidas.

Foi uma extraordinária aula de História, mas não foi uma aula qualquer. Na verdade, todos os participantes ficaram presos pelo poder de comunicação deste profissional da comunicação. Os olhos não se desviavam. Os ouvidos não se dispersavam. Como professora, lembrei-me que não seria mal pensado aprendermos um pouco com os jornalistas (os jornalistas a sério, claro! Como Joaquim Vieira!)

Lembrei-me, entretanto, de uma curiosidade engraçada, acontecida há uns anos, quando na Escola comemorávamos um outro aniversário do 25 de Abril. A procurar uns papéis para a exposição da Biblioteca, encontrei, dentro de um velho caderno da Faculdade, uma folha policopiada, em stencil, como se usava nos anos 70. Era um comunicado das Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa a denunciar a prisão, pela PIDE, de um colega do Técnico - Joaquim Vieira. Com foto e tudo. Entreguei a folha amarelecida à irmã, a nossa colega Ana Vieira.

Agora, já que este é o blogue da Biblioteca, falemos de livros. Aconselho 2 títuloaos de Joaquim Vieira. Poderiam ser outros quaisquer, mas apetece mesmo sugerir estes: a biografia do fotógrafo Joshua Benoliel (com as suas fantásticas fotos que nos fazem revisitar momentos únicos da história de Lisboa e do país) e o romance (se quisermos) A Governanta (é mesmo a D. Maria do Salazar). Não percam.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O PRINCIPEZINHO


Se é indiscutível que de costume se prefere o silêncio e o estar sozinho para companheiros da leitura, não deixa de ser verdade que está a voltar , e a alastrar cada vez mais, o gosto pela leitura partilhada, feita em voz alta.
Numa experiência até agora inédita na Escola, e só possível graças à pronta disponibilidade dos professores das turmas 7ºB, D e F, assim fizemos com O Principezinho , que lemos quase de um fôlego: apresentada a proposta de que, em dias sucessivos, cada disciplina dedicasse uma aula às páginas intemporais do livro de Saint-Éxupery, ela foi acolhida com o agrado que é já promessa de sucesso.
Diferentes vozes, timbres, intensidades e entoações, com intervalos abertos para o comentário, a discussão, o significado das palavras.
Alguns alunos já tinham lido O Principezinho, no 2º ciclo, outros só conheciam o "diálogo da raposa", outros tinham visto representado, a maioria só conhecia a imagem do menino de cabelos loiros e cachecol esvoaçantes. A conclusão foi comum: esta foi uma leitura diferente, com muito mais janelas abertas.
Afinal, como todos os grandes livros, O Principezinho reserva muitos segredos e, quanto mais e mais experientes os olhos, maior será a probabilidade de os descobrir.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

joaquim vieira

a propósito da celebração do vinte e cinco de abril, o dia da liberdade e da revolta para todos os portugueses que se considerem como tal, a escola recebeu a visita do jornalista joaquim vieira, mais conhecido pela sua produção de documentários para a televisão, escrita de autobiografias e fotobiografias, e obras documentais em geral. joaquim vieira apresentou-nos um powerpoint que retratava a vida durante o estado novo e as mudanças que a revolução trouxe. descreveu-nos a história geral do regime fascista e assassino, mas focou-se também no período de setenta e quatro, setenta e seis, após a revolução dos cravos, em que as forças de esquerda quase conseguiram formar um regime justo, igualitário e fraterno. em vez disso, sobrou-nos a democracia que temos hoje. e, no fundo, foi esse o objectivo de joaquim vieira, o de nos mostrar como, só compreendendo o passado, podemos compreender o presente, e, assim, mudar o futuro. numa altura em que mudar é mais importante do que qualquer outra coisa, as suas lições, entre aspas, da nossa história nacional tornaram-se muito pertinentes. talvez o seu discurso pudesse ter focado assuntos menos conhecidos do nosso passado, em vez de sublinhar outra vez o que vem nos manuais de história, mas o tempo escasseava e o certo é que joaquim vieira conseguiu prender a atenção de todos. assim sendo, julgo que ninguém saiu a perder.

domingo, 1 de maio de 2011

NA CASA DE ANNE FRANK

Em sessões na Biblioteca que se distribuíram por várias semanas, as turmas do oitavo ano dedicaram uma aula de Português, acompanhadas pelas professoras Ana Borba e Paula Varela, à visita virtual à casa de Anne Frank, complementada com leituras de páginas do Diário.
Transcrevemos alguns dos comentários escritos a propósito.


É triste saber que uma rapariga tão corajosa, que consegue superar os seus medos das maneiras mais divertidas, como Anne Frank, morreu apenas duas semanas antes de os judeus serem libertados. Achei a visita virtual muito interessante, pois mostrou como Anne Frank vivia e também conseguimos através das pequenas histórias descobrir um pouco mais da sua personalidade.
Ana Sofia Pendão 8ºE

Achei a visita virtual à casa museu de Anne Frank muito interessante, pois ficámos a ter um pouco mais cultura geral.
Achei muito interessante o anexo, nunca pensei que tivesse tanto espaço, quando me falaram pensei que fosse coisa mais pequena. Gostei e espero repetir coisas deste género.

Miriam Leal 8º C

Do que eu gostei mais foi quando a Anne Frank recebeu o livro, que mais tarde se tornou o seu bem mais precioso. Ela não deu importância a um simples livro, primeiro achava que ninguém se ia importar. No entanto, foram feitas milhares de cópias em centenas de línguas.
Daniel Santos 8º E

Do que eu gostei mais foi de ter lido os excertos do Diário, pois eu sempre gostei do livro de Anne Frank, porque é uma história verídica de uma altura da guerra, o que o torna muito interessante.
Joana Leite 8ºE

Eu achei a visita interessante e despertou-me alguma curiosidade. É pena não estar em português, mas acho que vale a pena visitar virtualmente a casa museu de Anne Frank. As minhas partes favoritas foram a descrição da Anne Frank do anexo secreto, dos sapatos vermelhos e achei muito engraçado quando disseram que ela subia e descia as escadas a correr para fazer barulho pois tinha medo do som das bombas e dos ataques.
Bárbara Ribeiro, 8ºE

Eu gostei muito de ver a casa museu de Anne Frank, mesmo que tenha sido virtualmente. Claro que gostava mais de ir à Holanda, mas acho que este site é muito interessante, para as pessoas que não podem lá ir conhecerem o tão famoso anexo secreto onde Anne Frank e a sua família viveram durante alguns anos, escondidos de tudo e de todos.
Beatriz Lory, 8ºE

Eu gostei muito da casa em 3D, das imagens reais e imagens que representavam algumas partes da casa de Anne Frank , a empresa do pai e o anexo. Também gostei da reconstituição da época da 2º Guerra Mundial, a partir de imagens e documentários.
David Coelho, 8º C

Do que gostei mais foi de ver o anexo. Gostei do facto de não se saber daquela parte da casa, e de eles lá viverem secretamente. A casa parecia um labirinto, cheia de cantos e recantos.
Inês Telo, 8º C

Consegui compreender um pouco mais sobre as privações e o medo que os judeus sentiam.
Daniel Alves Costa, 8º E

Eu não tinha lido o livro e com esta actividade consegui perceber tudo por que Anne passou, a intensidade com que o viveu, todos os momentos horríveis, sobretudo a força que teve para enfrentar, com a sua tenra idade. Tudo o que aprendi com esta actividade deu-me uma enorme vontade de ler o seu Diário.
Inês Rodrigues, 8ºA

A história da vida de Anne foi muito emocionante, com um final triste. Gostei particularmente de ver o seu “cantinho”, onde ela gostava de estar, através da janela do sótão ela observava o seu amigo castanheiro, o amigo que lhe fazia companhia.
Carolina Merca, 8ºA

É incrível como cabem tantos quartos numa zona tão à vista e em que ninguém repara. Também gostei da parte em que, praticamente, revivemos os ataques às ruas de Amesterdão, e que por pouco não atingiram o anexo onde estavam nove pessoas. É como se estivéssemos a viver aqueles momentos.
Francisca Azevedo, 8 ºA

Imaginar viver ali é horrível, porque tinham que estar escondidos e calados o tempo todo e assim não se vive. No entanto, Anne Frank e os outros viveram assim, no anexo, e ver o espaço onde estiveram bastante tempo, de certo modo, liga-nos a essas pessoas.
Eduarda Santos , 8ºA

Mostrou-nos a verdadeira e dura realidade. Deve ter sido principalmente difícil para as crianças que tinham de ficar caladas e sossegadas durante o dia e o que me espantou mais foi que uma rapariga como Anne Frank conseguiu ter a calma e a maturidade para lidar com esta situação, escrevendo no seu diário.
Mafalda Granado 8º A

Achei a visita à casa-museu de Anne Frank bastante interessante. Até porque gosto imenso de ler, e o Diário de Anne Frank foi um dos livros que li nas férias do Natal. Como passou pouco tempo de o ter lido, foi engraçado comparar o aspecto físico que eu imaginei com o que elas tinham realmente.
Rita Marques 8º E

Aprendi muito sobre Anne Frank nesta visita, gostei do anexo que era acolhedor. Otto Frank foi quem mais adorei, pois tinha um carácter calmo e gostava de um escritor, Charles Dickens, de que eu também gosto. Tenho pena que tenham sido descobertos quase no final da guerra .
André Rua 8ºA

Já tinha lido o livro e visitar a casa museu de Anne Frank entusiasmou-me bastante.
Adorei ver o quarto dela, um sítio pequeno, que partilhava com a sua irmã e que mais tarde veio a partilhar com outra pessoa .
Aconselho todos os meus amigos e colegas a fazerem a visita .

Ana Beatriz 8º A

Eu gostei da visita virtual à casa museu de Anne Frank, pois nunca tinha visto nem visitado. Gostei particularmente do sótão onde Anne pensava e reflectia sobre o que estava acontecer.
Também gostei da parte em que fala dos bombardeamentos nazis, pois enriquece a nossa cultura Geral.
Nuno Galhofo 8º A

Eu gostei, acho que foi interessante sabermos mais sobre a vida de Anne Frank , da família e
de todos aqueles que contactaram com ela. A parte de que mais gostei foi da visita guiada por dentro da casa e saber o que cada um gostava ou fazia para passar o tempo.

Aléxia Marques 8º A

Nesta visita aprendi muito sobre a vida de Anne Frank “conheci” a família , o anexo secreto, a casa toda e vi o que eles passavam e como tiveram de viver . Aprendi que Anne Frank era uma rapariga simples e descomplicada , “conheci” as outras pessoas que também estavam com ela no anexo como eles se davam com zangas e chatices. Gostei muito desta visita virtual.
E para ser sincera depois de tudo isto, deu-me vontade de continuar o livro que alguns tempos tinha interrompido.

Leonor Galvão 8ºA

Gostei muito da casa virtual de Anne Frank, pois pudemos ver o que se passava ou sofria no anexo, apesar de ser um anexo tem bom aspecto e boa higiene, tal como uma casa. Gostei mais de ver o quarto dela porque ela lhe deu magia ao pôr aqueles posters. Apesar de ter tido medo, sustos, de ter sofrido, ela ainda conseguiu escrever um diário para nós leitores sabermos o que lhe aconteceu nos anos em que viveu no anexo.
Ana Rita Cruz 8º A

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A URGÊNCIA DE CELEBRAR. COM SOPHIA


25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ANTÍGONA NA BIBLIOTECA

Antígona é um texto muito especial.
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.

Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Uma leitura e nada mais....

Já passou mais de um mês sobre o lançamento do livro Nada Mais e Ciúme, de Gil Duarte. Prometi ao editor e ao autor lê-lo, e escrever trezentas e trinta e oito palavras, tantas quantas as páginas do romance. Empolguei-me e são mais de quinhentas. Bom sinal este.
Perseguindo uma estratégia narrativa proustiana, cujo fulcro é a evocação alimentada pela memória de um narrador fortemente comprometido com situações testemunhadas e experienciadas, manifestando uma espécie de ethos e eros irónico-trágicos, sem faca e alguidar, acerca das relações pessoais e familiares, eis um dos eixos de narratividade de Nada Mais e o Ciúme.
O triângulo de relações estabelecido pelas personagens Bernardo, Dulce, Virgílio, fechado num círculo, que é a vida do narrador, é ensombrado pela tragicidade. Um triângulo dessa natureza, em Camilo, Eça, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, resolvia-se a tiros de bacamarte, com uma apoplexia, um corpo a boiar numa lagoa… anulando um dos lados do triângulo. Não enveredando por aí, o narrador sabe que o tempo tudo diluirá. Gil Duarte deixa que tudo apodreça por si como se o tempo fosse uma das personagens principais que silenciosamente atravessa o texto, a escrita. Uma espécie de tudo e nada mais donde sobressai o ciúme, outra centralidade do romance, sintetizado na frase final de Pedro (o narrador), proferida numa solidão cortante: “Tenho-lhe ciúmes. Saudades, não.”
Do ponto de vista do narrador, o que sobra do tempo de convivência, de partilha e cumplicidade é, apenas, o ciúme. Com efeito, este é resultado de relações próximas e de conflitualidade entre personagens que são e deixam de ser; são quase perfeitas, bafejadas pelo êxito, presenteadas pelo trágico e insólitos inesperados. Veja-se o caso do professor de matemática que ora se empolga ora desiste perante o desafio de saber, melhor, negar o movimento, como se, para descobrirmos se o movimento existe ou não, fosse necessário enfrentar um comboio, quando apenas um Toyota, num parque de estacionamento retira a vida a Leonor. Como se o ciúme fosse demonstrável e deduzido matematicamente, materializado numa fórmula brilhante, demonstração, afinal, do matemático que era: "tudo acaba menos o ciúme: o ciúme é a única coisa que resta quando já nada mais há” (p. 121). Este cepticismo lúcido e um racionalismo académico caracterizam Bernardo! Todavia, o ciúme é uma cristalização que resiste ao tempo. Esta formulação dá o título ao romance. É o resto de adições, subtracções, divisões... Gil Duarte apenas altera a ordem dos elementos da frase, estabelecendo um quase-silogismo. Certamente que o nada mais é "o tudo" que já não se tem, que já passou, que já não se suporta, as relações quebradas, mas sempre na perspectiva de se reatarem: Bernardo – Dulce – Virgílio - o próprio Pedro; Dulce e outras experiências dulcíssimas às quais Dulce não resiste porque ela, sim, é livre, não revela memória, vive o tempo, (a)parece sempre feliz. Infeliz, não. Por isso não cultiva o ciúme. A sua memória é linear, a dos outros é circular.
Enfim, o ciúme apresenta-se como mínimo denominador comum, quando já mais nada subsiste, sentimento ambivalente que promove e corrói.
A narrativa encanta pelo modo como o ethos (os costumes, os vários caracteres, entenda-se) e o eros convivem numa lógica de cio, mãe do ciúme, em qualquer sentido da sexualidade. Por vezes inveja, pelo menos da parte do narrador, também escritor como Virgílio. Mas quem não terá ciúmes de um Virgílio?
Em síntese: o ciúme perdurará enquanto houver memória e desejo.
Findando. Desde o início, com a apresentação da brutal e insólita cena da morte de Leonor, outra ausente sempre presente, elemento pro-diegético por excelência, ou uma parte do todo que é o nada mais, até ao epílogo, somos envolvidos pela narratividade a vários tempos, vozes e ritmos que evidenciam uma técnica já apurada e consolidada.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cronivite

Nada melhor do que abrir a caixa do correio e ter um convite ou desafio.
Neste caso implica teclar algumas letras, palavras frases - teia infindável de sentimentos e sabores - que após um clique entram no convívio dos sentidos. Isto está muito metafísico! Nada melhor do que olhar, escutar... deixem-se de metafísicas que distrai. E numa altura destas andar distraído é perigoso por dois motivos: o primeiro, é que a distração em si é censurável, andas na Lua pá? Olha o candeeiro, o parquímetro, o fiscal do parquímetro, que é pior! O outro, é que um ser humano distraído não é deste mundo: deixa de apreciar o belo destes dias quase primaveris, quer eles quer elas. E mesmo atento, atento mesmo, mesmo, mesmo, olhai, atento que nem um penedo, uma antena, não impedes que te vão ao bolso descaradamente. Quanto mais distraído, mais subtraído!
Sinceramente! Não gosto de moralistas mas, para contrariar, deixo um conselho. Vivamos a vida, erguei taças às vossas crenças, amigos, esqueçamo-nos disto!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

NADA MAIS E O CIÚME

Do livro, direi que vale mesmo muito a pena ler (e ver, que é bem bonito!), que surpreende, pela singularidade do olhar sobre as personagens, pelas situações criadas, que prende pela construção da narrativa e, claro, pela escrita.
Direi também o que na sessão de apresentação -bem documentada em lugares diversos como ESTE e ESTE e ainda ESTE - no alvoroço do atraso, não encontrei oportunidade de dizer: que foi bom, aquele ambiente de festa e de amizade, que a escolha da Biblioteca, a cuja equipa o autor pertence e espaço de tantos encontros com a sua marca pessoalíssima, me deu enorme contentamento. Mais uma memória guardada por todos, com particular carinho!
Também queria ter dito que felicito sinceramente o Zé António, pela criatividade, pela coragem, que desejo muitos leitores ao seu livro. Que desejo outros livros ao autor.


P.S. - Ainda há alguns exemplares, na Biblioteca

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

SOBRE O ERRO











Foi fascinante!
Na sua primeira visita à nossa Biblioteca, (há dois anos, já?), Gonçalo M. Tavares conduziu uma conferência invulgar, como tudo o que faz..., onde a escrita, a aceitação e a contestação, o certo e o errado, a imaginação e o real, tudo foi interrogado, virado do avesso, segundo uma lógica desconcertante.

Desta vez, os felizardos participantes foram um grupo que não pôde ser muito alargado, formado por alunos de várias turmas do Secundário, e alguns professores. Foram eles participantes numa Oficina que teve como ponto de partida aquele que habitualmente não se considera o começo ideal, mas que ficou demonstrado ser exactamente uma das melhores formas de desencadear a criatividade. O erro.

Desenhem uma casa errada, pediu. Logo em seguida, saltou à vista que os erros menos aplaudidos são os mais banais. Curioso.
Inventem agora uma personagem para habitar essa casa, continuou, que seja criada por esse espaço.

Assim, etapa atrás de etapa, cada uma mais inesperada que a outra, e ao mesmo tempo tão simples, a dizer "isto esteve sempre lá... não me digam que ainda não tinham visto?...", foram crescendo as histórias.

Como quem prepara uma viagem, com metade do gozo que ela lhe vai dar a realizar, tínhamos andado divertidíssimos a pedir aos leitores de Gonçalo M. Tavares que escolhessem uma estrofe, de Uma Viagem à Índia, e nela inscrevessem a sua marca pessoal, um sublinhado, uma nota, um rabisco. Claro que todos aceitaram, e claro que todos se queixaram da dificuldade da escolha! Ampliadas, essas páginas (poucas) formaram um percurso, desde a entrada da Escola até à Biblioteca. Uma forma de agradecer ao escritor, devolvendo-lhe, lidos, alguns dos seus escritos.

Agradecemos muito, muito, a Gonçalo M. Tavares.

E à Didi, que no-lo apresentou e o trouxe até nós, literalmente. E ao Zé António, o nosso Mercúrio. E à João, pelas notas artísticas que sempre acrescenta. E a todos os participantes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

LIVROS e LEITORES


Outros dois encontros, em que as leituras pessoais estiveram também em destaque, seria imperdoável não divulgar: um ainda em Dezembro, exactamente na última semana de aulas, o outro logo a seguir ao pequeno-almoço com o senhor Descartes (ainda havia chá...).

Os alunos do 10º C, com a professora Maria João Lima, aceitaram deixar o espaço de conforto, como se diz agora, da sala de aula, e convidar outra turma, o 9º D, para assistir à apresentação de dois livros do contrato de leitura. Dois títulos de qualidade indiscutível, e muito diferentes entre si, sendo também muito diversas as abordagens realizadas. O grupo que falou sobre o romance de Marina Mayoral, Tristes Armas, trouxe vasta e variada informação, sobre a autora, claro, mas sobretudo sobre o fundo histórico em que a narrativa se constrói, a Guerra Civil de Espanha, realidade terrível, desconhecida para a maioria dos assistentes, e que aconteceu aqui tão perto e há tão pouco tempo. O segundo título, o clássico e belíssimo O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, prestava-se a uma leitura menos factual e mais simbólica. e foi exactamente o que fizeram ambos os alunos que a apresentaram, curiosamente feita individualmente, dando oportunidade ao confronto e complementaridade de duas perspectivas.

O segundo encontro foi o regresso da RODA DE LVROS do agora 11º B, que tanto nos tinha encantado, nas edições anteriores.

Um pouco entorpecida de início, a Roda demorou um nadinha a deslizar, mas, depois de começar, recuperou a já conhecida agilidade e leveza. Sem papéis nas mãos, a memória das páginas lidas, a visão crítica e pessoal, a conversa.

A turma está diferente, mas não está. Quer dizer, há algumas caras novas, mas parece que sempre pertenceram ao grupo, não se nota estranheza ou inibição. Se calhar, é um dos segredos para que as coisas corram tão bem!

Quanto aos livros, o primeiro foi o Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide, o conhecido e apaixonante clássico de Robert Louis Stevenson. Seguiu-se-lhe uma emocionada apresentação de Marina, o último romance editado em Portugal do catalão Carlos R. Zaffon, o autor de A Sombra do Vento. Já só houve tempo para o terceiro volume da tetralogia As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.

E resta-nos pedir para não demorar muito, a próxima RODA. Somos fãs!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O RISCO DOS PEQUENOS-ALMOÇOS


Sim senhor, sim senhor. Hoje, tivémos a segunda visita de monsieur Descartes.
Para mais duas turmas décimo-primeiro anistas, A e C, organizou a Biblioteca/CRE da escola um pequeno-almoço que, não desfazendo, correu particularmente bem.

Foram guiadores de visita os alunos, do 11º A, Diogo Cunha e Helena Cordeiro. As apresentações foram seguras e as intervenções dos mais diversos alunos eram de uma grande perspicácia, mesmo quando se fechavam numa certa teimosia. Mas não queria repetir o que já disse, em post anterior, acerca da sessão em si mesma. Portanto, conto antes que, há dias, quando, na aula, descrevia à turma o que se iria passar nesse pequeno-almoço a sério, onde, à volta da mesa, conversaríamos acerca da filosofia de René Descartes, o Diogo Cunha seguia o meu entusiasmo com um olhar céptico. Como se pensasse para os seus botões: «Hum! Tanta lantejoula para quê?»
Hoje, após a sessão, não resisti e perguntei-lhe: «Então, que tal?»; e assim falou o Diogo, parando de mastigar a tosta com compota que, visivelmente, lhe estava a saber muito bem: «Foi excelente!»; retruquei (grande palavra): «Sim, mas confesse lá. O Diogo estava muito deconfiado, não estava?»; e ele: «Porque era um risco, professor. Correu-se um risco: parecia-me uma daquelas ideias que se, na prática correm mal, dão muito mau resultado...»

Eu sei. A afirmação do Diogo não foi uma crítica, mas um elogio: reconhecer que toda a diferença implica algum risco - e, já agora, que a Biblioteca da escola é, e tem sido, desde há muitos anos, um lugar onde se correm riscos, e se sofrem frustrações, claro, mas se realizam sessões ímpares, é o maior elogio que pode ser feito. Ainda bem que o chá vos soube bem. Descartes, de onde quer que vos viu, gostou certamente do que viu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PEQUENO-ALMOÇO COM DESCARTES

A manhã do dia 17 foi marcada por uma surpresa que esperava, na Biblioteca, alguns alunos de 11ºs anos (E, F): um pequeno-almoço.

No lugar sagrado que é uma Biblioteca estava-se perante a possibilidade de uma refeição que também só poderia ser uma refeição sagrada, uma oferenda, um ritual: chá, tostas com compota ou mel e biscoitos constituíram os alimentos de um pequeno-almoço em que o convidado central foi o filósofo René Descartes.

O pretexto era a leitura de um livro, que encontram na Biblioteca, e cujo título é Pequeno-almoço com Sócrates. O título é deliberadamente redutor, aludindo simplesmente a um conceito: «Sócrates» não é Sócrates, é todos os filósofos sobre que o livro vai falando - e, já agora, «pequeno-almoço» também não é só o pequeno-almoço, mas símbolo de todas as actividades corriqueiras e quotidianas (como ir ao ginásio, preparar uma festa, fazer compras, discutir com o parceiro...) que preenchem mecanicamente a nossa existência. Não pensamos acerca delas: e, todavia, são pensáveis, na sua significação filosófica ou nas perplexidades em que nos envolvem quando sobre elas reflectimos. Mais: o autor mostra-nos como, de algum modo, os mais simples actos humanos, nas suas implicações éticas e políticas, já foram matéria de uma meditação por parte dos filósofos, desde Sócrates até aos contemporâneos.

Dois alunos do 11º E guiaram a conversa: a Mariana Amor e o João Ramos, em torno da ideia do «acordar», suscitavam perguntas que, a cada passo, nos transportavam para Descartes. O fantasma do filósofo acompanhava o diálogo. E se não interveio directamente, os seus problemas foram invocados. E debatidos.

Proximamente, haverá um outro pequeno-almoço. Valha-nos Descartes!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

MISTÉRIOS

Com grande probabilidade, o leitor terá já assistido, no meio de um jantar com amigos, à seguinte discussão - a certa altura, alguém se pro­nuncia sobre o algarismo suplementar que os bilhetes de identidade passaram a ter de há uns anos para cá, mais ou menos nos seguintes termos: «O algarismo suplementar que se segue ao número do BI indica o número de pessoas em Portugal que têm um nome exacta­mente igual ao do portador do BI.»
Quando confrontado com o absurdo de tal afirmação (por exemplo, o algarismo suplementar do meu BI é 9 e posso comprovar que sou a única pessoa no mundo, não apenas em Portugal, com o nome de Jorge Buescu), talvez o interlocutor diga algo do género «mas fui informado por fonte seguríssima de que é assim». Ou talvez prefira mudar de assunto. (...)
Afinal de contas, o que representa o misterioso algarismo suple­mentar que se segue ao número do nosso BI?


A pergunta com que o texto finaliza serve apenas de introdução ao mistério apresentado pelo professor Jorge Buescu, que todos os alunos do oitavo ano, em sessões distribuídas ao longo de várias semanas, foram desafiados a decifrar, acompanhados pelas professoras Inês Alegria e Teresa Jerónimo. A recebê-los, duas professoras da equipa da Biblioteca, uma de Biologia e uma de Português, a confirmar, mais uma vez, o que nunca é suficientemente repetido, pensar e aprender não são actividades que devam estar arrumadas em gavetas separadas, mas sim em espaços amplos e totalmente comunicantes.

Como seria de esperar, começámos pela leitura. O excerto, retirado do livro, Mistérios do Bilhete de Identidade e Outras Histórias , começou por assustar um pouco: "Tão grande!" foi um dos desabafos repetidos, no entanto, rapidamente se percebeu que ler em companhia, conversando sobre, esclarecendo, faz evaporar grande parte das dificuldades.
Entre outras etapas, foi necessário determinar/lembrar o conceito de algoritmo, para então aplicar aquele que serve (ou devia servir) para encontrar o dígito de controlo dos BIs dos cidadãos portugueses: cada um pegou no seu cartãozinho e tratou de fazer as contas. A pouco e pouco, os resultados foram surgindo e, tal como o texto indicava, nem sempre davam certos; curiosamente, só falhavam alguns dos casos em BIs cujo dígito de controlo é o 0 (zero).

Porquê? Os alunos do oitavo ano já sabem a resposta.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

tolstoi, cem anos passados

dia dezoito de novembro, pelas dez da matina, se não estou erro, e aceite um mui-interessante convite do professor josé pacheco para comemorar, à maneira já habitual da biblioteca, o século da morte desse gigante literário cuja tradução do nome para a língua lusitana é leão tolstoi, procedeu-se à sessão propriamente dita. e aquele tipo era mesmo um leão! na nossa pequenez de compreensão e espírito, tentámos desvendar, por entre o manto diáfano da fantasia que são as obras-primas que lev, esqueçamos o por vezes ridículo leão, tolstoi deixou à humanidade, as mensagens que se lêem nas entrelinhas. e não são poucas. terminada a leitura de uma obra como guerra e paz, a primeira reacção poderá ser a seguinte,
é isto a guerra e paz?
mas com o passar do tempo chegará a conclusão de que nada mais na história da literatura universal alcançou aquele patamar. porque aquele livro tem tudo. não só guerra e paz, mas também amor, traição, ciúme, desejo, ira, amizade, vício, maldade, filosofia, política, estratégia, inveja e, sobretudo, uma procura incansável do sentido da vida.
quanto à sessão, julgo que tudo foi pelo melhor. e a originalidade da sessão consistiu precisamente na sua apresentação, pois ela repartiu-se pela minha pessoa e pela do professor josé pacheco. corroborámo-nos, completámo-nos, ajudámo-nos. no entusiasmo que a sessão suscitou, leram-se excertos da obra, sugeriram-se romances do autor e discutiram-se até teorias improváveis sobre a morte do génio. depois, falou-se do homem, do escritor, da obra, da guerra e paz, em particular, de napoleão e das suas campanhas militares, das personagens e, claro, de pierre, desse pequeno grande homem, que se perdoe a referência ao romance de thomas berger, a quem já ouvi descrever como sendo um tontinho que não sabe o que quer da vida. por muito redutor que isto possa parecer, é a pura das verdades. pois não somos nós todos uns tontinhos que não sabemos o que queremos da vida? sim, somos, mas é com homens como tolstoi que aprendemos, nem que seja somente um pouquinho, a lidar melhor com nossa pesarosa existência. e se, como disse blaise pascal, na vida não há nada de bom salvo a esperança de uma outra vida, então sempre podemos esperar que ela venha acompanhados pela literatura que tolstoi nos legou. sim, o leão morreu há cem anos. mas muitos cem anos passarão até a sua literatura se perder no vácuo que prevalecerá sobre tudo.

domingo, 21 de novembro de 2010

AS MÃOS, AS PALAVRAS E OS FRUTOS

Quero acreditar que o Eugénio de Andrade me perdoaria o abuso do seu título, se tivesse assistido à oficina animadíssima que, logo de manhãzinha, encheu a Biblioteca de cores, aromas, risos e ideias a crescer por todos os lados.
É preciso primeiro explicar que o 9º E está mais uma vez a pôr à prova a sua criatividade (lembram-se das ilustrações de poemas e dos DVDs gravados no ano passado?). O ponto de partida, desta vez, foi o envolvimento da turma no Programa Pessoa e, em E.V., a escolha de um fruto por cada um dos alunos, que já o desenhou e já procurou, também, as palavras mais certas para o descrever. Alguns já tinham também pesquisado títulos de livros e de poemas contendo nomes de frutos, quando, na passada quinta-feira, nos reunimos para mais uma sessão
dedicada a saborear o prazer da leitura e da escrita.
Dos textos lidos, o primeiro um diálogo muito invulgar, em que um certo Virgílio se esforça por explicar a uma certa Beatriz como é uma pera (Yann Martel, Beatriz e Virgílio, ed. Presença),o segundo retirado de mais um daqueles livros em que a imaginação e o nonsense de Roald Dahl dão resultados sempre imprevisíveis (James e o Pessegueiro Mágico, ed. Terramar), aqui fica um breve fragmento:

BEATRIZ: Mas a que sabe? Não aguento mais.
VIRGÍLIO: Uma pêra madura transborda de suculência doce.
BEATRIZ: Oh, isso parece bom.
VIRGÍLIO: Corta uma pêra e verás que a sua polpa é de um branco incandescente. Brilha com uma luz interior. Aqueles que trazem consigo uma faca e uma pêra nunca têm medo do escuro.
BEATRIZ: Tenho de provar uma.
VIRGÍLIO: A textura de uma pêra, a sua consistência, é outra coisa difícil de pôr em palavras. Algumas peras são um tudo-nada crocantes.
BEATRIZ: Como uma maçã?
VIRGÍLIO: Não, nada parecido com uma maçã! Uma maçã resiste a ser comida. Uma maçã não é comida, é conquistada. A qualidade crocante de uma pêra é muito mais atraente. É generosa e frágil. Comer uma pêra é semelhante a... beijar.
BEATRIZ: Oh, céus! Parece tão bom.
VIRGÍLIO: A polpa de uma pêra pode ser ligeiramente granulosa. Contudo, derrete-se na boca.
BEATRIZ: Tal coisa é possível?
VIRGÍLIO: Com todas as peras. E isso é só o aspecto, o toque, o cheiro, a textura. Ainda nem te falei do sabor.
BEATRIZ: Meu Deus!
VIRGÍLIO: O sabor de uma boa pêra é tal que, quando se come, quando os nossos dentes mergulham na beatitude da polpa, isso torna-se uma actividade absorvente. Não se quer fazer mais nada além de comer a nossa pêra. Prefere-se estar sentado do que em pé. Prefere-se estar só do que acompanhado. Prefere-se o silêncio à música. Todos os sentidos, excepto o paladar, ficam inactivos. Não se vê nada, não se ouve nada, não se sente nada... ou apenas na medida em que nos ajude a apreciar o sabor divinal da nossa pêra.
BEATRIZ: Mas a que sabe ao certo?


Depois foi a folha em branco, o sossego instalando-se a pouco e pouco, as mãos que já desenharam os frutos pegando nos lápis hesitantes, as palavras e frases a despontarem, os textos a ganharem forma, consistência, sabor.
Não vai ficar por aqui este trabalho, a professora Maria João Cortegaça reservou a parte mais surpreendente para o final.


Estejam atentos!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA HORA DE LEITURA

Todos conhecemos o nome do chileno Antonio Skármeta como o autor do maravilhoso O Carteiro de Pablo Neruda. Pois bem, está aí um novo livro, igualmente terno e comovente, e igualmente desprovido de qualquer tentação piegas.
Um Pai de Filme conta a história de um jovem professor primário de uma remota aldeia chilena, com a cabeça cheia de sonhos literários e desejos de conhecer o amor e a vida. É uma brevíssima narrativa (menos de 100 páginas) que nos proporciona uma hora de puro prazer de leitura.

Na apresentação do seu livro, hoje, na Livraria Buccholz, Antonio Skármeta, muito divertido, confessou que, tendo começado por escrever um romance com mais de 300 páginas, acabou por ir cortando, cortando, até chegar a esta história curta, que deixa espaço para o leitor respirar e sonhar. O actor André Gomes (que representou Pablo Neruda na peça encenada há uns anos pelo Grupo de Teatro de Almada) leu páginas do livro.
Tenho a certeza de que, a esta hora, todos os que estavam naquela sala, já leram, de um fôlego, Um Pai de Filme de Antonio Skármeta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

FIAMA

A propósito do Colóquio "Fiama Hasse Pais Brandão", a que assistimos nos dias 29 e 30 de Outubro, na Casa Fernando Pessoa - e no qual foi lançada a antologia Âmago - deixamos aqui um poema revelador de uma das grandes vozes da poesia portuguesa da 2.ª metade do século XX.

Chamar-Te é um sopro. O assobio
dos pássaros na enseada.
Baixa a colina agora e segue
o fio da minha voz. O azul do mar
assimila-nos a si. O Teu
nome vai perder-se no estuário
que nós víamos do cimo
da muralha. Desprezo o eco. Nada
Te chegará de tudo isto
que é o real. Ventos, sons, o mar,
a voz são uma mancha inconsis-
tente no único espaço que nos une.


Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PESSOAL...E TRANSMISSÍVEL


Às vezes acontece-nos o privilégio de receber ao vivo e a cores convidados fascinantes, com a rara capacidade de abrir intervalos no meio das suas agendas sobrecarregadas, para conversar com estudantes do Secundário e revelar pedacinhos do seu muito saber e invejável experiência.
Na passada 2ª feira, visitou-nos Carlos Vaz Marques, autor do "Pessoal... e Transmissível"- programa da TSF que todos os apreciadores de uma boa entrevista conhecem e recomendam - colaborador do Jornal de Letras, da revista LER, responsável por uma colecção de títulos de literatura de viagens, e tradutor de alguns, moderador do imperdível "Governo Sombra", programa de sátira política entre cujos ministros se conta o fedorento Araújo Pereira, anfitrião do "Café com Letras", actividade regular das Bibliotecas Municipais de Oeiras, vencedor do prémio Ilídio Pinho, nada mais nada menos que o maior prémio de jornalismo atribuído em Portugal... Ufa! Tudo isto, e muito mais, num jovem que ainda no outro dia era aluno do Liceu Camões, onde teve como professora de Português a (nossa) Elisa Costa Pinto, que, evidentemente, se encarregou de apresentar orgulhosamente (babadamente, confessou ela) o jornalista às três turmas reunidas na Biblioteca para o conhecer.
Carlos Vaz Marques falou sobretudo das entrevistas de rádio. (Espantou-nos desde logo saber que é o único responsável pela sua preparação, quando se imaginaria, perante a profundidade das entrevistas e a lista de entrevistados, tão variada e extensa, uma equipa de retaguarda a fazer o exaustivo trabalho de pesquisa). Disse gostar particularmente de entrevistar pessoas que "não dizem o que se está à espera" - encontrando-se os escritores, naturalmente, entre os mais desafiantes - e também de trazer ao conhecimento do grande público pessoas que não aparecem frequentemente nos media, "aves raras", no melhor sentido da expressão.

Muitos de nós nunca tinhamos pensado na diferença entre as entrevistas "de combate"- em que, no dizer do nosso convidado, o jornalista substitui todos os que gostariam de poder estar ali, a colocar perguntas muitas vezes incómodas, a pessoas com responsabilidades governativas, por exemplo - e as outras, em que o entrevistador não pode exigir, antes tentando seduzir, entender, empatizar.
E Carlos Vaz Marques, nisso, é mestre. A nós encantou-nos!

P.S. - Graças à santa internet, podemos ouvir a qualquer hora os programas de rádio referidos. Basta ir ao sítio da TSF.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CASA DE AFECTOS


Leio (com gosto) os últimos textos aqui chegados, penso como provam vivamente que os livros e as suas casas são laços. Não gaiolas onde eremitas macambúzios se encerram, mas formas, espaços, de abrir as mentes e os corações aos outros, ao Outro.

Vem isto a propósito de uma sessão muito especial que na semana passada aconteceu. Como aconteceu?

Começou pela discussão, numa aula de Formação Cívica, sobre o drama vivido pelos mineiros chilenos, as diferentes emoções que experimentariam ao longo de tantas semanas de enclausuramento, a forma inteligente e solidária como souberam lutar pela sobrevivência, como cada um reagiria se se encontrasse numa situação mesmo que muito remotamente semelhante.

Depois, mas ainda antes de se conhecer o feliz desfecho desta história, o encontro teve lugar na Biblioteca, onde, partindo da leitura de um artigo de jornal, procurámos entender mais completamente as implicações emocionais e físicas de uma tão longa permanência no interior da terra.

Alguns factos tornaram-se-nos muito evidentes: a permanente ligação ao exterior, a presença esperançosa, perseverante, das famílias, mas também os olhos do mundo postos na mina de San Jose desempenharam um papel determinante na forma como tudo aconteceu. Por outro lado, percebemos que os próximos tempos vão ser ainda de duro combate por parte dos 33 mineiros, não irá ser sem sobressaltos a readaptação à vida "normal".

Tudo isto, e ainda mais a urgência de fazer alguma coisa, alguma coisa que tornasse material a nossa solidariedade, levou à escrita das cartas para o Chile, repletas de admiração e abraços, dos alunos do 8ºE.

BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS

«Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem [1], desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos [2], dos que temos vontade de reler por puro prazer [3], dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar [4], dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir [5], etc.»
Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas

Encontro, na minha biblioteca, um exemplo de cada um dos casos referidos.

1. Ulisses, James Joyce

2. Pedro Páramo, Juan Rulfo

3. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

4. Os Maias, Eça de Queirós

5. Vitorino Nemésio

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PARA O EDUARDO PRADO COELHO

Ele foi o Mestre de uma geração inteira de alunos de Literatura. Para uns sedutor, para outros incomodamente erudito e hermético, para mim, o Mestre. Fico feliz por ter tido a coragem e o tempo de lho dizer num jantar informal, num pequeno restaurante em frente à Casa Fernando Pessoa, uns meses antes da sua morte.
No passado domingo, o CCB dedicou-lhe um dia. Foi uma homenagem muito afectiva - ele era um distribuidor de afectos - e também muito leve, apesar da sua ausência. Como ele teria gostado. A sala estava cheia de amigos que convocaram o EPC com a leitura de textos seus. Ternos, divertidos, sérios, um pouco de frivolidade em alguns. Ousadia noutros. E sempre a palavra literária, plástica, inesperada. Ele era assim.
Convido à leitura de uma crónica, bem adequada a este espaço.

A BIBLIOTECA
Há-de haver um último livro. Lembro-me do meu pai, já perto do fim, sentado na cama: lia Santo Agostinho. Converteu-se? Penso que não. Mas procurava outra coisa. Demasiado tarde, é claro – como sempre. Chegamos sempre no final da festa.
“Os livros são um problema” – quantas vezes ouvimos esta frase? Ela tornou-se tão banal que, de certo modo, foi amaciando o verdadeiro problema que eles, os livros que se acumulam, são. Toda a minha vida senti um alvoroço quando numa livraria encontrei um livro que não esperava. Visitei cidades onde passava horas nas livrarias, olhando as estantes, e arrastando comigo aquela culpa de não estar a ver o mar, de não sentir no corpo o bater das ondas, de não adormecer no chão das florestas. Quantas vezes não ouvi a campainha da porta tocar e sentia o estremecimento que me anunciava que novos livros iam chegar? Ainda hoje. Ainda hoje um pacote de livros constitui uma festa. A promessa de uma festa que demoradamente se despede de si mesma.
Até que, rodeado de livros por todos os lados, decidi que iria oferecer uma parte a uma biblioteca. As bibliotecas públicas são hoje um lugar de animação cultural – quer isto dizer um lugar de vida. Ainda noutro dia pude ler a descrição de um grupo de crianças que passaram a noite nas instalações da biblioteca de Oeiras: letras, jogos, palavras, sonhos, anjos de papel. A biblioteca de Oeiras é hoje dirigida por um amigo: Filipe Leal. Oeiras, Carnaxide, Algés. Achei que lhes podia propor que ficassem com alguns dos meus livros. Partiram já cerca de 3000. Talvez mais tarde partam mais.
Mas é tão difícil escolher os livros que nos vão deixar…
Olhando para cada um, sinto o momento em que o comprei, a livraria em que o vi, o café onde o folheei, a praia onde o li, a cama em que ele, já no chão, vigiou o meu sono habitado de palavras mágicas. Outros, tantos outros, nem os cheguei a ler. Foram hóspedes de passagem, estiveram anos em minha casa, acompanharam-me de Paris para Lisboa, e agora separamo-nos porque não satisfizeram o meu critério decisivo: “Será um livro fundamental? Será que ainda tenho tempo para o ler?” Vejo o livro envelhecido e sinto a tristeza que nele se acumula por essa espécie de injustiça de eu não o considerar essencial. Parece que ouço um queixume. Há uma caixa de cartão para onde ele deve ir, condenado pelo meu juízo impiedoso, mas talvez secretamente feliz pelo facto de poder vir a ser útil ao reformado que procura um momento de distracção, ao investigador que já não esperava pela informação que ele contém, à criança que nele aprende o território das invenções sem fim. Vou esquecê-lo. Vou esquecer em mim a alegria que me deu.
Há-se haver um livro – um último rosto, um último objecto, um último corpo. Há-de haver um último livro – até que a porta da biblioteca se feche definitivamente.

Eduardo Prado Coelho, “O Fio do Horizonte”, in Público, 9 de Abril de 2004

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DE ÁLVARO DE CAMPOS


Hoje é dia aniversário de Álvaro de Campos, o heterónimo que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890. (Por isso se realiza, nessa cidade, o I Encontro Internacional Álvaro de Campos).

A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!

Para além disso, transcrevemos alguns versos da "Ode Marítima", em homenagem ao mar de Tavira, onde Campos nasceu, ao mar de Lisboa, que Campos amou, ao mar de Glasgow, onde Campos estudou engenharia naval.

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
(............................................................................)

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LUÍSA E TEODORA

O regresso do 7ºB e do 7ºF não se fez esperar, para receber duas conhecidíssimas visitantes: a escritora Luísa Fortes da Cunha e a sua Teodora, protagonista dos doze títulos da série já publicados, e dos mais que se seguirão.

Num encontro proporcionado pela Biblioteca Municipal de Carnaxide, a autora conversou, contou bocadinhos das suas histórias, revelou episódios que serviram de matéria a algumas das aventuras da pequena Teodora. Falou da sua infância e, como não podia deixar de ser, porque ninguém escreve sem ter lido muito, e quem gosta de escrever é, em geral, um grande leitor, falou também de leituras marcantes, em diversos momentos da vida.
A provar que o pensamento e a imaginação desobedecem sempre às fronteiras artificiais que os nossos preconceitos às vezes lhes impõem, revelou que foi uma cadeira da sua licenciatura em Educação Física que lhe aguçou o interesse pela cultura/literatura tradicional portuguesa, fonte inesgotável de inspiração. Não ignorando a mitologia clássica, absorvendo também gentes e viagens.
À pergunta colocada por um aluno, respondeu ter começado a escrever porque inventava histórias para os filhos, quando eram mais pequenos, e depois deu-lhes forma impressa. Contava-lhes muitas histórias, porque queria que eles viessem a ser leitores. Por que seria?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

UM MÊS DEPOIS


Se o blogue tem andado demasiado quieto (mea culpa), o mesmo não se passa com a Biblioteca. Longe disso!
Como fazemos questão de repetir em cada início de ano, abrimos as portas e as expectativas às turmas do 7º, em sessões de apresentação e boas vindas. Novos rostos, vozes, histórias, para nós o recomeço, a renovação, novas linhas na nossa fisionomia.
Quase todos ficarão connosco durante seis anos bem importantes nas suas vidas, em todos esperamos deixar as melhores recordações.
Acompanhados pelas professoras Céu Ribeiro e Teresa Silva, em Português, e Adelaide Pereira, em EAC, contaram de onde vêm, como usavam as Bibliotecas das suas antigas Escolas, partilharam gostos e opiniões.
Compenetrados, conheceram o Regulamento. Em silêncio atento, escutaram um história "de adormecer anjos", o conto "Sábios como Camelos" do angolano José Eduardo Agualusa, que escreveu o espantoso Estranhões & Bizarrocos, com ilustrações de Henrique Cayate. (Temos...) Depois, vasculharam estantes, em busca de autores que, à semelhança dos da biblioteca ambulante do grão-vizir, estão arrumados de A a Z. Alguns já voltaram para responder a um inquérito e escolher livros, sobre os quais mais tarde iremos conversar.
Gostámos de vos conhecer!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOBEL PARA MARIO VARGAS LLOSA

Grande escritor equatoriano, um dos maiores da língua castelhana, Mario Vargas Llosa recebe, finalmente, o Nobel da Literatura que, segundo a crítica, há muito lhe era devido. Depois dos chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, do colombiano Gabriel García Márquez, do mexicano Octavio Paz, Vargas Llosa oferece à riquíssima literatura latinoamericana o galardão máximo.

Queremos aqui homenageá-lo da melhor maneira que conhecemos para homenagear um escritor: lê-lo e dá-lo a ler.
Transcrevemos, pois, uns parágrafos do início do seu romance Travessuras da Menina Má, de 2006.

Aconteceram coisas extraordinárias naquele Verão de 1950. Cojinoba Lanas atirou-se pela primeira vez a uma rapariga - a ruiva Seminauel - e esta, ante a surpresa de Miraflores inteiro, disse-lhe que sim. Cojinoba esqueceu-se do seu coxear e andava desde então pelas ruas a fazer peito como um Charles Atlas. Tico Tiravante acabou o namoro com Ilse e atirou-se a Laurita, Victor Ojeda atirou-se a Ilse e acabou com Inge, Juan Barreto atirou-se a Inge e acabou com Ilse. Houve uma tal recomposição sentimental no bairro que andávamos aturdidos, os namoros desfaziam-se e refaziam-se e ao sair das festas dos sábados os pares nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. "Que relaxação!", escandalizava-se a minha tia Alberta, com quem eu vivia desde a morte dos meus pais.
As ondas dos banhos de Miraflores quebravam duas ao longe, a primeira a duzentos metros da praia, e era até aí que nós, os valentes, íamos abatê-las a peito, e deixávamo-nos arrastar uns cem metros, até onde as vagas morriam só para se reconstituírem em airosas ondulações e quebrarem de novo, numa segunda rebentação que nos fazia deslizar, aos que fazíamos carreirinhas nas ondas, até às pedrinhas da praia.
Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores toda a gente deixou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terramoto que pôs todos os pares infantis, adolescentes e maduros a saltar, pular, fazer figuras, nas festas do bairro. E a mesma coisa acontecia certamente fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, no centro de Lima, no Rímac e no Porvenir, onde nós, os miraflorinos, nunca tínhamos posto os pés nem pensávamos ter de pôr.
E assim como das valsinhas e das huarachas, dos sambas e das polcas tínhamos passado ao mambo, passámos também dos patins e das trotinetas à bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo, por exemplo, à mota, e inclusivamente um ou dois ao automóvel, como o matulão do bairro, Luchín, que roubava às vezes o Chevrolet descapotável ao pai e nos levava a dar uma volta pelos molhes, do Terrazas até à quebrada de Armendáriz, a cem à hora.

sábado, 25 de setembro de 2010

BENVINDOS À BIBLIOTECA

Pareceria, de algum modo, estranho que, começadas as aulas há umas quantas semanas, este blogue mantivesse, como último texto publicado, uma recomendação (aliás, excelente!) de leitura para férias.

As férias já lá vão. Venho desejar um óptimo reinício (e uma óptima continuação, pelo ano fora) de relações, estudos, leituras, almoços, recreios, músicas, pinturas, conversas, descobertas, deslumbramentos, filmes, visitas, abraços, navegações, surpresas, revelações e revoluções...

Possa, uma grande parte dessas experiências, ter lugar na Biblioteca.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SUGESTÕES PARA FÉRIAS

ESTRELA ERRANTE , Jean-Marie Gustave Le Clézio

É a descrição de uma longa viagem em busca da Terra Prometida; é também a viagem de Hélèna/Esther/Estrela, a menina que ao longo do romance se fez mulher, à procura de si mesma , da sua Identidade, até ao mais fundo de si - é a história de cumplicidades forjadas entre as personagens, fruto de encontros e desencontros, mais ou menos prolongados e que, ainda que fugazes, como o do encontro com Nejma, deixam a marca do desconforto moral , da extrema violência do mundo dos excluídos.
“Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai. Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada terá um encontro com Nejma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos rumo aos campos de refugiados. Esther e Nejma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra”. (nota do editor na badana da capa)
Neste romance acontece um duplo deslumbramento com a melodia e o poder das Palavras:
O da protagonista, ao ouvir os textos sagrados …
” Encostada à parede fria da capela, Esther ouvia de novo as palavras incompreensíveis naquela língua doce e sincopada, sem tirar os olhos do velho iluminado pelas velas. Uma vez mais sentiu um arrepio , como se aquela voz desconhecida soasse apenas para ela, no seu íntimo. A voz baixa, ciciante, lia o livro e aquilo apagava nela a fadiga , o medo e a raiva…(pág.102)...gostava muito de ouvir as histórias que o rabi Joël contava. Abria o seu livro negro e lia lentamente, primeiro naquela língua tão bela, simultaneamente áspera e doce, que eu ouvira no templo, em Saint-Martin. A seguir falava em francês, também lentamente….era como se fosse uma voz interior, que dizia aquilo que estávamos a ouvir. Falava da lei e da religião como se fossem as coisas mais simples do mundo. Explicava simplesmente o que era a alma falando da nossa sombra e o que era a justiça falando da luz do Sol e da beleza das crianças….” (pág. 165)
O deslumbramento do leitor/a com a escrita de Le Clézio, que eleva as palavras a um estado superior ao discurso do dia-a- dia, dando-lhes de novo o poder de invocação da realidade essencial.
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87)
Sem que eu consiga explicar muito bem porquê, Estrela Errante transporta-me para um universo de escrita feminina, o de As Ondas de Virginia Woolf, sem dúvida uma outra matriz de pertença, mas ainda assim o mesmo encantamento, com a música das palavras usadas para descrever uma relação quase fusional com a Natureza:
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87).


Também por isto, e como último apontamento e mais uma sugestão de leitura para férias, deixo um romance de Virginia Woolf – AS ONDAS. Marguerite Yourcenar, sua tradutora para Francês, descreveu assim este romance :
"As Ondas é considerado o melhor e mais radical romance de Virgínia Woolf – um desses raros escritores que nasceu no instante em que uma estrela se pôs a pensar".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA: ARGUMENTOS E PARADOXOS

E quase no final do ano lectivo,

incluído no UNIDIVERSO


ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA

(Ou: Filosofia? Matemática? Nonsense?)

dia 1 de Junho (terça-feira)

às 10h. 20 min.,
na Biblioteca




Uma sessão dinamizada por Ana Vieira a partir de
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A SESSÃO DE BARREIROS

Perante turmas silenciosas, mas não apáticas, João Barreiros, apresentado pela professora Ana Páscoa, falou sobre ficção científica, autores preferidos, razões da segregação do género, sonhos de um porvir auspicioso (graças à ciência e à técnica) versus medos de um porvir trágico (graças à ciência e à técnica), erros de livros e/ou filmes de fc (como raio se propaga o som no vácuo, em Star Wars, ou como seriam possíveis espadas de laser que não esticassem até ao infinito, ou como poderia o homem invisível não ser cego?) e apresentou-nos o «livro do futuro»: o e-book.

O silêncio do público não revelava indiferença, mas um misto de timidez, reverência, atenção.
Barreiros falou, ligou, deslumbrou, lançou piadas, foi politicamente incorrecto, cáustico q. b., espantou com os paradoxos (por exemplo sobre os viajantes no tempo); tratou, a partir das duas ou três únicas perguntas que lhe fizeram, de um seu conto em particular, O Caçador de Brinquedos.

Há-de voltar, para nova sessão, a esta escola em que já deu aulas - a escola que, assim consta da dedicatória que rabiscou no livro oferecido por si à biblioteca, o «acolheu durante longos anos».

segunda-feira, 17 de maio de 2010

UNIDIVERSO


UNIDIVERSO

APRESENTA

OUTROS GÉNEROS E COISAS DESSE GÉNERO II - FICÇÃO CIENTÍFICA

Uma conversa com o notável autor de Ficção Científica, João Barreiros, em torno do seu conto
O Caçador de Brinquedos



5ª-feira, dia 27 de Maio

15h. 30 min

Na Biblioteca da Espjal