segunda-feira, 25 de abril de 2011
A URGÊNCIA DE CELEBRAR. COM SOPHIA
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
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O que é vital que continue a acontecer
segunda-feira, 14 de março de 2011
ANTÍGONA NA BIBLIOTECA
Antígona é um texto muito especial.
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.
Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?
Em primeiro lugar, sem dúvida, porque foi escrito há cinco séculos antes de Cristo. Em segundo lugar porque encontramos aí algumas das questões fulcrais do ser humano de qualquer época e de qualquer lugar: reconhecemos os Antigos Gregos como mulheres e homens próximos, inseguros como nós, poderosos como às vezes nos descobrimos.
Mais do que isso, a tragédia de Sófocles foi, agora e para nós, o texto que permitiu inúmeros cruzamentos: uma proposta da Biblioteca, assumida pelos grupos de Filosofia e de História (os professores José Pacheco, Suzete Monteiro e Fátima Madaleno, por ordem de entrada), que trataram:
a) o dilema que o texto apresenta: Antígona que, para respeitar a sua crença fundamental, entra em choque com a lei dos homens;
b) o choque entre Antígona e o tirano, entre Antígona e sua irmã Ismena, enquadradas pelas chamadas de atenção do coro trágico, numa arrepiante leitura de passagens feita por diversos alunos (Carolina Pinto como a fortíssima Antígona; Madalena Martins e Sandra Fernandes como a fragilíssima Ismena; Creonte, o tirano -Sérgio Figueiredo - e o Corifeu - Tiago Botelho).
c) a questão do «feminismo» de Antígona, que nos levou numa visita muitíssimo bem documentada ao quotidiano da mulher na Antiga Grécia, bem como às mulheres excepcionais, que, de algum modo, desafiavam o Poder ou os costumes: Antígonas na filosofia, na coragem, no saber e na cultura.
Foi uma sessão maravilhosa por tudo isto. Pelo modo como se desenterrou um texto tão antigo, para se perceber que está vivo, e nos interpela, nos mostra, nos ensina. E as turmas presentes, 10º F e 11º F, será que gostaram tanto como nós?
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sexta-feira, 4 de março de 2011
Uma leitura e nada mais....
Já passou mais de um mês sobre o lançamento do livro Nada Mais e Ciúme, de Gil Duarte. Prometi ao editor e ao autor lê-lo, e escrever trezentas e trinta e oito palavras, tantas quantas as páginas do romance. Empolguei-me e são mais de quinhentas. Bom sinal este.
Perseguindo uma estratégia narrativa proustiana, cujo fulcro é a evocação alimentada pela memória de um narrador fortemente comprometido com situações testemunhadas e experienciadas, manifestando uma espécie de ethos e eros irónico-trágicos, sem faca e alguidar, acerca das relações pessoais e familiares, eis um dos eixos de narratividade de Nada Mais e o Ciúme.
O triângulo de relações estabelecido pelas personagens Bernardo, Dulce, Virgílio, fechado num círculo, que é a vida do narrador, é ensombrado pela tragicidade. Um triângulo dessa natureza, em Camilo, Eça, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, resolvia-se a tiros de bacamarte, com uma apoplexia, um corpo a boiar numa lagoa… anulando um dos lados do triângulo. Não enveredando por aí, o narrador sabe que o tempo tudo diluirá. Gil Duarte deixa que tudo apodreça por si como se o tempo fosse uma das personagens principais que silenciosamente atravessa o texto, a escrita. Uma espécie de tudo e nada mais donde sobressai o ciúme, outra centralidade do romance, sintetizado na frase final de Pedro (o narrador), proferida numa solidão cortante: “Tenho-lhe ciúmes. Saudades, não.”
Do ponto de vista do narrador, o que sobra do tempo de convivência, de partilha e cumplicidade é, apenas, o ciúme. Com efeito, este é resultado de relações próximas e de conflitualidade entre personagens que são e deixam de ser; são quase perfeitas, bafejadas pelo êxito, presenteadas pelo trágico e insólitos inesperados. Veja-se o caso do professor de matemática que ora se empolga ora desiste perante o desafio de saber, melhor, negar o movimento, como se, para descobrirmos se o movimento existe ou não, fosse necessário enfrentar um comboio, quando apenas um Toyota, num parque de estacionamento retira a vida a Leonor. Como se o ciúme fosse demonstrável e deduzido matematicamente, materializado numa fórmula brilhante, demonstração, afinal, do matemático que era: "tudo acaba menos o ciúme: o ciúme é a única coisa que resta quando já nada mais há” (p. 121). Este cepticismo lúcido e um racionalismo académico caracterizam Bernardo! Todavia, o ciúme é uma cristalização que resiste ao tempo. Esta formulação dá o título ao romance. É o resto de adições, subtracções, divisões... Gil Duarte apenas altera a ordem dos elementos da frase, estabelecendo um quase-silogismo. Certamente que o nada mais é "o tudo" que já não se tem, que já passou, que já não se suporta, as relações quebradas, mas sempre na perspectiva de se reatarem: Bernardo – Dulce – Virgílio - o próprio Pedro; Dulce e outras experiências dulcíssimas às quais Dulce não resiste porque ela, sim, é livre, não revela memória, vive o tempo, (a)parece sempre feliz. Infeliz, não. Por isso não cultiva o ciúme. A sua memória é linear, a dos outros é circular.
Enfim, o ciúme apresenta-se como mínimo denominador comum, quando já mais nada subsiste, sentimento ambivalente que promove e corrói.
A narrativa encanta pelo modo como o ethos (os costumes, os vários caracteres, entenda-se) e o eros convivem numa lógica de cio, mãe do ciúme, em qualquer sentido da sexualidade. Por vezes inveja, pelo menos da parte do narrador, também escritor como Virgílio. Mas quem não terá ciúmes de um Virgílio?
O triângulo de relações estabelecido pelas personagens Bernardo, Dulce, Virgílio, fechado num círculo, que é a vida do narrador, é ensombrado pela tragicidade. Um triângulo dessa natureza, em Camilo, Eça, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, resolvia-se a tiros de bacamarte, com uma apoplexia, um corpo a boiar numa lagoa… anulando um dos lados do triângulo. Não enveredando por aí, o narrador sabe que o tempo tudo diluirá. Gil Duarte deixa que tudo apodreça por si como se o tempo fosse uma das personagens principais que silenciosamente atravessa o texto, a escrita. Uma espécie de tudo e nada mais donde sobressai o ciúme, outra centralidade do romance, sintetizado na frase final de Pedro (o narrador), proferida numa solidão cortante: “Tenho-lhe ciúmes. Saudades, não.”
Do ponto de vista do narrador, o que sobra do tempo de convivência, de partilha e cumplicidade é, apenas, o ciúme. Com efeito, este é resultado de relações próximas e de conflitualidade entre personagens que são e deixam de ser; são quase perfeitas, bafejadas pelo êxito, presenteadas pelo trágico e insólitos inesperados. Veja-se o caso do professor de matemática que ora se empolga ora desiste perante o desafio de saber, melhor, negar o movimento, como se, para descobrirmos se o movimento existe ou não, fosse necessário enfrentar um comboio, quando apenas um Toyota, num parque de estacionamento retira a vida a Leonor. Como se o ciúme fosse demonstrável e deduzido matematicamente, materializado numa fórmula brilhante, demonstração, afinal, do matemático que era: "tudo acaba menos o ciúme: o ciúme é a única coisa que resta quando já nada mais há” (p. 121). Este cepticismo lúcido e um racionalismo académico caracterizam Bernardo! Todavia, o ciúme é uma cristalização que resiste ao tempo. Esta formulação dá o título ao romance. É o resto de adições, subtracções, divisões... Gil Duarte apenas altera a ordem dos elementos da frase, estabelecendo um quase-silogismo. Certamente que o nada mais é "o tudo" que já não se tem, que já passou, que já não se suporta, as relações quebradas, mas sempre na perspectiva de se reatarem: Bernardo – Dulce – Virgílio - o próprio Pedro; Dulce e outras experiências dulcíssimas às quais Dulce não resiste porque ela, sim, é livre, não revela memória, vive o tempo, (a)parece sempre feliz. Infeliz, não. Por isso não cultiva o ciúme. A sua memória é linear, a dos outros é circular.
Enfim, o ciúme apresenta-se como mínimo denominador comum, quando já mais nada subsiste, sentimento ambivalente que promove e corrói.
A narrativa encanta pelo modo como o ethos (os costumes, os vários caracteres, entenda-se) e o eros convivem numa lógica de cio, mãe do ciúme, em qualquer sentido da sexualidade. Por vezes inveja, pelo menos da parte do narrador, também escritor como Virgílio. Mas quem não terá ciúmes de um Virgílio?
Em síntese: o ciúme perdurará enquanto houver memória e desejo.
Findando. Desde o início, com a apresentação da brutal e insólita cena da morte de Leonor, outra ausente sempre presente, elemento pro-diegético por excelência, ou uma parte do todo que é o nada mais, até ao epílogo, somos envolvidos pela narratividade a vários tempos, vozes e ritmos que evidenciam uma técnica já apurada e consolidada.
Findando. Desde o início, com a apresentação da brutal e insólita cena da morte de Leonor, outra ausente sempre presente, elemento pro-diegético por excelência, ou uma parte do todo que é o nada mais, até ao epílogo, somos envolvidos pela narratividade a vários tempos, vozes e ritmos que evidenciam uma técnica já apurada e consolidada.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Cronivite
Nada melhor do que abrir a caixa do correio e ter um convite ou desafio.
Neste caso implica teclar algumas letras, palavras frases - teia infindável de sentimentos e sabores - que após um clique entram no convívio dos sentidos. Isto está muito metafísico! Nada melhor do que olhar, escutar... deixem-se de metafísicas que distrai. E numa altura destas andar distraído é perigoso por dois motivos: o primeiro, é que a distração em si é censurável, andas na Lua pá? Olha o candeeiro, o parquímetro, o fiscal do parquímetro, que é pior! O outro, é que um ser humano distraído não é deste mundo: deixa de apreciar o belo destes dias quase primaveris, quer eles quer elas. E mesmo atento, atento mesmo, mesmo, mesmo, olhai, atento que nem um penedo, uma antena, não impedes que te vão ao bolso descaradamente. Quanto mais distraído, mais subtraído!
Sinceramente! Não gosto de moralistas mas, para contrariar, deixo um conselho. Vivamos a vida, erguei taças às vossas crenças, amigos, esqueçamo-nos disto!
Neste caso implica teclar algumas letras, palavras frases - teia infindável de sentimentos e sabores - que após um clique entram no convívio dos sentidos. Isto está muito metafísico! Nada melhor do que olhar, escutar... deixem-se de metafísicas que distrai. E numa altura destas andar distraído é perigoso por dois motivos: o primeiro, é que a distração em si é censurável, andas na Lua pá? Olha o candeeiro, o parquímetro, o fiscal do parquímetro, que é pior! O outro, é que um ser humano distraído não é deste mundo: deixa de apreciar o belo destes dias quase primaveris, quer eles quer elas. E mesmo atento, atento mesmo, mesmo, mesmo, olhai, atento que nem um penedo, uma antena, não impedes que te vão ao bolso descaradamente. Quanto mais distraído, mais subtraído!
Sinceramente! Não gosto de moralistas mas, para contrariar, deixo um conselho. Vivamos a vida, erguei taças às vossas crenças, amigos, esqueçamo-nos disto!
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
NADA MAIS E O CIÚME
Do livro, direi que vale mesmo muito a pena ler (e ver, que é bem bonito!), que surpreende, pela singularidade do olhar sobre as personagens, pelas situações criadas, que prende pela construção da narrativa e, claro, pela escrita.

P.S. - Ainda há alguns exemplares, na Biblioteca
Direi também o que na sessão de apresentação -bem documentada em lugares diversos como ESTE e ESTE e ainda ESTE - no alvoroço do atraso, não encontrei oportunidade de dizer: que foi bom, aquele ambiente de festa e de amizade, que a escolha da Biblioteca, a cuja equipa o autor pertence e espaço de tantos encontros com a sua marca pessoalíssima, me deu enorme contentamento. Mais uma memória guardada por todos, com particular carinho!
Também queria ter dito que felicito sinceramente o Zé António, pela criatividade, pela coragem, que desejo muitos leitores ao seu livro. Que desejo outros livros ao autor.P.S. - Ainda há alguns exemplares, na Biblioteca
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
SOBRE O ERRO
Foi fascinante!
Na sua primeira visita à nossa Biblioteca, (há dois anos, já?), Gonçalo M. Tavares conduziu uma conferência invulgar, como tudo o que faz..., onde a escrita, a aceitação e a contestação, o certo e o errado, a imaginação e o real, tudo foi interrogado, virado do avesso, segundo uma lógica desconcertante.
Na sua primeira visita à nossa Biblioteca, (há dois anos, já?), Gonçalo M. Tavares conduziu uma conferência invulgar, como tudo o que faz..., onde a escrita, a aceitação e a contestação, o certo e o errado, a imaginação e o real, tudo foi interrogado, virado do avesso, segundo uma lógica desconcertante.
Desta vez, os felizardos participantes foram um grupo que não pôde ser muito alargado, formado por alunos de várias turmas do Secundário, e alguns professores. Foram eles participantes numa Oficina que teve como ponto de partida aquele que habitualmente não se considera o começo ideal, mas que ficou demonstrado ser exactamente uma das melhores formas de desencadear a criatividade. O erro.
Desenhem uma casa errada, pediu. Logo em seguida, saltou à vista que os erros menos aplaudidos são os mais banais. Curioso.
Inventem agora uma personagem para habitar essa casa, continuou, que seja criada por esse espaço.
Inventem agora uma personagem para habitar essa casa, continuou, que seja criada por esse espaço.
Assim, etapa atrás de etapa, cada uma mais inesperada que a outra, e ao mesmo tempo tão simples, a dizer "isto esteve sempre lá... não me digam que ainda não tinham visto?...", foram crescendo as histórias.
Como quem prepara uma viagem, com metade do gozo que ela lhe vai dar a realizar, tínhamos andado divertidíssimos a pedir aos leitores de Gonçalo M. Tavares que escolhessem uma estrofe, de Uma Viagem à Índia, e nela inscrevessem a sua marca pessoal, um sublinhado, uma nota, um rabisco. Claro que todos aceitaram, e claro que todos se queixaram da dificuldade da escolha! Ampliadas, essas páginas (poucas) formaram um percurso, desde a entrada da Escola até à Biblioteca. Uma forma de agradecer ao escritor, devolvendo-lhe, lidos, alguns dos seus escritos.
Agradecemos muito, muito, a Gonçalo M. Tavares.
E à Didi, que no-lo apresentou e o trouxe até nós, literalmente. E ao Zé António, o nosso Mercúrio. E à João, pelas notas artísticas que sempre acrescenta. E a todos os participantes.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
LIVROS e LEITORES
Outros dois encontros, em que as leituras pessoais estiveram também em destaque, seria imperdoável não divulgar: um ainda em Dezembro, exactamente na última semana de aulas, o outro logo a seguir ao pequeno-almoço com o senhor Descartes (ainda havia chá...).
Os alunos do 10º C, com a professora Maria João Lima, aceitaram deixar o espaço de conforto, como se diz agora, da sala de aula, e convidar outra turma, o 9º D, para assistir à apresentação de dois livros do contrato de leitura. Dois títulos de qualidade indiscutível, e muito diferentes entre si, sendo também muito diversas as abordagens realizadas. O grupo que falou sobre o romance de Marina Mayoral, Tristes Armas, trouxe vasta e variada informação, sobre a autora, claro, mas sobretudo sobre o fundo histórico em que a narrativa se constrói, a Guerra Civil de Espanha, realidade terrível, desconhecida para a maioria dos assistentes, e que aconteceu aqui tão perto e há tão pouco tempo. O segundo título, o clássico e belíssimo O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, prestava-se a uma leitura menos factual e mais simbólica. e foi exactamente o que fizeram ambos os alunos que a apresentaram, curiosamente feita individualmente, dando oportunidade ao confronto e complementaridade de duas perspectivas.
O segundo encontro foi o regresso da RODA DE LVROS do agora 11º B, que tanto nos tinha encantado, nas edições anteriores.
Um pouco entorpecida de início, a Roda demorou um nadinha a deslizar, mas, depois de começar, recuperou a já conhecida agilidade e leveza. Sem papéis nas mãos, a memória das páginas lidas, a visão crítica e pessoal, a conversa.
A turma está diferente, mas não está. Quer dizer, há algumas caras novas, mas parece que sempre pertenceram ao grupo, não se nota estranheza ou inibição. Se calhar, é um dos segredos para que as coisas corram tão bem!
Quanto aos livros, o primeiro foi o Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide, o conhecido e apaixonante clássico de Robert Louis Stevenson. Seguiu-se-lhe uma emocionada apresentação de Marina, o último romance editado em Portugal do catalão Carlos R. Zaffon, o autor de A Sombra do Vento. Já só houve tempo para o terceiro volume da tetralogia As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.
E resta-nos pedir para não demorar muito, a próxima RODA. Somos fãs!
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O RISCO DOS PEQUENOS-ALMOÇOS
Sim senhor, sim senhor. Hoje, tivémos a segunda visita de monsieur Descartes. 
Para mais duas turmas décimo-primeiro anistas, A e C, organizou a Biblioteca/CRE da escola um pequeno-almoço que, não desfazendo, correu particularmente bem.
Foram guiadores de visita os alunos, do 11º A, Diogo Cunha e Helena Cordeiro. As apresentações foram seguras e as intervenções dos mais diversos alunos eram de uma grande perspicácia, mesmo quando se fechavam numa certa teimosia. Mas não queria repetir o que já disse, em post anterior, acerca da sessão em si mesma. Portanto, conto antes que, há dias, quando, na aula, descrevia à turma o que se iria passar nesse pequeno-almoço a sério, onde, à volta da
mesa, conversaríamos acerca da filosofia de René Descartes, o Diogo Cunha seguia o meu entusiasmo com um olhar céptico. Como se pensasse para os seus botões: «Hum! Tanta lantejoula para quê?»
Hoje, após a sessão, não resisti e perguntei-lhe: «Então, que tal?»; e assim falou o Diogo, parando de mastigar a tosta com compota que, visivelmente, lhe estava a saber muito bem: «Foi excelente!»; retruquei (grande palavra): «Sim, mas confesse lá. O Diogo estava muito deconfiado, não estava?»; e ele: «Porque era um risco, professor. Correu-
se um risco: parecia-me uma daquelas ideias que se, na prática correm mal, dão muito mau resultado...»
Eu sei. A afirmação do Diogo não foi uma crítica, mas um elogio: reconhecer que toda a diferença implica algum risco - e, já agora, que a Biblioteca da escola é, e tem sido, desde há muitos anos, um lugar onde se correm riscos, e se sofrem frustrações, claro, mas se realizam sessões ímpares, é o maior elogio que pode ser feito. Ainda bem que o chá vos soube bem. Descartes, de onde quer que vos viu, gostou certamente do que viu.
Para mais duas turmas décimo-primeiro anistas, A e C, organizou a Biblioteca/CRE da escola um pequeno-almoço que, não desfazendo, correu particularmente bem.
Foram guiadores de visita os alunos, do 11º A, Diogo Cunha e Helena Cordeiro. As apresentações foram seguras e as intervenções dos mais diversos alunos eram de uma grande perspicácia, mesmo quando se fechavam numa certa teimosia. Mas não queria repetir o que já disse, em post anterior, acerca da sessão em si mesma. Portanto, conto antes que, há dias, quando, na aula, descrevia à turma o que se iria passar nesse pequeno-almoço a sério, onde, à volta da
Hoje, após a sessão, não resisti e perguntei-lhe: «Então, que tal?»; e assim falou o Diogo, parando de mastigar a tosta com compota que, visivelmente, lhe estava a saber muito bem: «Foi excelente!»; retruquei (grande palavra): «Sim, mas confesse lá. O Diogo estava muito deconfiado, não estava?»; e ele: «Porque era um risco, professor. Correu-
Eu sei. A afirmação do Diogo não foi uma crítica, mas um elogio: reconhecer que toda a diferença implica algum risco - e, já agora, que a Biblioteca da escola é, e tem sido, desde há muitos anos, um lugar onde se correm riscos, e se sofrem frustrações, claro, mas se realizam sessões ímpares, é o maior elogio que pode ser feito. Ainda bem que o chá vos soube bem. Descartes, de onde quer que vos viu, gostou certamente do que viu.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
PEQUENO-ALMOÇO COM DESCARTES
A manhã do dia 17 foi marcada por uma surpresa que esperava, na Biblioteca, alguns alunos de 11ºs anos (E, F): um pequeno-almoço.
No lugar sagrado que é uma Biblioteca estava-se perante a possibilidade de uma refeição que também só poderia ser uma refeição sagrada, uma oferenda, um ritual: chá, tostas com compota ou mel e biscoitos constituíram os alimentos de um pequeno-almoço em que o convidado central foi o filósofo René Descartes.
O pretexto era a leitura de um livro, que encontram na Biblioteca, e cujo título é Pequeno-almoço com Sócrates. O título é deliberadamente redutor, aludindo simplesmente a um conceito: «Sócrates» não é Sócrates, é todos os filósofos sobre que o livro vai falando - e, já agora, «pequeno-almoço» também não é só o pequeno-almoço, mas símbolo de todas as actividades corriqueiras e quotidianas (como ir ao ginásio, preparar uma festa, fazer compras, discutir com o parceiro...) que preenchem mecanicamente a nossa existência. Não pensamos acerca delas: e, todavia, são pensáveis, na sua significação filosófica ou nas perplexidades em que nos envolvem quando sobre elas reflectimos. Mais: o autor mostra-nos como, de algum modo, os mais simples actos humanos, nas suas implicações éticas e políticas, já foram matéria de uma meditação por parte dos filósofos, desde Sócrates até aos contemporâneos.
Dois alunos do 11º E guiaram a conversa: a Mariana Amor e o João Ramos, em torno da ideia do «acordar», suscitavam perguntas que, a cada passo, nos transportavam para Descartes. O fantasma do filósofo acompanhava o diálogo. E se não interveio directamente, os seus problemas foram invocados. E debatidos.
Proximamente, haverá um outro pequeno-almoço. Valha-nos Descartes!
No lugar sagrado que é uma Biblioteca estava-se perante a possibilidade de uma refeição que também só poderia ser uma refeição sagrada, uma oferenda, um ritual: chá, tostas com compota ou mel e biscoitos constituíram os alimentos de um pequeno-almoço em que o convidado central foi o filósofo René Descartes.
O pretexto era a leitura de um livro, que encontram na Biblioteca, e cujo título é Pequeno-almoço com Sócrates. O título é deliberadamente redutor, aludindo simplesmente a um conceito: «Sócrates» não é Sócrates, é todos os filósofos sobre que o livro vai falando - e, já agora, «pequeno-almoço» também não é só o pequeno-almoço, mas símbolo de todas as actividades corriqueiras e quotidianas (como ir ao ginásio, preparar uma festa, fazer compras, discutir com o parceiro...) que preenchem mecanicamente a nossa existência. Não pensamos acerca delas: e, todavia, são pensáveis, na sua significação filosófica ou nas perplexidades em que nos envolvem quando sobre elas reflectimos. Mais: o autor mostra-nos como, de algum modo, os mais simples actos humanos, nas suas implicações éticas e políticas, já foram matéria de uma meditação por parte dos filósofos, desde Sócrates até aos contemporâneos.
Dois alunos do 11º E guiaram a conversa: a Mariana Amor e o João Ramos, em torno da ideia do «acordar», suscitavam perguntas que, a cada passo, nos transportavam para Descartes. O fantasma do filósofo acompanhava o diálogo. E se não interveio directamente, os seus problemas foram invocados. E debatidos.
Proximamente, haverá um outro pequeno-almoço. Valha-nos Descartes!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
MISTÉRIOS
Com grande probabilidade, o leitor terá já assistido, no meio de um jantar com amigos, à seguinte discussão - a certa altura, alguém se pronuncia sobre o algarismo suplementar que os bilhetes de identidade passaram a ter de há uns anos para cá, mais ou menos nos seguintes termos: «O algarismo suplementar que se segue ao número do BI indica o número de pessoas em Portugal que têm um nome exactamente igual ao do portador do BI.»
Quando confrontado com o absurdo de tal afirmação (por exemplo, o algarismo suplementar do meu BI é 9 e posso comprovar que sou a única pessoa no mundo, não apenas em Portugal, com o nome de Jorge Buescu), talvez o interlocutor diga algo do género «mas fui informado por fonte seguríssima de que é assim». Ou talvez prefira mudar de assunto. (...) Afinal de contas, o que representa o misterioso algarismo suplementar que se segue ao número do nosso BI?
Quando confrontado com o absurdo de tal afirmação (por exemplo, o algarismo suplementar do meu BI é 9 e posso comprovar que sou a única pessoa no mundo, não apenas em Portugal, com o nome de Jorge Buescu), talvez o interlocutor diga algo do género «mas fui informado por fonte seguríssima de que é assim». Ou talvez prefira mudar de assunto. (...) Afinal de contas, o que representa o misterioso algarismo suplementar que se segue ao número do nosso BI?
A pergunta com que o texto finaliza serve apenas de introdução ao mistério apresentado pelo professor Jorge Buescu, que todos os alunos do oitavo ano, em sessões distribuídas ao longo de várias semanas, foram desafiados a decifrar, acompanhados pelas professoras Inês Alegria e Teresa Jerónimo. A recebê-los, duas professoras da equipa da Biblioteca, uma de Biologia e uma de Português, a confirmar, mais uma vez, o que nunca é suficientemente repetido, pensar e aprender não são actividades que devam estar arrumadas em gavetas separadas, mas sim em espaços amplos e totalmente comunicantes.
Como seria de esperar, começámos pela leitura. O excerto, retirado do livro, Mistérios do Bilhete de Identidade e Outras Histórias , começou por assustar um pouco: "Tão grande!" foi um dos desabafos repetidos, no entanto, rapidamente se percebeu que ler em companhia, conversando sobre, esclarecendo, faz evaporar grande parte das dificuldades.
Porquê? Os alunos do oitavo ano já sabem a resposta.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
tolstoi, cem anos passados
dia dezoito de novembro, pelas dez da matina, se não estou erro, e aceite um mui-interessante convite do professor josé pacheco para comemorar, à maneira já habitual da biblioteca, o século da morte desse gigante literário cuja tradução do nome para a língua lusitana é leão tolstoi, procedeu-se à sessão propriamente dita. e aquele tipo era mesmo um leão! na nossa pequenez de compreensão e espírito, tentámos desvendar, por entre o manto diáfano da fantasia que são as obras-primas que lev, esqueçamos o por vezes ridículo leão, tolstoi deixou à humanidade, as mensagens que se lêem nas entrelinhas. e não são poucas. terminada a leitura de uma obra como guerra e paz, a primeira reacção poderá ser a seguinte,
é isto a guerra e paz?
mas com o passar do tempo chegará a conclusão de que nada mais na história da literatura universal alcançou aquele patamar. porque aquele livro tem tudo. não só guerra e paz, mas também amor, traição, ciúme, desejo, ira, amizade, vício, maldade, filosofia, política, estratégia, inveja e, sobretudo, uma procura incansável do sentido da vida.
quanto à sessão, julgo que tudo foi pelo melhor. e a originalidade da sessão consistiu precisamente na sua apresentação, pois ela repartiu-se pela minha pessoa e pela do professor josé pacheco. corroborámo-nos, completámo-nos, ajudámo-nos. no entusiasmo que a sessão suscitou, leram-se excertos da obra, sugeriram-se romances do autor e discutiram-se até teorias improváveis sobre a morte do génio. depois, falou-se do homem, do escritor, da obra, da guerra e paz, em particular, de napoleão e das suas campanhas militares, das personagens e, claro, de pierre, desse pequeno grande homem, que se perdoe a referência ao romance de thomas berger, a quem já ouvi descrever como sendo um tontinho que não sabe o que quer da vida. por muito redutor que isto possa parecer, é a pura das verdades. pois não somos nós todos uns tontinhos que não sabemos o que queremos da vida? sim, somos, mas é com homens como tolstoi que aprendemos, nem que seja somente um pouquinho, a lidar melhor com nossa pesarosa existência. e se, como disse blaise pascal, na vida não há nada de bom salvo a esperança de uma outra vida, então sempre podemos esperar que ela venha acompanhados pela literatura que tolstoi nos legou. sim, o leão morreu há cem anos. mas muitos cem anos passarão até a sua literatura se perder no vácuo que prevalecerá sobre tudo.
é isto a guerra e paz?

mas com o passar do tempo chegará a conclusão de que nada mais na história da literatura universal alcançou aquele patamar. porque aquele livro tem tudo. não só guerra e paz, mas também amor, traição, ciúme, desejo, ira, amizade, vício, maldade, filosofia, política, estratégia, inveja e, sobretudo, uma procura incansável do sentido da vida.
quanto à sessão, julgo que tudo foi pelo melhor. e a originalidade da sessão consistiu precisamente na sua apresentação, pois ela repartiu-se pela minha pessoa e pela do professor josé pacheco. corroborámo-nos, completámo-nos, ajudámo-nos. no entusiasmo que a sessão suscitou, leram-se excertos da obra, sugeriram-se romances do autor e discutiram-se até teorias improváveis sobre a morte do génio. depois, falou-se do homem, do escritor, da obra, da guerra e paz, em particular, de napoleão e das suas campanhas militares, das personagens e, claro, de pierre, desse pequeno grande homem, que se perdoe a referência ao romance de thomas berger, a quem já ouvi descrever como sendo um tontinho que não sabe o que quer da vida. por muito redutor que isto possa parecer, é a pura das verdades. pois não somos nós todos uns tontinhos que não sabemos o que queremos da vida? sim, somos, mas é com homens como tolstoi que aprendemos, nem que seja somente um pouquinho, a lidar melhor com nossa pesarosa existência. e se, como disse blaise pascal, na vida não há nada de bom salvo a esperança de uma outra vida, então sempre podemos esperar que ela venha acompanhados pela literatura que tolstoi nos legou. sim, o leão morreu há cem anos. mas muitos cem anos passarão até a sua literatura se perder no vácuo que prevalecerá sobre tudo.
domingo, 21 de novembro de 2010
AS MÃOS, AS PALAVRAS E OS FRUTOS
Quero acreditar que o Eugénio de Andrade me perdoaria o abuso do seu título, se tivesse assistido à oficina animadíssima que, logo de manhãzinha, encheu a Biblioteca de cores, aromas, risos e ideias a crescer por todos os lados. 
É preciso primeiro explicar que o 9º E está mais uma vez a pôr à prova a sua criatividade (lembram-se das ilustrações de poemas e dos DVDs gravados no ano passado?). O ponto de partida, desta vez, foi o envolvimento da turma no Programa Pessoa e, em E.V., a escolha de um fruto por cada um dos alunos, que já o desenhou e já procurou, também, as palavras mais certas para o descrever. Alguns já tinham também pesquisado títulos de livros e de poemas contendo nomes de frutos, quando, na passada quinta-feira, nos reunimos para mais uma sessão dedicada a saborear o prazer da leitura e da escrita.
Dos textos lidos, o primeiro um diálogo muito invulgar, em que um certo Virgílio se esforça por explicar a uma certa Beatriz como é uma pera (Yann Martel, Beatriz e Virgílio, ed. Presença),o segundo retirado de mais um daqueles livros em que a imaginação e o nonsense de Roald Dahl dão resultados sempre imprevisíveis (James e o Pessegueiro Mágico, ed. Terramar), aqui fica um breve fragmento:
BEATRIZ: Mas a que sabe? Não aguento mais.
VIRGÍLIO: Uma pêra madura transborda de suculência doce.
BEATRIZ: Oh, isso parece bom.
VIRGÍLIO: Corta uma pêra e verás que a sua polpa é de um branco incandescente. Brilha com uma luz interior. Aqueles que trazem consigo uma faca e uma pêra nunca têm medo do escuro.
BEATRIZ: Tenho de provar uma.
VIRGÍLIO: A textura de uma pêra, a sua consistência, é outra coisa difícil de pôr em palavras. Algumas peras são um tudo-nada crocantes.
BEATRIZ: Como uma maçã?
VIRGÍLIO: Não, nada parecido com uma maçã! Uma maçã resiste a ser comida. Uma maçã não é comida, é conquistada. A qualidade crocante de uma pêra é muito mais atraente. É generosa e frágil. Comer uma pêra é semelhante a... beijar.
BEATRIZ: Oh, céus! Parece tão bom.
VIRGÍLIO: A polpa de uma pêra pode ser ligeiramente granulosa. Contudo, derrete-se na boca.
BEATRIZ: Tal coisa é possível?
VIRGÍLIO: Com todas as peras. E isso é só o aspecto, o toque, o cheiro, a textura. Ainda nem te falei do sabor.
BEATRIZ: Meu Deus!
VIRGÍLIO: O sabor de uma boa pêra é tal que, quando se come, quando os nossos dentes mergulham na beatitude da polpa, isso torna-se uma actividade absorvente. Não se quer fazer mais nada além de comer a nossa pêra. Prefere-se estar sentado do que em pé. Prefere-se estar só do que acompanhado. Prefere-se o silêncio à música. Todos os sentidos, excepto o paladar, ficam inactivos. Não se vê nada, não se ouve nada, não se sente nada... ou apenas na medida em que nos ajude a apreciar o sabor divinal da nossa pêra.
BEATRIZ: Mas a que sabe ao certo?

É preciso primeiro explicar que o 9º E está mais uma vez a pôr à prova a sua criatividade (lembram-se das ilustrações de poemas e dos DVDs gravados no ano passado?). O ponto de partida, desta vez, foi o envolvimento da turma no Programa Pessoa e, em E.V., a escolha de um fruto por cada um dos alunos, que já o desenhou e já procurou, também, as palavras mais certas para o descrever. Alguns já tinham também pesquisado títulos de livros e de poemas contendo nomes de frutos, quando, na passada quinta-feira, nos reunimos para mais uma sessão dedicada a saborear o prazer da leitura e da escrita.
Dos textos lidos, o primeiro um diálogo muito invulgar, em que um certo Virgílio se esforça por explicar a uma certa Beatriz como é uma pera (Yann Martel, Beatriz e Virgílio, ed. Presença),o segundo retirado de mais um daqueles livros em que a imaginação e o nonsense de Roald Dahl dão resultados sempre imprevisíveis (James e o Pessegueiro Mágico, ed. Terramar), aqui fica um breve fragmento:
BEATRIZ: Mas a que sabe? Não aguento mais.
VIRGÍLIO: Uma pêra madura transborda de suculência doce.
BEATRIZ: Oh, isso parece bom.
VIRGÍLIO: Corta uma pêra e verás que a sua polpa é de um branco incandescente. Brilha com uma luz interior. Aqueles que trazem consigo uma faca e uma pêra nunca têm medo do escuro.
BEATRIZ: Tenho de provar uma.
VIRGÍLIO: A textura de uma pêra, a sua consistência, é outra coisa difícil de pôr em palavras. Algumas peras são um tudo-nada crocantes.
BEATRIZ: Como uma maçã?
VIRGÍLIO: Não, nada parecido com uma maçã! Uma maçã resiste a ser comida. Uma maçã não é comida, é conquistada. A qualidade crocante de uma pêra é muito mais atraente. É generosa e frágil. Comer uma pêra é semelhante a... beijar.
BEATRIZ: Oh, céus! Parece tão bom.
VIRGÍLIO: A polpa de uma pêra pode ser ligeiramente granulosa. Contudo, derrete-se na boca.
BEATRIZ: Tal coisa é possível?
VIRGÍLIO: Com todas as peras. E isso é só o aspecto, o toque, o cheiro, a textura. Ainda nem te falei do sabor.
BEATRIZ: Meu Deus!
VIRGÍLIO: O sabor de uma boa pêra é tal que, quando se come, quando os nossos dentes mergulham na beatitude da polpa, isso torna-se uma actividade absorvente. Não se quer fazer mais nada além de comer a nossa pêra. Prefere-se estar sentado do que em pé. Prefere-se estar só do que acompanhado. Prefere-se o silêncio à música. Todos os sentidos, excepto o paladar, ficam inactivos. Não se vê nada, não se ouve nada, não se sente nada... ou apenas na medida em que nos ajude a apreciar o sabor divinal da nossa pêra.
BEATRIZ: Mas a que sabe ao certo?
Depois foi a folha em branco, o sossego instalando-se a pouco e pouco, as mãos que já desenharam os frutos pegando nos lápis hesitantes, as palavras e frases a despontarem, os textos a ganharem forma, consistência, sabor.
Não vai ficar por aqui este trabalho, a professora Maria João Cortegaça reservou a parte mais surpreendente para o final.
Não vai ficar por aqui este trabalho, a professora Maria João Cortegaça reservou a parte mais surpreendente para o final.
Estejam atentos!
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
UMA HORA DE LEITURA
Todos conhecemos o nome do chileno Antonio Skármeta como o autor do maravilhoso O Carteiro de Pablo Neruda. Pois bem, está aí um novo livro, igualmente terno e comovente, e igualmente desprovido de qualquer tentação piegas.Um Pai de Filme conta a história de um jovem professor primário de uma remota aldeia chilena, com a cabeça cheia de sonhos literários e desejos de conhecer o amor e a vida. É uma brevíssima narrativa (menos de 100 páginas) que nos proporciona uma hora de puro prazer de leitura.
Na apresentação do seu livro, hoje, na Livraria Buccholz, Antonio Skármeta, muito divertido, confessou que, tendo começado por escrever um romance com mais de 300 páginas, acabou por ir cortando, cortando, até chegar a esta história curta, que deixa espaço para o leitor respirar e sonhar. O actor André Gomes (que representou Pablo Neruda na peça encenada há uns anos pelo Grupo de Teatro de Almada) leu páginas do livro.
Tenho a certeza de que, a esta hora, todos os que estavam naquela sala, já leram, de um fôlego, Um Pai de Filme de Antonio Skármeta.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
FIAMA
A propósito do Colóquio "Fiama Hasse Pais Brandão", a que assistimos nos dias 29 e 30 de Outubro, na Casa Fernando Pessoa - e no qual foi lançada a antologia Âmago - deixamos aqui um poema revelador de uma das grandes vozes da poesia portuguesa da 2.ª metade do século XX.

Chamar-Te é um sopro. O assobio
dos pássaros na enseada.
Baixa a colina agora e segue
o fio da minha voz. O azul do mar
assimila-nos a si. O Teu
nome vai perder-se no estuário
que nós víamos do cimo
da muralha. Desprezo o eco. Nada
Te chegará de tudo isto
que é o real. Ventos, sons, o mar,
a voz são uma mancha inconsis-
tente no único espaço que nos une.

Chamar-Te é um sopro. O assobio
dos pássaros na enseada.
Baixa a colina agora e segue
o fio da minha voz. O azul do mar
assimila-nos a si. O Teu
nome vai perder-se no estuário
que nós víamos do cimo
da muralha. Desprezo o eco. Nada
Te chegará de tudo isto
que é o real. Ventos, sons, o mar,
a voz são uma mancha inconsis-
tente no único espaço que nos une.
Fiama Hasse Pais Brandão
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
PESSOAL...E TRANSMISSÍVEL
Às vezes acontece-nos o privilégio de receber ao vivo e a cores convidados fascinantes, com a rara capacidade de abrir intervalos no meio das suas agendas sobrecarregadas, para conversar com estudantes do Secundário e revelar pedacinhos do seu muito saber e invejável experiência.
Na passada 2ª feira, visitou-nos Carlos Vaz Marques, autor do "Pessoal... e Transmissível"- programa da TSF que todos os apreciadores de uma boa entrevista conhecem e recomendam - colaborador do Jornal de Letras, da revista LER, responsável por uma colecção de títulos de literatura de viagens, e tradutor de alguns, moderador do imperdível "Governo Sombra", programa de sátira política entre cujos ministros se conta o fedorento Araújo Pereira, anfitrião do "Café com Letras", actividade regular das Bibliotecas Municipais de Oeiras, vencedor do prémio Ilídio Pinho, nada mais nada menos que o maior prémio de jornalismo atribuído em Portugal... Ufa! Tudo isto, e muito mais, num jovem que ainda no outro dia era aluno do Liceu Camões, onde teve como professora de Português a (nossa) Elisa Costa Pinto, que, evidentemente, se encarregou de apresentar orgulhosamente (babadamente, confessou ela) o jornalista às três turmas reunidas n
a Biblioteca para o conhecer.
Carlos Vaz Marques falou sobretudo das entrevistas de rádio. (Espantou-nos desde logo saber que é o único responsável pela sua preparação, quando se imaginaria, perante a profundidade das entrevistas e a lista de entrevistados, tão variada e extensa, uma equipa de retaguarda a fazer o exaustivo trabalho de pesquisa). Disse gostar particularmente de entrevistar pessoas que "não dizem o que se está à espera" - encontrando-se os escritores, naturalmente, entre os mais desafiantes - e também de trazer ao conhecimento do grande público pessoas que não aparecem frequentemente nos media, "aves raras", no melhor sentido da expressão.
Muitos de nós nunca tinhamos pensado na diferença entre as entrevistas "de combate"- em que, no dizer do nosso convidado, o jornalista substitui todos os que gostariam de poder estar ali, a colocar perguntas muitas vezes incómodas, a pessoas com responsabilidades governativas, por exemplo - e as outras, em que o entrevistador não pode exigir, antes tentando seduzir, entender, empatizar.
E Carlos Vaz Marques, nisso, é mestre. A nós encantou-nos!
P.S. - Graças à santa internet, podemos ouvir a qualquer hora os programas de rádio referidos. Basta ir ao sítio da TSF.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
CASA DE AFECTOS
Leio (com gosto) os últimos textos aqui chegados, penso como provam vivamente que os livros e as suas casas são laços. Não gaiolas onde eremitas macambúzios se encerram, mas formas, espaços, de abrir as mentes e os corações aos outros, ao Outro.
Vem isto a propósito de uma sessão muito especial que na semana passada aconteceu. Como aconteceu?
Começou pela discussão, numa aula de Formação Cívica, sobre o drama vivido pelos mineiros chilenos, as diferentes emoções que experimentariam ao longo de tantas semanas de enclausuramento, a forma inteligente e solidária como souberam lutar pela sobrevivência, como cada um reagiria se se encontrasse numa situação mesmo que muito remotamente semelhante.
Depois, mas ainda antes de se conhecer o feliz desfecho desta história, o encontro teve lugar na Biblioteca, onde, partindo da leitura de um artigo de jornal, procurámos entender mais completamente as implicações emocionais e físicas de uma tão longa permanência no interior da terra.
Alguns factos tornaram-se-nos muito evidentes: a permanente ligação ao exterior, a presença esperançosa, perseverante, das famílias, mas também os olhos do mundo postos na mina de San Jose desempenharam um papel determinante na forma como tudo aconteceu. Por outro lado, percebemos que os próximos tempos vão ser ainda de duro combate por parte dos 33 mineiros, não irá ser sem sobressaltos a readaptação à vida "normal".
Tudo isto, e ainda mais a urgência de fazer alguma coisa, alguma coisa que tornasse material a nossa solidariedade, levou à escrita das cartas para o Chile, repletas de admiração e abraços, dos alunos do 8ºE.
BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS
«Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem [1], desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos [2], dos que temos vontade de reler por puro prazer [3], dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar [4], dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir [5], etc.»
Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas
Encontro, na minha biblioteca, um exemplo de cada um dos casos referidos.
1. Ulisses, James Joyce
2. Pedro Páramo, Juan Rulfo
3. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
4. Os Maias, Eça de Queirós
5. Vitorino Nemésio
Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas
Encontro, na minha biblioteca, um exemplo de cada um dos casos referidos.
1. Ulisses, James Joyce
2. Pedro Páramo, Juan Rulfo
3. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
4. Os Maias, Eça de Queirós
5. Vitorino Nemésio
terça-feira, 19 de outubro de 2010
PARA O EDUARDO PRADO COELHO
Ele foi o Mestre de uma geração inteira de alunos de Literatura. Para uns sedutor, para outros incomodamente erudito e hermético, para mim, o Mestre. Fico feliz por ter tido a coragem e o tempo de lho dizer num jantar informal, num pequeno restaurante em frente à Casa Fernando Pessoa, uns meses antes da sua morte.No passado domingo, o CCB dedicou-lhe um dia. Foi uma homenagem muito afectiva - ele era um distribuidor de afectos - e também muito leve, apesar da sua ausência. Como ele teria gostado. A sala estava cheia de amigos que convocaram o EPC com a leitura de textos seus. Ternos, divertidos, sérios, um pouco de frivolidade em alguns. Ousadia noutros. E sempre a palavra literária, plástica, inesperada. Ele era assim.
Convido à leitura de uma crónica, bem adequada a este espaço.
A BIBLIOTECA
Há-de haver um último livro. Lembro-me do meu pai, já perto do fim, sentado na cama: lia Santo Agostinho. Converteu-se? Penso que não. Mas procurava outra coisa. Demasiado tarde, é claro – como sempre. Chegamos sempre no final da festa.
“Os livros são um problema” – quantas vezes ouvimos esta frase? Ela tornou-se tão banal que, de certo modo, foi amaciando o verdadeiro problema que eles, os livros que se acumulam, são. Toda a minha vida senti um alvoroço quando numa livraria encontrei um livro que não esperava. Visitei cidades onde passava horas nas livrarias, olhando as estantes, e arrastando comigo aquela culpa de não estar a ver o mar, de não sentir no corpo o bater das ondas, de não adormecer no chão das florestas. Quantas vezes não ouvi a campainha da porta tocar e sentia o estremecimento que me anunciava que novos livros iam chegar? Ainda hoje. Ainda hoje um pacote de livros constitui uma festa. A promessa de uma festa que demoradamente se despede de si mesma.
Até que, rodeado de livros por todos os lados, decidi que iria oferecer uma parte a uma biblioteca. As bibliotecas públicas são hoje um lugar de animação cultural – quer isto dizer um lugar de vida. Ainda noutro dia pude ler a descrição de um grupo de crianças que passaram a noite nas instalações da biblioteca de Oeiras: letras, jogos, palavras, sonhos, anjos de papel. A biblioteca de Oeiras é hoje dirigida por um amigo: Filipe Leal. Oeiras, Carnaxide, Algés. Achei que lhes podia propor que ficassem com alguns dos meus livros. Partiram já cerca de 3000. Talvez mais tarde partam mais.
Mas é tão difícil escolher os livros que nos vão deixar…
Olhando para cada um, sinto o momento em que o comprei, a livraria em que o vi, o café onde o folheei, a praia onde o li, a cama em que ele, já no chão, vigiou o meu sono habitado de palavras mágicas. Outros, tantos outros, nem os cheguei a ler. Foram hóspedes de passagem, estiveram anos em minha casa, acompanharam-me de Paris para Lisboa, e agora separamo-nos porque não satisfizeram o meu critério decisivo: “Será um livro fundamental? Será que ainda tenho tempo para o ler?” Vejo o livro envelhecido e sinto a tristeza que nele se acumula por essa espécie de injustiça de eu não o considerar essencial. Parece que ouço um queixume. Há uma caixa de cartão para onde ele deve ir, condenado pelo meu juízo impiedoso, mas talvez secretamente feliz pelo facto de poder vir a ser útil ao reformado que procura um momento de distracção, ao investigador que já não esperava pela informação que ele contém, à criança que nele aprende o território das invenções sem fim. Vou esquecê-lo. Vou esquecer em mim a alegria que me deu.
Há-se haver um livro – um último rosto, um último objecto, um último corpo. Há-de haver um último livro – até que a porta da biblioteca se feche definitivamente.
Eduardo Prado Coelho, “O Fio do Horizonte”, in Público, 9 de Abril de 2004
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
ANIVERSÁRIO DE ÁLVARO DE CAMPOS

Hoje é dia aniversário de Álvaro de Campos, o heterónimo que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890. (Por isso se realiza, nessa cidade, o I Encontro Internacional Álvaro de Campos).
A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!
A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!
Para além disso, transcrevemos alguns versos da "Ode Marítima", em homenagem ao mar de Tavira, onde Campos nasceu, ao mar de Lisboa, que Campos amou, ao mar de Glasgow, onde Campos estudou engenharia naval.
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
(............................................................................)
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
LUÍSA E TEODORA
Num encontro proporcionado pela Biblioteca Municipal de Carnaxide, a autora conversou, contou bocadinhos das suas histórias, revelou episódios que serviram de matéria a algumas das aventuras da pequena Teodora. Falou da sua infância e, como não podia deixar de ser, porque ninguém escreve sem ter lido muito, e quem gosta de escrever é, em geral, um grande leitor, falou também de leituras marcantes, em diversos momentos da vida.
A provar que o pensamento e a imaginação desobedecem sempre às fronteiras artificiais que os nossos preconceitos às vezes lhes impõem, revelou que foi uma cadeira da sua licenciatura em Educação Física que lhe aguçou o interesse pela cultura/literatura tradicional portuguesa, fonte inesgotável de inspiração. Não ignorando a mitologia clássica, absorvendo também gentes e viagens.



À pergunta colocada por um aluno, respondeu ter começado a escrever porque inventava histórias para os filhos, quando eram mais pequenos, e depois deu-lhes forma impressa. Contava-lhes muitas histórias, porque queria que eles viessem a ser leitores. Por que seria?
terça-feira, 12 de outubro de 2010
UM MÊS DEPOIS
Como fazemos questão de repetir em cada início de ano, abrimos as portas e as expectativas às turmas do 7º, em sessões de apresentação e boas vindas. Novos rostos, vozes, histórias, para nós o recomeço, a renovação, novas linhas na nossa fisionomia.
Quase todos ficarão connosco durante seis anos bem importantes nas suas vidas, em todos esperamos deixar as melhores recordações.
Acompanhados pelas professoras Céu Ribeiro e Teresa Silva, em Português, e Adelaide Pereira, em EAC, contaram de onde vêm, como usavam as Bibliotecas das suas antigas Escolas, partilharam gostos e opiniões.
Compenetrados, conheceram o Regulamento. Em silêncio atento, escutaram um história "de adormecer anjos", o conto "Sábios como Camelos" do angolano José Eduardo Agualusa, que escreveu o espantoso Estranhões & Bizarrocos, com ilustrações de Henrique Cayate. (Temos...) Depois, vasculharam estantes, em busca de autores que, à semelhança dos da biblioteca ambulante do grão-vizir, estão arrumados de A a Z. Alguns já voltaram para responder a um inquérito e escolher livros, sobre os quais mais tarde iremos conversar.
Gostámos de vos conhecer!
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
NOBEL PARA MARIO VARGAS LLOSA
Grande escritor equatoriano, um dos maiores da língua castelhana, Mario Vargas Llosa recebe, finalmente, o Nobel da Literatura que, segundo a crítica, há muito lhe era devido. Depois dos chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, do colombiano Gabriel García Márquez, do mexicano Octavio Paz, Vargas Llosa oferece à riquíssima literatura latinoamericana o galardão máximo.
Queremos aqui homenageá-lo da melhor maneira que conhecemos para homenagear um escritor: lê-lo e dá-lo a ler.
Transcrevemos, pois, uns parágrafos do início do seu romance Travessuras da Menina Má, de 2006.
Aconteceram coisas extraordinárias naquele Verão de 1950. Cojinoba Lanas atirou-se pela primeira vez a uma rapariga - a ruiva Seminauel - e esta, ante a surpresa de Miraflores inteiro, disse-lhe que sim. Cojinoba esqueceu-se do seu coxear e andava desde então pelas ruas a fazer peito como um Charles Atlas. Tico Tiravante acabou o namoro com Ilse e atirou-se a Laurita, Victor Ojeda atirou-se a Ilse e acabou com Inge, Juan Barreto atirou-se a Inge e acabou com Ilse. Houve uma tal recomposição sentimental no bairro que andávamos aturdidos, os namoros desfaziam-se e refaziam-se e ao sair das festas dos sábados os pares nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. "Que relaxação!", escandalizava-se a minha tia Alberta, com quem eu vivia desde a morte dos meus pais.
As ondas dos banhos de Miraflores quebravam duas ao longe, a primeira a duzentos metros da praia, e era até aí que nós, os valentes, íamos abatê-las a peito, e deixávamo-nos arrastar uns cem metros, até onde as vagas morriam só para se reconstituírem em airosas ondulações e quebrarem de novo, numa segunda rebentação que nos fazia deslizar, aos que fazíamos carreirinhas nas ondas, até às pedrinhas da praia.
Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores toda a gente deixou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terramoto que pôs todos os pares infantis, adolescentes e maduros a saltar, pular, fazer figuras, nas festas do bairro. E a mesma coisa acontecia certamente fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, no centro de Lima, no Rímac e no Porvenir, onde nós, os miraflorinos, nunca tínhamos posto os pés nem pensávamos ter de pôr.
E assim como das valsinhas e das huarachas, dos sambas e das polcas tínhamos passado ao mambo, passámos também dos patins e das trotinetas à bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo, por exemplo, à mota, e inclusivamente um ou dois ao automóvel, como o matulão do bairro, Luchín, que roubava às vezes o Chevrolet descapotável ao pai e nos levava a dar uma volta pelos molhes, do Terrazas até à quebrada de Armendáriz, a cem à hora.
Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores toda a gente deixou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terramoto que pôs todos os pares infantis, adolescentes e maduros a saltar, pular, fazer figuras, nas festas do bairro. E a mesma coisa acontecia certamente fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, no centro de Lima, no Rímac e no Porvenir, onde nós, os miraflorinos, nunca tínhamos posto os pés nem pensávamos ter de pôr.
E assim como das valsinhas e das huarachas, dos sambas e das polcas tínhamos passado ao mambo, passámos também dos patins e das trotinetas à bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo, por exemplo, à mota, e inclusivamente um ou dois ao automóvel, como o matulão do bairro, Luchín, que roubava às vezes o Chevrolet descapotável ao pai e nos levava a dar uma volta pelos molhes, do Terrazas até à quebrada de Armendáriz, a cem à hora.
sábado, 25 de setembro de 2010
BENVINDOS À BIBLIOTECA
Pareceria, de algum modo, estranho que, começadas as aulas há umas quantas semanas, este blogue mantivesse, como último texto publicado, uma recomendação (aliás, excelente!) de leitura para férias.
As férias já lá vão. Venho desejar um óptimo reinício (e uma óptima continuação, pelo ano fora) de relações, estudos, leituras, almoços, recreios, músicas, pinturas, conversas, descobertas, deslumbramentos, filmes, visitas, abraços, navegações, surpresas, revelações e revoluções...
Possa, uma grande parte dessas experiências, ter lugar na Biblioteca.
As férias já lá vão. Venho desejar um óptimo reinício (e uma óptima continuação, pelo ano fora) de relações, estudos, leituras, almoços, recreios, músicas, pinturas, conversas, descobertas, deslumbramentos, filmes, visitas, abraços, navegações, surpresas, revelações e revoluções...
Possa, uma grande parte dessas experiências, ter lugar na Biblioteca.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
SUGESTÕES PARA FÉRIAS
ESTRELA ERRANTE , Jean-Marie Gustave Le Clézio
É a descrição de uma longa viagem em busca da Terra Prometida; é também a viagem de Hélèna/Esther/Estrela, a menina que ao longo do romance se fez mulher, à procura de si mesma , da sua Identidade, até ao mais fundo de si - é a história de cumplicidades forjadas entre as personagens, fruto de encontros e desencontros, mais ou menos prolongados e que, ainda que fugazes, como o do encontro com Nejma, deixam a marca do desconforto moral , da extrema violência do mundo dos excluídos.
“Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai. Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada terá um encontro com Nejma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos rumo aos campos de refugiados. Esther e Nejma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra”. (nota do editor na badana da capa)
Neste romance acontece um duplo deslumbramento com a melodia e o poder das Palavras:
O da protagonista, ao ouvir os textos sagrados …
” Encostada à parede fria da capela, Esther ouvia de novo as palavras incompreensíveis naquela língua doce e sincopada, sem tirar os olhos do velho iluminado pelas velas. Uma vez mais sentiu um arrepio , como se aquela voz desconhecida soasse apenas para ela, no seu íntimo. A voz baixa, ciciante, lia o livro e aquilo apagava nela a fadiga , o medo e a raiva…(pág.102)...gostava muito de ouvir as histórias que o rabi Joël contava. Abria o seu livro negro e lia lentamente, primeiro naquela língua tão bela, simultaneamente áspera e doce, que eu ouvira no templo, em Saint-Martin. A seguir falava em francês, também lentamente….era como se fosse uma voz interior, que dizia aquilo que estávamos a ouvir. Falava da lei e da religião como se fossem as coisas mais simples do mundo. Explicava simplesmente o que era a alma falando da nossa sombra e o que era a justiça falando da luz do Sol e da beleza das crianças….” (pág. 165)
O deslumbramento do leitor/a com a escrita de Le Clézio, que eleva as palavras a um estado superior ao discurso do dia-a- dia, dando-lhes de novo o poder de invocação da realidade essencial.
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87)
Sem que eu consiga explicar muito bem porquê, Estrela Errante transporta-me para um universo de escrita feminina, o de As Ondas de Virginia Woolf, sem dúvida uma outra matriz de pertença, mas ainda assim o mesmo encantamento, com a música das palavras usadas para descrever uma relação quase fusional com a Natureza:
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87).
Também por isto, e como último apontamento e mais uma sugestão de leitura para férias, deixo um romance de Virginia Woolf – AS ONDAS. Marguerite Yourcenar, sua tradutora para Francês, descreveu assim este romance :
"As Ondas é considerado o melhor e mais radical romance de Virgínia Woolf – um desses raros escritores que nasceu no instante em que uma estrela se pôs a pensar".
É a descrição de uma longa viagem em busca da Terra Prometida; é também a viagem de Hélèna/Esther/Estrela, a menina que ao longo do romance se fez mulher, à procura de si mesma , da sua Identidade, até ao mais fundo de si - é a história de cumplicidades forjadas entre as personagens, fruto de encontros e desencontros, mais ou menos prolongados e que, ainda que fugazes, como o do encontro com Nejma, deixam a marca do desconforto moral , da extrema violência do mundo dos excluídos.

“Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai. Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada terá um encontro com Nejma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos rumo aos campos de refugiados. Esther e Nejma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra”. (nota do editor na badana da capa)
Neste romance acontece um duplo deslumbramento com a melodia e o poder das Palavras:
O da protagonista, ao ouvir os textos sagrados …
” Encostada à parede fria da capela, Esther ouvia de novo as palavras incompreensíveis naquela língua doce e sincopada, sem tirar os olhos do velho iluminado pelas velas. Uma vez mais sentiu um arrepio , como se aquela voz desconhecida soasse apenas para ela, no seu íntimo. A voz baixa, ciciante, lia o livro e aquilo apagava nela a fadiga , o medo e a raiva…(pág.102)...gostava muito de ouvir as histórias que o rabi Joël contava. Abria o seu livro negro e lia lentamente, primeiro naquela língua tão bela, simultaneamente áspera e doce, que eu ouvira no templo, em Saint-Martin. A seguir falava em francês, também lentamente….era como se fosse uma voz interior, que dizia aquilo que estávamos a ouvir. Falava da lei e da religião como se fossem as coisas mais simples do mundo. Explicava simplesmente o que era a alma falando da nossa sombra e o que era a justiça falando da luz do Sol e da beleza das crianças….” (pág. 165)
O deslumbramento do leitor/a com a escrita de Le Clézio, que eleva as palavras a um estado superior ao discurso do dia-a- dia, dando-lhes de novo o poder de invocação da realidade essencial.
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87)
Sem que eu consiga explicar muito bem porquê, Estrela Errante transporta-me para um universo de escrita feminina, o de As Ondas de Virginia Woolf, sem dúvida uma outra matriz de pertença, mas ainda assim o mesmo encantamento, com a música das palavras usadas para descrever uma relação quase fusional com a Natureza:
“ Lembrava-se de querer partir com as nuvens. Porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha, indo até ao mar. Imaginava tudo o que elas viam, os vales, as ribeiras, as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. …. “ (pág.87).
Também por isto, e como último apontamento e mais uma sugestão de leitura para férias, deixo um romance de Virginia Woolf – AS ONDAS. Marguerite Yourcenar, sua tradutora para Francês, descreveu assim este romance :
"As Ondas é considerado o melhor e mais radical romance de Virgínia Woolf – um desses raros escritores que nasceu no instante em que uma estrela se pôs a pensar".
sexta-feira, 25 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
ALICE NO PAÍS DA MATEMÁTICA: ARGUMENTOS E PARADOXOS
E quase no final do ano lectivo,
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sexta-feira, 28 de maio de 2010
A SESSÃO DE BARREIROS
Perante turmas silenciosas, mas não apáticas, João Barreiros, apresentado pela professora Ana Páscoa, falou sobre ficção científica, autores preferidos, razões da segregação do género, sonhos de um porvir auspicioso (graças à ciência e à técnica) versus medos de um porvir trágico (graças à ciência e à técnica), erros de livros e/ou filmes de fc (como raio se propaga o som no vácuo, em Star Wars, ou como seriam possíveis espadas de laser que não esticassem até ao infinito, ou como poderia o homem invisível não ser cego?) e apresentou-nos o «livro do futuro»: o e-book.
O silêncio do público não revelava indiferença, mas um misto de timidez, reverência, atenção.
Barreiros falou, ligou, deslumbrou, lançou piadas, foi politicamente incorrecto, cáustico q. b., espantou com os paradoxos (por exemplo sobre os viajantes no tempo); tratou, a partir das duas ou três únicas perguntas que lhe fizeram, de um seu conto em particular, O Caçador de Brinquedos.
Há-de voltar, para nova sessão, a esta escola em que já deu aulas - a escola que, assim consta da dedicatória que rabiscou no livro oferecido por si à biblioteca, o «acolheu durante longos anos».
O silêncio do público não revelava indiferença, mas um misto de timidez, reverência, atenção.
Barreiros falou, ligou, deslumbrou, lançou piadas, foi politicamente incorrecto, cáustico q. b., espantou com os paradoxos (por exemplo sobre os viajantes no tempo); tratou, a partir das duas ou três únicas perguntas que lhe fizeram, de um seu conto em particular, O Caçador de Brinquedos.
Há-de voltar, para nova sessão, a esta escola em que já deu aulas - a escola que, assim consta da dedicatória que rabiscou no livro oferecido por si à biblioteca, o «acolheu durante longos anos».
segunda-feira, 17 de maio de 2010
UNIDIVERSO
domingo, 16 de maio de 2010
SESSÃO ADIADA
Caríssimos leitores:
Acabo de receber um mail da professora Conceição Pereira, que faria a apresentação de Glen Baxter. Infelizmente, por razões que nos (e lhe) são alheias, a sessão programada não poderá realizar-se. A todos os que mostraram interesse, as minhas sinceras desculpas.
Esperamos que seja um adiamento, não uma desistência definitiva.
Entretanto, a quem tenha ficado com água na boca, sugiro, e até que seja possível realizar-se uma sessão Baxter, que não deixe de pesquisar, porque vale a pena. Glen Baxter é extraordinário e vale realmente a pena ser conhecido!
Sirva o "link" que encontram no post anterior (em que anunciávamos a sessão) como um ponto de partida.
Acabo de receber um mail da professora Conceição Pereira, que faria a apresentação de Glen Baxter. Infelizmente, por razões que nos (e lhe) são alheias, a sessão programada não poderá realizar-se. A todos os que mostraram interesse, as minhas sinceras desculpas.
Esperamos que seja um adiamento, não uma desistência definitiva.
Entretanto, a quem tenha ficado com água na boca, sugiro, e até que seja possível realizar-se uma sessão Baxter, que não deixe de pesquisar, porque vale a pena. Glen Baxter é extraordinário e vale realmente a pena ser conhecido!
Sirva o "link" que encontram no post anterior (em que anunciávamos a sessão) como um ponto de partida.
sábado, 15 de maio de 2010
UNIDIVERSO: GLEN BAXTER
UNIDIVERSO APRESENTA
*GLEN BAXTER: IMAGEM E LEGENDA
Sessão acerca do extraordinário cartunista
dinamizada por
Conceição Pereira & alunos no âmbito de Inglês

5ª-feira, dia 20 de Maio, 8h. 30 min., na Biblioteca/Centro de recursos
(http://www.glenbaxter.com/)
terça-feira, 11 de maio de 2010
UNIDIVERSO: AS PALAVRAS (EN)CANTADAS
Sei, de Tiago Torres da Silva, que tem vasta obra dramática e muitos poemas escritos para canções. Aliás, para os leitores mais curiosos, deixo ligação ao seu blogue, Canções do Tiago, onde poderão espreitar alguma coisa do que ele vem trazendo à música portuguesa. Basta que cliquem aqui.
Contamos com a presença de Tiago Torres da Silva, no âmbito do Unidiverso, na Biblioteca da escola,
Sexta-feira, dia 14,
Às 15 h. 30 min., na sessão
Contamos com a presença de Tiago Torres da Silva, no âmbito do Unidiverso, na Biblioteca da escola,
Sexta-feira, dia 14,

Às 15 h. 30 min., na sessão
sábado, 8 de maio de 2010
ECOS DO UNIDIVERSO
Amigos, tenho sido preguiçoso a dar conta do que vem decorrendo.
Mas - nem sequer isto referi - o primeiro debate acerca do romance de Camus foi excelente. Os alunos, que viram numa fotografia, lá para trás, de dedo no ar, respondendo à pergunta «Quem leu?», não só tinham lido, como (não todos, mas muitos deles) falaram sobre as suas impressões, o perturbador incómodo que lhes ficara aquando da leitura. E, de algum modo, filosofámos. Que sentido tem a vida, que estrangeiros somos, também, todos nós, em que medida nos parecemos com Sísifo na realização das nossas tarefas quotidianas, o que nos resgata do medo, do vazio, da frieza.
João Lemos, por sua vez, foi aquilo a que nos habituou: magnífico.
Fez jus ao que lhe chamei na apresentação: ele próprio «uma ligação de ligações, por vezes um pouco delirante, mas sempre irresistível». Falou da BD ao longo do tempo, mostrou-nos praticamente homens das cavernas inscrevendo já pranchas de Banda Desenhada nas paredes das grutas, falou-nos de como a própria escrita chinesa seria uma estilização de desenhos, ligados numa espécie de narrativa; ou acerca de comics medievais; ou de neuróticos do pormenor desenhado: os meus alunos não me falam de outra coisa - perguntam-me como se chamava o "maníaco da minúcia" que Lemos apresentou. Não me lembro, caramba... ; e concluiu uma sessão inolvidável - para um 7º, um 8º, um 9º e um 10º, público absolutamente inédito - com o testemunho de como os «antigos» contavam, no terreno, uma história aos antílopes, para os levarem a cair no poço. A BD impregnando tudo - todos os tempos, todas as actividades, no cerne da própria caça.
As outras promessas vão-se aproximando. Tiago Torres da Silva, poeta e letrista, que nos vem falar da adaptação das palavras à música (dia 14); João Barreiros, que conversará sobre ficção científica, a partir de um conto seu (27); Gonçalo M. Tavares, que dinamizará um workshop em torno de uma ideia extraordinária. E Glen Baxter. E Alice no País da Matemática. É o universo inteiro a cair-nos em cima. O unidiverso...
Mas - nem sequer isto referi - o primeiro debate acerca do romance de Camus foi excelente. Os alunos, que viram numa fotografia, lá para trás, de dedo no ar, respondendo à pergunta «Quem leu?», não só tinham lido, como (não todos, mas muitos deles) falaram sobre as suas impressões, o perturbador incómodo que lhes ficara aquando da leitura. E, de algum modo, filosofámos. Que sentido tem a vida, que estrangeiros somos, também, todos nós, em que medida nos parecemos com Sísifo na realização das nossas tarefas quotidianas, o que nos resgata do medo, do vazio, da frieza.
João Lemos, por sua vez, foi aquilo a que nos habituou: magnífico.
Fez jus ao que lhe chamei na apresentação: ele próprio «uma ligação de ligações, por vezes um pouco delirante, mas sempre irresistível». Falou da BD ao longo do tempo, mostrou-nos praticamente homens das cavernas inscrevendo já pranchas de Banda Desenhada nas paredes das grutas, falou-nos de como a própria escrita chinesa seria uma estilização de desenhos, ligados numa espécie de narrativa; ou acerca de comics medievais; ou de neuróticos do pormenor desenhado: os meus alunos não me falam de outra coisa - perguntam-me como se chamava o "maníaco da minúcia" que Lemos apresentou. Não me lembro, caramba... ; e concluiu uma sessão inolvidável - para um 7º, um 8º, um 9º e um 10º, público absolutamente inédito - com o testemunho de como os «antigos» contavam, no terreno, uma história aos antílopes, para os levarem a cair no poço. A BD impregnando tudo - todos os tempos, todas as actividades, no cerne da própria caça.
As outras promessas vão-se aproximando. Tiago Torres da Silva, poeta e letrista, que nos vem falar da adaptação das palavras à música (dia 14); João Barreiros, que conversará sobre ficção científica, a partir de um conto seu (27); Gonçalo M. Tavares, que dinamizará um workshop em torno de uma ideia extraordinária. E Glen Baxter. E Alice no País da Matemática. É o universo inteiro a cair-nos em cima. O unidiverso...
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terça-feira, 27 de abril de 2010
UNIDIVERSO
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Oficina de Escrita sobre o Romance Policial
«Numa noite de trovoada, uma jovem de dezoito anos é assassinada na sua própria casa. Encontram o cadáver rodeado pelos seguintes objectos: um anel, um boneco, um cão de peluche, um frasco de verniz, uma borracha, um dado, uma vela praticamente consumida, pauzinhos de um restaurante chinês, e um suporte, em cartão, de papel higiénico.
«É chamado o detective G., feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo. Observando o local, a reconstituição dos acontecimentos parece-lhe óbvia:
« - A jovem tinha um encontro romântico com o seu possível namorado num restaurante chinês. Daí o verniz. É aí que ela recebe o anel; o boneco é um brinde oferecido pelo restaurante. A rapariga regressa a casa, decidida a estudar, pois tem um exame importante; mas há uma falha de energia e, com medo do escuro, acende uma vela e vai buscar o seu bicho de peluche; como a comida chinesa lhe provocou cólicas, foi à casa de banho e gastou o pouco papel que ainda havia. Sem se aperceber, levou, consigo, o cartão do papel higiénico para o quarto. Quanto ao dado, é o mais simples: trata-se da marca do assassino...»
Na oficina de escrita que se realizou em torno do romance policial, o Diogo Catalão e o João Nunes (10º A) apresentaram-nos este detective, «feio como os diabos, magríssimo e com verrugas a cobrir cada cm. quadrado do seu corpo» e puseram-no a relacionar, inteligente e rapidamente, as diversas pistas que lhes haviam sido previamente sugeridas...
sábado, 24 de abril de 2010
ENTRANHADA ESTRANHEZA
quarta-feira, 21 de abril de 2010
MAIO, MÊS DE LIGAÇÕES PERIGOSAS
Senhoras e senhores, meninas e meninos, muito obrigado pela atenção. E agora que sei que, mediante um título carregado de ambiguidade, capturei a atenção de todos, deixem-me dizer-lhes de que se trata efectivamente.
«Ligações Perigosas» remete para a descoberta de que, num sentido ou noutro (ou em vários sentidos simultaneamente), tudo tem que ver com tudo: as disciplinas não estão verdadeiramente separadas: há literatura na matemática e matemática na literatura, há filosofia em qua
se tudo quanto fazemos (e até no que não fazemos), há poesia na música - e esta ideia da existência de miríades de minúsculas conexões entre o que aparentemente é diferente constitui o fio condutor que, apresentando-nos o universo como sendo um "unidiverso", irá orientar uma série de "ligações" ao longo destes meses do último período, com particular incidência em Maio.
Por exemplo, nesta sexta-feira (23 ainda de Abril), de manhã, haverá uma sessão/oficina de escrita: Outr
os Géneros e Coisas desse Género, Parte I: O Policial; a anunciar mais tarde, haverá um Outros Géneros e Coisas desse Género dedicado à ficção científica (com a presença de João Barreiros, autor) e um terceiro dedicado à banda desenhada (com João Lemos, que nos propõe um workshop).
Os profes de filosofia preparam um mergulho filosófico na literatura, associando-se às homenagens que têm sido dedicadas a Camus, por ocasião dos cinquenta anos do seu falecimento. Trata-se de Entranhada Estranheza, série de debates acerca de O Estrangeiro, no âmbito do tema: o sentido da existência.
Por outro lado, a matemática, já em Maio, pegará no delicioso Alice no País das Maravilhas para nos dar
conta de como a lógica e a matemática estão presentes em alguns dos argumentos usados pelas personagens do romance de Carroll.
E outros temas, outras personagens, outros grupos, outras ligações irão preenchendo as semanas: falar-se-á sobre o polivalente Glen Baxter, e também sobre Antígona; esperamos convidados, sobretudo na medida em que seja possível revelarem-nos como, inesperadamente, diversas áreas se ligam ao que fazem: o cinema, o teatro, a poesia e a crónica (Pedro Mexia), a literatura e a História (João Paulo Borges Coelho), a literatura e a educação física (Gonçalo M. Tavares). Entre outros...
Sem urgências nem afogueamentos, paulatinamente, ao longo de vários dias, o universo da escola será a exibição do unidiverso...
«Ligações Perigosas» remete para a descoberta de que, num sentido ou noutro (ou em vários sentidos simultaneamente), tudo tem que ver com tudo: as disciplinas não estão verdadeiramente separadas: há literatura na matemática e matemática na literatura, há filosofia em qua
se tudo quanto fazemos (e até no que não fazemos), há poesia na música - e esta ideia da existência de miríades de minúsculas conexões entre o que aparentemente é diferente constitui o fio condutor que, apresentando-nos o universo como sendo um "unidiverso", irá orientar uma série de "ligações" ao longo destes meses do último período, com particular incidência em Maio.Por exemplo, nesta sexta-feira (23 ainda de Abril), de manhã, haverá uma sessão/oficina de escrita: Outr
os Géneros e Coisas desse Género, Parte I: O Policial; a anunciar mais tarde, haverá um Outros Géneros e Coisas desse Género dedicado à ficção científica (com a presença de João Barreiros, autor) e um terceiro dedicado à banda desenhada (com João Lemos, que nos propõe um workshop).Os profes de filosofia preparam um mergulho filosófico na literatura, associando-se às homenagens que têm sido dedicadas a Camus, por ocasião dos cinquenta anos do seu falecimento. Trata-se de Entranhada Estranheza, série de debates acerca de O Estrangeiro, no âmbito do tema: o sentido da existência.
Por outro lado, a matemática, já em Maio, pegará no delicioso Alice no País das Maravilhas para nos dar
conta de como a lógica e a matemática estão presentes em alguns dos argumentos usados pelas personagens do romance de Carroll.E outros temas, outras personagens, outros grupos, outras ligações irão preenchendo as semanas: falar-se-á sobre o polivalente Glen Baxter, e também sobre Antígona; esperamos convidados, sobretudo na medida em que seja possível revelarem-nos como, inesperadamente, diversas áreas se ligam ao que fazem: o cinema, o teatro, a poesia e a crónica (Pedro Mexia), a literatura e a História (João Paulo Borges Coelho), a literatura e a educação física (Gonçalo M. Tavares). Entre outros...
Sem urgências nem afogueamentos, paulatinamente, ao longo de vários dias, o universo da escola será a exibição do unidiverso...
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domingo, 18 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
REI ÉDIPO de SÓFOCLES REVIVE NO TEATRO NACIONAL
A cidade de Tebas encontrava-se aterrorizada pela Esfinge. Creonte, cunhado do rei Laio, oferecia o reino a quem pudesse derrotar a Esfinge, enquanto que o rei procurava ajuda. Édipo chegou à cidade e conseguiu o que se considerava impossível – derrotar o monstro. A boa notícia espalha-se, juntamente com a notícia terrível da morte do antigo rei. Salteadores atacaram-no durante a sua viagem, de acordo com a única testemunha.
Os anos decorreram. Édipo casou-se com a rainha Jocasta, governando juntos a cidade de Tebas. Esta, no entanto, é atacada por uma violenta peste, e muitos procuram uma solução. De acordo com o deus Apolo, apenas a punição do assassino do rei Laio poderá trazer de novo prosperidade à cidade decadente.
Os anos decorreram. Édipo casou-se com a rainha Jocasta, governando juntos a cidade de Tebas. Esta, no entanto, é atacada por uma violenta peste, e muitos procuram uma solução. De acordo com o deus Apolo, apenas a punição do assassino do rei Laio poderá trazer de novo prosperidade à cidade decadente.
É precisamente neste ponto que se enquadra a acção de o Rei Édipo. A peça consiste na procura do criminoso. A única pista que as personagens têm para prosseguir é uma premonição de Apolo, segundo a qual o rei Laio seria morto pelo próprio filho, e este casar-se-ia com a sua mãe. Enquanto a acção se desenrola, podemos, pois, assistir à revelação dos segredos do passado de Édipo, que são mais obscuros do que, a princípio, se pode imaginar.
A interpretação da peça encenada no Teatro Nacional D. Maria II é uma versão actualizada. Jorge Silva Melo, o encenador da tragédia, pretendeu uma identificação dos espectadores com a situação retratada. Apesar de a história ter vários elementos mantidos da tragédia escrita por Sofócles, o ambiente transmitido é relativamente contemporâneo, através, por exemplo, das roupas, ou dos instrumentos musicais utilizados (maioritariamente de percussão).
Diogo Infante (Rei Édipo), Lia Gama (Rainha Jocasta) e Virgílio Castelo (Creonte), entre outros, dão vida e força à peça. A banda sonora encontra se a cargo de Pedro Carneiro, um percussionista excepcional. Não há momentos mortos em O Rei Édipo, devido a esta banda sonora, que preenche, de forma extraordinária, as pausas da peça. Concluindo, O Rei Édipo é uma peça magnífica, muito bem interpretada e com uma banda sonora muito rica.
Aristóteles considerou a tragédia original de Sofócles como a melhor peça da Antiguidade. Tendo em conta esta opinião, que opinião expressaria sobre esta interpretação, caso ainda vivesse? Ninguém sabe. Mas provavelmente adoraria. Tal como eu adorei.
DIOGO NOGUEIRA, 11.ºC
A interpretação da peça encenada no Teatro Nacional D. Maria II é uma versão actualizada. Jorge Silva Melo, o encenador da tragédia, pretendeu uma identificação dos espectadores com a situação retratada. Apesar de a história ter vários elementos mantidos da tragédia escrita por Sofócles, o ambiente transmitido é relativamente contemporâneo, através, por exemplo, das roupas, ou dos instrumentos musicais utilizados (maioritariamente de percussão).
Diogo Infante (Rei Édipo), Lia Gama (Rainha Jocasta) e Virgílio Castelo (Creonte), entre outros, dão vida e força à peça. A banda sonora encontra se a cargo de Pedro Carneiro, um percussionista excepcional. Não há momentos mortos em O Rei Édipo, devido a esta banda sonora, que preenche, de forma extraordinária, as pausas da peça. Concluindo, O Rei Édipo é uma peça magnífica, muito bem interpretada e com uma banda sonora muito rica.
Aristóteles considerou a tragédia original de Sofócles como a melhor peça da Antiguidade. Tendo em conta esta opinião, que opinião expressaria sobre esta interpretação, caso ainda vivesse? Ninguém sabe. Mas provavelmente adoraria. Tal como eu adorei.
DIOGO NOGUEIRA, 11.ºC
(Depois de ter ido assistir à peça, com as turmas 11.ºC e 11.º F)
E COMO FOI O SERÃO?
Tenho pena de não poder falar-vos sobre o Serão Romântico mas, infelizmente, não pude estar presente. Uma doença inculta e anti-romântica atirou comigo de gatas para a cama, onde fiquei sofrendo, a pensar no que estava a perder.
Escrevo este post, pois, simplesmente pedindo às repórteres que cumpram a sua missão. A alguma das afortunadas presentes no serão, que nos conte, que nos mostre o que foi.
Nós, que não estivemos lá, pelas mais variadas razões, e só perdemos com isso, agradecemos e aguardamos.
Escrevo este post, pois, simplesmente pedindo às repórteres que cumpram a sua missão. A alguma das afortunadas presentes no serão, que nos conte, que nos mostre o que foi.
Nós, que não estivemos lá, pelas mais variadas razões, e só perdemos com isso, agradecemos e aguardamos.
sábado, 27 de março de 2010
DESCOBRINDO MEXIA

Cronista, poeta, dramaturgo, crítico de cinema, Pedro Mexia esteve na escola, a convite do Clube de Cinema, para apresentar um dos seus filmes de eleição.
Descubro-o agora, vagarosamente, como poeta.
Por exemplo, neste poema do seu livro Eliot e Outras Observações:
ALUNOS DO LICEU
Alunos do liceu que me passais pela retina
porque não vos fixais? Encostados ao vento
descem a rua, bando feliz, alguns isolados
em pequenas tristezas. Os rapazes, na sua rudeza
artificial, trazem raquetes, usam neologismos,
enquanto as raparigas, que ontem mesmo
despontaram, segredam cenários entre sorrisos.
Todos rua abaixo, mesmo a tempo
da aula das oito, e trazendo nas mochilas
insuspeitados tesouros.
segunda-feira, 22 de março de 2010
PRÉMIO DE POESIA PARA A NOSSA ESCOLA
NO DIA MUNDIAL DA POESIA, NO CCB
Mais uma vez, a nossa Escola recebeu um importante Prémio de Poesia.
Desta vez foi o 2.º Prémio do Secundário, no Concurso Nacional "Faça Lá um Poema", promovido pelo Plano Nacional de Leitura e o Centro Cultural de Belém.
Sejamos mais rigorosos. Quem recebeu o prémio foi o João de Almeida d'Eça, do 11.ºF, e o poema - extraordinário poema - é "Morte em Veneza".
Estivemos no CCB, na cerimónia de entrega dos prémios, integrada nas comemorações do DIA MUNDIAL DA POESIA, e ficámos a saber, pelo Fernando Pinto do Amaral, presidente do PNL e do Júri, que estiveram em concurso mais de 2500 poemas. A única coisa que ocorre dizer é que foi muito emocionante ouvir o João ler, maravilhosamente, o seu poema. A perplexidade face a esta tão madura reflexão sobre a fugacidade da beleza e da juventude, submetidas ao peso implacável do tempo, esse escultor, não deixa de nos acompanhar. Thomas Mann e Visconti estiveram por momentos sentados, ao nosso lado, no grande auditório do CCB.
Parabéns, João, por os teres convidado!
Já que não ficou registo gravado desse instante tão intenso, transcreve-se o poema.
MORTE EM VENEZA
Todos morremos em Veneza
todos somos Aschenbach
vendo a juventude fugir
esvaindo-se por entre os dedos.
Todos encontramos o pequeno Anselmo
e todos o perdemos entre a bruma da maré
e quando ele reaparece, tarde de mais,
jazemos mortos na areia cálida
o bafo moribundo contra a corrente
os olhos brancos fitando o céu.
E o pequeno Anselmo foge
em toda a sua resplandecência
vendo a nossa carcaça velha
apodrecer ao sol poente.
Sim! Todos somos Aschenbach
e vimos morrer a Veneza
roídos pela frustração,
pela dúvida e pela incerteza
e todos vemos o pequeno Anselmo
fugir com a sua beleza!
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