domingo, 15 de novembro de 2009

CONTINUANDO À VOLTA DOS LIVROS

E ainda vagamente a pretexto de livros, não resisto a transcrever esta passagem que, entre outras qualidades, me parece tão sugestiva e tão bem escrita:

«Vejo-o, por exemplo, atrás do balcão no seu fato preto impecável, o cabelo bem penteado, a cara pálida de contornos definidos. Quando entra um cliente, coloca com cuidado o seu cigarro aceso no rebordo do cinzeiro e, esfregando as mãos magras, satisfaz zelosamente as necessidades do comprador. Por vezes - em particular se for uma senhora - faz um sorriso débil para exprimir condescendência para com os livros em geral, ou talvez escarnecendo de si próprio no papel de vulgar vendedor, e dá conselhos valiosos - isto vale a pena ler, ao passo que aquilo é um tanto pesado; aqui descreve-se de um modo assaz divertido a eterna guerra dos sexos e este romance não é profundo, mas é muito fresco, muito inebriante, sabe, como champagne. E a dama que tinha comprado o livro, a dama de lábios vermelhos e casaco de peles preto, leva consigo a imagem fascinante: aquelas mãos delicadas pegando nos livros com alguma falta de jeito, aquela voz contida, aquele sorriso fugaz, aqueles modos admiráveis. Em casa dos Khrustchov, porém, Smurov [que é, obviamente, a personagem que tem estado a ser descrita] começava já a causar uma impressão algo diferente numa certa pessoa.»

Este excerto, que é uma lição completa, foi escrito por Vladimir Nabokov. Encontra-se num livro chamado O Olho. Traduzido - e muito bem - por Telma Costa e editado pela Teorema.

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