sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DE ÁLVARO DE CAMPOS


Hoje é dia aniversário de Álvaro de Campos, o heterónimo que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890. (Por isso se realiza, nessa cidade, o I Encontro Internacional Álvaro de Campos).

A propósito de Campos poderíamos dizer 1001 coisas diferentes.
Optamos por deixar aqui 2 convites: uma visita à página da Casa Fernando Pessoa (cujo link está nesta nossa página) e uma leitura do poema "Aniversário". Claro!

Para além disso, transcrevemos alguns versos da "Ode Marítima", em homenagem ao mar de Tavira, onde Campos nasceu, ao mar de Lisboa, que Campos amou, ao mar de Glasgow, onde Campos estudou engenharia naval.

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
(............................................................................)

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

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